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maio 1, 2021
Hábito | Habitante na EAV Parque Lage, Rio de Janeiro
EAV Parque Lage inaugura exposição coletiva e interativa no Dia do Trabalhador, com obras de mais de 40 artistas brasileiros de diferentes gerações. Montada nas Cavalariças e na Capelinha, mostra transforma os espaços em estúdio com fundo infinito e amplia possibilidades de intervenção virtual.
A Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV Parque Lage) inaugura, no próximo dia 1º de maio de 2021, Dia do Trabalhador, a mostra coletiva Hábito/Habitante, cujo nome toma por empréstimo dois termos de uma série de 1985, de Martha Araújo, artista plástica alagoana e ex-aluna da instituição.
Nas Cavalariças e na Capelinha, a exposição reúne obras de mais de 40 artistas brasileiros de diferentes gerações e apresenta um arco de trabalhos que partem da década de 1960 e apontam para as coletividades. A curadoria de Ulisses Carrilho é pautada por conceitos como vigilância, controle e captura dos corpos, discutidos em “1984”, o clássico livro de George Orwell, tão presentes em tempos pandêmicos. São cerca de 60 obras que aludem a discursos sociais e refletem sobre ideias como “hábito”, “repetição” e “distância”, que foram radicalmente reorientadas pela pandemia da Covid-19.
Inicialmente elaborada para integrar a programação da UIA 2020 RIO - 27º Congresso Mundial de Arquitetos, a exposição propõe uma reflexão sobre as diferentes formas de habitar o espaço – físico ou virtual – e exibe trabalhos de artistas de diferentes gerações, como Anna Bella Geiger, Cildo Meireles, Diambe, Ernesto Neto, Guga Ferraz, Hudinilson Jr. (1957-2013), Martha Araújo, PV Dias, Ricardo Basbaum, Tadáskía, Wanda Pimentel (1943-2019) e 3nós3.
Para não incentivar a aglomeração, as Cavalariças e a Capelinha dão lugar a uma espécie de estúdio, em que os projetos de arte, artistas e o público reduzido compõem um grande cenário. Ao invés do “cubo branco”, o espaço foi pintado em verde chroma key, onde a grande tela atua como suporte para que os visitantes, com seus celulares, absorvam o conteúdo disponível numa plataforma digital. Uma aplicação desenvolvida especialmente para a exposição será disponibilizada como filtro de Instagram. Ao vivo, ao adicionar suas próprias imagens como pano de fundo dos trabalhos apresentados, o espectador assume a função de “diretor” deste espaço de transmissão, capaz de ampliar o acesso para todo o Brasil.
Para Carrilho, Hábito/Habitante reforça a importância das coletividades, com uma investigação sobre como o cotidiano dos espaços influencia e dá forma às pessoas: “Para além dos aspectos práticos, objetivos e diretivos, nos interessa pensar a arte como articulação coletiva. Esta mostra é a favor do isolamento, mas contra a solidão”, comenta o curador. Ulisses aponta ainda que a arte pode agir através da força e resistência dos artistas e por isso a exposição será inaugurada no Dia do Trabalhador. “É momento de entendermos e renegociarmos a maneira como criamos e exercemos alianças. E como, apesar das distâncias, vamos exercitar a coletividade”, reflete.
“Criar é uma estratégia para habitar o mundo. Essa não é uma mostra sobre arquitetura, pandemia ou história da arte, mas sobre os indivíduos, os usos das imagens e dos espaços. Não há ‘corpo médio’ e nem normalidade. Certos corpos nunca foram convidados à coletividade”, analisa o curador.
A realização da mostra Hábito/Habitante coroa uma série de iniciativas artísticas e educacionais da EAV Parque Lage para ampliar o acesso à arte e a um ensino de qualidade mesmo em tempos de isolamento. Atualmente, os cursos da Escola seguem de modo remoto.
Para Yole Mendonça, diretora da instituição, o esforço realizado para manter em atividade os cursos da EAV no ano passado, a levou para o universo digital, nacionalizando sua atuação: “Hoje, temos alunos em 21 estados brasileiros mais o Distrito Federal, o que nos tornou ainda mais responsáveis pela fruição das experiências artísticas que acontecem na EAV. Desse modo, além da garantia de segurança física aos visitantes presenciais, por meio do agendamento on-line que visa à manutenção do ambiente expositivo sem aglomeração, transformamos a exposição num espaço de transmissão, no qual tanto nossos alunos, quanto os visitantes de todo o país poderão, por meio de seus celulares, ter uma experiência diferenciada com a exposição como se a estivessem visitando in loco”, avalia a diretora.
A exposição Hábito/Habitante integra o Plano Anual de Atividades da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, patrocinado pelo Instituto Cultural Vale.
Sobre a Escola de Artes Visuais
A Escola de Artes Visuais foi criada em 1975, pelo artista Rubens Gerchman, para substituir o Instituto de Belas Artes (IBA). Seu surgimento acontece em plena Guerra Fria na América Latina, durante o período de forte censura e repressão militar no Brasil. A EAV afirma-se historicamente por seu caráter de vanguarda, como marco da não conformidade às fronteiras e categorias, e propõe regularmente perguntas à sociedade por meio da valorização do pensamento artístico.
Alguns exemplos marcantes da história do Parque Lage são a utilização do palacete como sede do governo da cidade de Alecrim em Terra em Transe, dirigido por Glauber Rocha em 1967; e a exposição “Como Vai Você, Geração 80?”, que reuniu 123 jovens artistas de diferentes tendências numa mostra que celebrava a liberdade e o fim do regime militar. O palacete em estilo eclético também foi palco de “Sonhos de uma noite de verão”, clássico shakespeariano, e serviu como locação para Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.
A Escola de Artes Visuais do Parque Lage está voltada prioritariamente para o campo das artes visuais contemporâneas, com ênfase em seus aspectos interdisciplinares e transversais. Abrange também outros campos de expressão artística (música, dança, cinema, teatro), assim como a literária, vistos em suas relações com a visualidade. As atividades da EAV contemplam tanto as práticas artísticas como seus fundamentos conceituais.
A EAV Parque Lage configura-se como centro educacional aberto de formação de artistas e profissionais do campo da arte contemporânea. Como referência nacional, com uma consistente imagem no meio da arte, a EAV busca criar mecanismos internos e linhas de atuação externa que permitam um diálogo produtivo com a cidade e com o circuito de arte nacional e internacional. A instituição integra a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do estado do Rio de Janeiro.