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outubro 28, 2009
Espaços, intercâmbios e cooperação no âmbito da arte, mesa relatada por Ana Elisa Carramaschi
III Simpósio internacional de arte contemporânea do Paço das Artes
Espaços, intercâmbios e cooperação no âmbito da arte
Relato realizado por Ana Elisa Carramaschi
A mesa Espaços, intercâmbios e Cooperação no âmbito da arte foi composta pelos palestrantes James Wallbank (Access-Space Lab, Inglaterra), Pep Dardanya (Can Xalant, Espanha); Daniela Bousso, Roberto Winter e Luiza Proença apresentaram cases de exposições. A mesa contou com a mediação de Giselle Beiguelman (artista e professora do curso de Comunicação e Semiótica da PUC-SP) e com a participação de Marcos Moraes (coordenador do Curso de Artes Plásticas da FAAP) como debatedor. A mesa enfocou a criações de plataformas para o desenvolvimento de trabalhos interdisciplinares, geração de condições ideais para possibilitar a pesquisa e a criação de ambientes físicos e/ou virtuais de processos colaborativos, como mídia-labs e residências.
James Wallbank abre a mesa apresentando o projeto que coordena, o Acess-Space, laboratório de mídia digital localizado em Sheffield, norte da Inglaterra. O desenvolvimento desse espaço parte do diagnóstico de uma cidade pós-industrial, devastada pelo desemprego em massa devido ao declínio da indústria pesada (carvão e aço) e que hoje luta para transformar-se em um centro de economia criativa.
Como um jovem artista, Wallbank passou a se interessar por sucatas e resíduos. Em um determinado momento depois de ter encontrar muito material tecnológico descartado, chegou a conclusão de que uma cidade que tentava se envolver com tecnologia e com a economia da informação, estava jogando fora seus equipamentos. Para o palestrante, a definição de lixo não está ligada ao objeto, mas sim à incapacidade das pessoas de se relacionarem com este objeto de maneira criativa. E afirma que a crise ecológica não está relacionada ao excesso de material, mas sim ao déficit de criatividade.
O Acess-Space surge com o objetivo de fazer a comunidade envolver-se com criatividade digital, com a reciclagem de computadores, a aprendizagem colaborativa, com o software livre e com a construção de um senso de comunidade. Nas palavras de Wallbank: “estou muito mais interessado no processo de criatividade, nomeadamente na sua capacidade de capacitar, que em obras físicas para meu próprio bem.”
Wallbank exibe algumas obras que foram realizadas no Acess-Space de maneira colaborativa. E sugere que o ciclo de atividades que envolve a comunidade dentro do Acess-Space pode ser uma obra de arte em si. Enfatiza a importância de mudar a consciência da arte em termos de objetos, portanto a relação com a realização e construção de resultados (como objetos ou instalações) importa enquanto prática e processo. Afirma que o Acess-Space não deve ser entendido como um serviço, mas sim como uma pergunta que é feita as pessoas que frenquentam o laboratório: “Como a partir da convivência nesse espaço você pode transformar a sua vida? Aumentando sua rede de contatos, abrindo uma empresa?” É um exercício que a partir de um ciclo de atividades criativas, pretende capacitar pessoas a tornarem-se produtoras de informação, e não consumidoras.
Espaços de Contágio
Pep Dardanyà aborda o tema Espaços de Contágio enfocando as práticas artísticas que se manifestam em Can Xalant Centro de Creación y Pensamiento Contemporâneo, que desenvolve-se como um laboratório de experiências inovadoras, não para a produção de objetos, mas como um espaço para pesquisa que lida também (ou até?) com a possibilidade do fracasso.
O laboratório fornece bases para que projetos artísticos possam ser desenvolvidos, com infra-estrutura que vai desde de espaços de ilha de edição até o desenvolvimento de atividades complementares como workshops, etc. Os processos começam pela pesquisa, passando pela fundamentação e depois à difusão da produção. A intenção é construir um espaço fora dos espaços tradicionais e que seja favorável ao intercâmbio de experiências e de artistas que venham acrescentar ao contexto artístico catalão.
Segundo Pep Dardanyà, a idéia de que o papel do artista mudou é fundamental para entender os conceitos de gerência dos projetos. Não se define mais o artista por alguma técnica, mas sim por um compêndio de atividades, práticas e expectativas em relação ao seu trabalho, que pode ser construído usando muitas metodologias. Torna-se portanto fundamental também lidar com a idéia de especificidade, quer dizer, cada artista e cada projeto exige uma metodologia, um tipo de hibridização, um tipo de intercâmbio com profissionais de outras áreas… Com este argumento, o palestrante retoma a temática da perda da autoria, de inter(ou trans?)disciplinaridade, da colaboração e chega a idéia de contágio.
Dardanyà levanta questões que surgem a partir dessa situação: Que diferença gera esse novo contexto de produção, essa nova característica? Qual a diferença de um centro de exposição e um centro de produção? E comenta que um espaço expositivo simplesmente incorpora conceitos comerciais e num espaço de produção como a Can Xalant é feita uma negociação dos interesses primários da produção que o artista quer desenvolver.
Cases
Roberto Winter e Luiza Proença apresentam a curadoria Temporada de Projetos na Temporada de Projetos. Este projeto foi selecionado pelo edital Temporada de Projetos e está atualmente em exposição no Paço das Artes. A proposta curatorial reflete sobre a pesquisa, a discussão, a apresentação e a mediação de arte contemporânea por meio de uma reflexão crítica sobre a prática de elaboração de projetos.
Temporada de Projetos na Temporada de Projetos, além de expor uma grande parte dos projetos (selecionados ou não) pelo edital, propõe encontros e oficinas, que geram uma discussão pública e aberta sobre a produção de projetos. Além disso, articula ferramentas da internet ao redor de um site buscando criar comunicação entre os envolvidos e relatar o próprio processo de desenvolvimento da exposição.
Luiza Proenza afirma que o que há de interessante a se pensar numa exposição de projetos é o quanto que eles podem conter uma parte da obra que nunca poderá se concretizar (e as vezes até substituí-la) e também fornecer acesso a essa parte da produção das obras que é geralmente revelada apenas ao júri.
Daniela Bousso relata a exposição Ocupação, realizada em 2005, momento em que o Paço das Artes estava prestes a fechar as portas por falta de verba. Ocupação teve entre seus objetivos a abertura do espaço à ocupação livre de um grupo de artistas que não foi selecionado por nenhum tipo de júri, mas que se apresentou espontaneamente à participação com o compromisso de permanecer por quatro horas diárias no espaço expositivo, durante doze dias, para que pudesse estabelecer trocas com o público.
Nas palavras de Daniela Bousso, “o projeto surge como uma maneira de não se manter calado diante da total ausência de políticas públicas culturais para o exercício da arte contemporânea, e afim de criar oportunidade de encontros e trocas entre os interessados na continuidade de uma instituição como o Paço das Artes”. Por fim, o projeto ganha o prêmio da APCA como melhor iniciativa cultural de 2005.
Debate
O debate é aberto com Marcos Moraes que questiona sobre os processos de formação na Acess-Space e sobre a definição do Can Xalant enquanto espaço de “produção” e não de “criação”.
Segundo Pep Dardanyà, as questões discutidas dentro da proposta da residência Can Xalant fazem significar que ali dentro, as relações do campo da arte vão para muito além da produção/comercialização, e rompem o mito de que a arte é um sistema autônomo. Os projetos dialogam com a idéia de que o sistema da arte é interdependente de outras produções e de outros processos de conhecimento produzidos através de outros conceitos profissionais.
Quanto ao Acess-Space, parece-me que o espaço tenta cumprir um papel de formação movido por um desejo de transformação da qualidade de vida de uma comunidade através do fazer artístico. Dentro desta perspectiva, fala-se de gerar prazer e sentimento de pertencimento de forma afetiva, que tem a ver com um lifestyle e com um sentimento utópico de que a arte tem o poder de reformular conceitos e mudar o mundo.