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Como atiçar a brasa

 


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julho 17, 2017

Gestos vitais ao porvir por Luisa Duarte, O Globo

Gestos vitais ao porvir

Crítica de Luisa Duarte originalmente publicada no jornal O Globo em 17 de julho de 2017.

Com curadoria de Marisa Flórido, a mostra ‘Miragens’ se inspira na Saara e expressa a vitalidade advinda do caos

Miragens, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, RJ - 05/06/2017 a 22/07/2017

Em uma época de grave crise como a que atravessamos hoje, somos convocados a imaginar e criar, diariamente, diferentes formas de resistência.

Se a situação atual da cidade, do estado e do país gera massacres de diferentes tipos, retirando direitos dos cidadãos, esvaziando os sonhos dos jovens por uma vida mais digna, ou ainda, em geral, deixando a todos com uma sensação de temor e incerteza no horizonte, essa mesma situação pode, também, nos seus melhores casos, inaugurar gestos que nos recordam a chance de seguir de maneira vital em meio ao nevoeiro espesso e complexo no qual caminhamos hoje.

A coletiva “Miragens”, curada por Marisa Flórido, no Centro de Arte Hélio Oiticica, é um gesto dessa natureza.

Ao ser convidada pelo CAHO para pensar uma exposição a partir da questão da cidade, tendo como leitmotiv a região na qual o Centro se encontra, a Saara (Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega), Flórido edificou, em conjunto com sete artistas que haviam sido seus alunos — Claudia Lyrio, Gilberto Martins, Fernanda Leme, Talita Tunala, Rafael Prado, Eduardo Garcia e Jean Araújo —, uma mostra realizada com poucos recursos financeiros mas prenhe de pensamento.

A partir dessa provocação inicial os artistas deram início a uma pesquisa na região, de tal forma que o que vemos na exposição é um cruzamento da poética de cada um e as impressões despertadas nesse encontro.

Na mostra, a cidade e a Saara são pontos de partida que não se tornam temas ilustrados de maneira literal. Na medida em que cada uma dessas respostas vinha ao mundo começava uma outra rede de diálogo. Dessa vez, a curadora, em parceria com um dos artistas, Gilberto Martins, se punha a escrever um pequeno conto que traduzia uma “cidade”.

No caso da obra de Eduardo Garcia, o que testemunhamos é uma evocação da pólis como espaço de trocas monetárias. “Apagamento” é uma instalação na qual vemos uma máquina de realizar compras em débito ou crédito à frente de uma multidão de comprovantes de transações apropriados do comércio da região da Saara.

O texto que traduz essa cidade de fluxos financeiros nos diz: “Que os rios correm como o tempo, disso nunca houve dúvida em ‘Cérbera’, cidade onde o fluxo é lei, nada deve fixar, os excedentes são sinal de prestígio e sinônimo de passagem, como estendidos apertos de mão ao som do silvo de guardas de trânsito fluvial, determinando que todos sigam logo seu destino de transeuntes e consumidores. ‘Cérbera’, cidade das águas, possui cinco rios invisíveis onde se vive em trocas perpétuas: Dádiva, Avareza, Ganância, Fetiche, Espetáculo.”

CALVINO COMO INSPIRAÇÃO

Lembrando Ítalo Calvino e o seu “Cidades invisíveis”, os ensaios que antecedem cada trabalho nos alimentam de forma poética e crítica para o encontro por vir. “Lexia” é a pólis de Gilberto Martins.

Em sua obra “Sem título” (2017) vemos um grande bloco formado por milhares de jornais empilhados e marcados com tinta asfáltica. O veículo que comercializa a notícia tem a sua dimensão verbal eclipsada em favor de sua aparição enquanto pura imagem. O artista subverte a cronologia dos dias, comprime anos em um só tempo e espaço. A rua adentra através do asfalto, que é tanto tinta quanto combustível fóssil.

Uma mostra como “Miragens”, cujo título significa “espelhismo”, ou seja, o efeito óptico produzido pela reflexão da luz solar que ocorre nas horas mais quentes, mas também quimera, sonho, finda por surgir como um exemplo para o tempo por vir. Ato de resistência que nos recorda a chance de uma potência vital e ativa por meio da arte em meio ao nevoeiro crepuscular que atravessamos.

Publicado por Patricia Canetti às 12:22 PM


Ex-parceiro de Paulo Bruscky reivindica autoria de performance do artista na atual Bienal de Veneza por Silas Martí, Folha de S. Paulo

Ex-parceiro de Paulo Bruscky reivindica autoria de performance do artista na atual Bienal de Veneza

Post de Silas Martí originalmente publicado em seu blog no jornal Folha de S. Paulo em 11 de julho de 2017.

Ex-parceiro criativo de Paulo Bruscky entre as décadas de 1970 e 1990, Daniel Santiago vem atacando o ex-amigo por esconder seu envolvimento na elaboração da performance que realizou em maio na abertura da Bienal de Veneza, uma obra concebida pela extinta dupla Bruscky & Santiago.

Nos Giardini da mostra italiana, Bruscky empilhou caixas do tipo usadas para embalar obras de arte, executando só agora uma ação pensada pelos dois em 1973. Um telex daquele ano traz, de fato, o nome dos dois artistas como autores da performance.

Santiago, que acusa o ex-parceiro de só querer ganhar dinheiro com a venda dessas caixas, postou uma imagem do documento nas redes sociais. O mesmo telex também está reproduzido no catálogo da Bienal de Veneza, que não faz, no entanto, qualquer menção a Santiago ao descrever o trabalho como um “marco pioneiro da arte conceitual da América do Sul”.

Bruscky diz que fez questão que o telex fosse mostrado e reconhece a autoria compartilhada. “Ele pode dizer o que quiser, não me incomoda. Não tenho culpa da minha projeção.”

Atualização Depois da publicação da nota acima, o artista Daniel Santiago publicou um comentário em seu perfil no Facebook dizendo que a redação do texto foi “capciosa”, sugerindo que eu tenho algum tipo de ligação com a galeria Nara Roesler e por isso teria dito que ele está “atacando”, termo meu, seu ex-parceiro criativo Paulo Bruscky. Esclarecendo qualquer dúvida, e demonstrando que seu tom em nossa conversa foi, sim, de ataque, publico abaixo a íntegra de nossa conversa por telefone.

Ele transformou a obra numa performance. Aquela obra não era para ser feita em performance. Aquela obra foi mandada por telegrama para um salão no Paraná. O pessoal do salão devia pegar todas as caixas que embalaram as obras dos outros artistas e colocar em exposição dentro do salão. E o nome do trabalho era “Arte Se Embala Como Se Quer”.

Esse telegrama está no meu Facebook. E esse telex foi publicado num livro de Paulo Bruscky.

Ele repetiu uma obra da equipe Bruscky Santiago. E essa obra foi boa porque aquelas caixas agora vão valer muito para a galeria da Nara Roesler. Cada caixa daquela agora vai valer uma fortuna. A gente não podia mandar essa proposta na época porque já era tarde.

Não sei se fizeram. Mas o próprio telegrama já era uma obra de arte completa.

Ele não fala nada. Tem uma escultura de gelo que ele repetiu umas cem vezes, e é da equipe Bruscky & Santiago. Quando ele tinha uma ideia, ele fazia individualmente. Quando é da equipe, eu que fazia. Eu fazia porque era bom de trabalhar em equipe.

Não reclamo nada. Só estou publicando isso, que é para esclarecer para a história da arte, para os curadores e os jornalistas saberem. É curioso pelo seguinte: um trabalho feito em 1973 em 2017 está na maior bienal do mundo. Como é que um trabalho feito em 1973 agora estoura numa bienal no século 21? Achei curioso isso. O artista fica satisfeito.

Se fosse eu que fosse fazer esse trabalho, não teria feito daquele jeito. Aquele trabalho foi uma performance meio brega. Ele está com uma cara que parece que está doente. Não gostei daquela roupa dele, ele devia estar de paletó e gravata, de acordo com a Bienal.

Não quero dinheiro nenhum. Estou só dizendo o que aconteceu. Estava até pensando que você não publicava alguma coisa a esse respeito porque talvez a galeria tenha bom relacionamento com a Folha de S.Paulo.

Não é a primeira vez que ele faz isso não. Na 29ª Bienal de São Paulo, o Moacir dos Anjos me chamou para fazer um trabalho na Bienal de São Paulo. Eu fui para São Paulo para ver o ambiente onde seria o trabalho. O título era “A Democracia Chupando Melancia”. Fiz três propostas e mandei para a Bienal de São Paulo. Ele passou o tempo todinho, acabou a Bienal, e ele não me disse nada. E o Paulo saiu com a fogueira de gelo, que foi um trabalho nosso para o Salão de Recife e foi feito depois na exposição de escultura efêmera de Sérvulo Esmeraldo em Fortaleza. Essa fogueira de gelo foi exposta lá. Foi a escultura mais efêmera que houve na exposição.

Aquilo ele repete várias vezes. Ele, como já é um artista consagrado, na Bienal de Veneza deveria ter colocado um trabalho dele, somente dele, ou que criasse um trabalho do arquivo dele. Mas ele bebe muito, sabe? Estou achando que ele está em crise de criação, porque pegar um trabalho lá atrás, de 1973.

A coisa é outra. Eu não faria isso. Ele não me disse nada. Se ele tivesse vindo falar comigo, não teria feito aquela performance, nem tinha colocado esse trabalho, porque a equipe Bruscky & Santiago tem trabalhos mais bonitos para uma Bienal de Veneza. Aquilo que é bom para vender as caixas. Com esse negócio de lavar dinheiro agora, de político comprando obra de arte.

Ele está esperando só que eu morra para escrever um livro. Ele fica tranquilo em fazer as coisas, que eu não faço isso. Ele ganhou muito dinheiro com isso.

Publicado por Patricia Canetti às 11:54 AM


Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília, O Globo

Performer tem sua obra interrompida e é detido pela PM de Brasília

Matéria originalmente publicada no jornal O Globo em 16 de julho de 2017.

O artista Maikon K. realizava a performance 'DNA de Dan' no sábado, quando foi interrompido por policias militares que o prenderam por 'ato obsceno'

RIO — O artista e performer paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K., foi preso na tarde deste sábado pela Polícia Militar do Distrito FEderal, enquanto apresentava a sua performance "DNA de Dan" em frente ao Museu Nacional da República. Por volta das 17h20m de sábado, policiais militares abordaram o artista e o impediram de continuar realizando a performance. Detido sob a justificativa de que o artista praticava "ato obsceno", o performer foi colocado no porta-malas de uma viatura policial e levado para a 5ª Delegacia de Polícia da capital federal, onde teve de assinar um termo circunstanciado de ato obsceno. Durante a execução de "DNA de Dan", Maikon realiza o trabalho com o corpo nu, inserido numa esfera plástica e translúcida.

Neste domingo à tarde, após ser liberado, o artista publicou um texto em seu perfil no Facebook onde se disse indignado com o episódio e com a ação policial, que tanto o impediu de completar o seu trabalho como danificou o material cenográfico da performance. Concebida pelo artista para ser apresentada ao ar livre, em espaços públicos, "DNA de Dan" era apresentada como parte integrante do projeto Sesc Palco Giratório, que é considerado o principal projeto de circulação de obras de artes cênicas em território nacional. Antes de chegar a Brasília a obra já havia sido apresentada sem problemas em diferentes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande. Reconhecido como um dos mais importantes performers do país, Maikon teve este mesmo trabalho apresentado na mostra “Terra Comunal: Marina Abramovic + MAI”, realizada pelo Sesc São Paulo em 2015 e dedicada à obra de Marina Abramovic.

Em seu relato, Maikon agradeceu ao apoio que recebeu de "pessoas que já viram a performance 'DNA de DAN' e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui", escreveu.

Em seu relato, Maikon diz que a sua performance "não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno". Além da apresentação de sábado, "DNA de Dan" também seria apresnetada neste domingo, no mesmo local, mas a sessão foi cancelada.

Sobre a suposta razão da sua prisão, a nudez do seu corpo, e a abordagem dos policiais, o artista contou que já havia iniciado o trabalho quando ouviu "vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como 'isso vai parar de qualquer jeito, caralho', 'tira esse cara daí', 'que porra é essa'", disse.

Seus produtores teriam tentado dialogar com os policiais, mas não foram ouvidos:

"Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava, parado, 'logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar', e continuaremos o trabalho. Porque duas outras vezes já tivemos a aproximação de policiais, mas após a explicação eles entenderam se tratar de uma obra de arte e nos deixaram continuar sem que parássemos", escreveu.

De acordo com a PM, os militares foram ao local após transeuntes avisarem que teriam avistado "um homem nu" nas imediações do Museu da República. Segundo a PM, os PMs foram informados de que o performer realizava um trabalho artístico, mas como "não foi apresentada nenhuma documentação/autorização do museu tampouco da administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu", informou a PM em uma nota.

Instituição responsável pela realização da performance, o Sesc informou que irá se posicionar sobre o ocorrido apenas na segunda-feira. Em seu texto, Maikon ressaltou a importância de projetos artísticos como o Palco Giratório, e disse esperar que "mesmo depois disso tudo, o Sesc continue com essa coragem de apoiar trabalhos artísticos de todos os estilos e discursos, como sempre fez ao longo dos anos".

Publicado por Patricia Canetti às 11:31 AM


Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance por Miguel Arcanjo, UOL

Artista respeitado, Maikon K é preso por ficar nu em performance

Post de Miguel Arcanjo originalmente publicado em seu blog no portal UOL em 16 de julho de 2017.

O artista paranaense Maikon Kempinski, conhecido como Maikon K, um dos nomes mais respeitados e consagrados da performance no Brasil, foi preso em Brasília, em uma ação policial que faz lembrar os tempos de ditadura [lembre outros casos ao fim desta reportagem].

Ele foi detido na tarde deste sábado (15). A prisão foi justificada pela Polícia Militar do Distrito Federal como sendo por “atentado ao pudor”, retirando completamente a nudez do contexto artístico em que ela ocorreu.

A prisão foi feita no momento em que Maikon K se apresentava em frente ao Museu Nacional da República com a performance “DNA de DAN”, na qual fica nu com o corpo coberto de um líquido que se resseca aos poucos, até, ao fim, se quebrar, revelando a pele do artista.

A performance “DNA de DAN” integra o projeto do Sesc “Palco Giratório”.

A performance já foi apresentada em diversos lugares no Brasil, sempre com respeito do público e da crítica especializada.

“DNA de DAN”, inclusive, foi escolhida pela artista Marina Abramović, maior nome da performance no mundo, para ser uma das oito performances brasileiras a integrar sua megaexposição “Terra Comunal” no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2015.

Foi a maior mostra na América do Sul da artista sérvia radicada em Nova York, e Maikon K foi convidado a apresentar “DNA de DAN” pela própria artista, admiradora do trabalho do brasileiro.

A própria Marina Abramović já utilizou da nudez como expressão artística em performances consagradas.

Abordagem violenta da PM

Em Brasília, a abordagem policial a Maikon foi feita de forma agressiva, conforme relato do artista. Ele foi levado à 5ª Delegacia de Polícia na Asa Sul e não pôde sequer terminar sua apresentação.

No DP, Maikon foi obrigado a assinar um termo circunstanciado por “praticar ato obsceno”, mesmo tendo feito uma performance artística, e só então foi liberado.

“Não estava ali como pessoa física, mas sim como artista contratado pelo Palco Giratório do Sesc”, afirma Maikon K ao Blog do Arcanjo do UOL, indignado.

Além disso, o cenário da performance — uma gigante bolha de plástico transparente criada pelo artista Fernando Rosenbaum, dentro da qual a apresentação é feita — foi rasgado de forma violenta durante a abordagem da PM, segundo relato de Maikon.

“Usaram de violência. Um sargento me imobilizou depois com uma chave de braço e não permitiu que eu levasse nem meus sapatos e documentos. Ninguém pôde me acompanhar na viatura, fui socado num porta-mala de camburão junto com um pneu de estepe”, conta.

Performance consagrada

Maikon lembra que seu trabalho “DNA de DAN” já esteve nas mais importantes instituições culturais do Brasil.

“Esse trabalho estreou em 2013 em Curitiba, com apoio de um prêmio da Fundação Nacional de Artes. Lá, fizemos dez apresentações ao ar livre, no bosque atrás do Museu Oscar Niemeyer. E nunca fomos impedidos ou atacados por isso”, diz.

“Depois, circulamos por várias cidades, tendo o apoio de instituições como a Funarte, o Sesc, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Memorial Minas Gerais, a Casa de Cultura de Belém, o CCBB etc. Essa performance já foi feita em praças e ruas, universidades, centros de cultura, galerias”, lembra.

Maikon fala que, apesar da truculência policial da qual foi vítima, não vai desistir de sua arte.

“Podem me colocar diante de um juiz. Eu sei que eu não fiz nada de errado nem nada pelo qual eu deva me envergonhar. Eu estava trabalhando, e minha função é essa: perturbar a paisagem controlada dos sentidos”, declara.

E manda um recado a quem quer calar sua arte:

“O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé.”

O Sesc ainda não se pronunciou sobre o caso, mas o Blog do Arcanjo do UOL apurou que a instituição planeja divulgar nesta segunda (17) uma nota de repúdio à prisão de Maikon Kempinski.

Governador pede desculpas

O Blog do Arcanjo do UOL apurou ainda que, neste domingo (16), o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e o secretário de Cultura do DF, Guilherme Reis, telefonaram para Maikon K para pedir desculpas pela prisão em nome do Governo do Distrito Federal. Maikon já está sendo assessorado por advogados do Sesc.

Caso lembra a ditadura

A prisão truculenta de Maikon K durante sua performance artística “DNA de DAN” lembra os tempos da ditadura, quando casos assim aconteciam.

Em 1968, a peça “Roda Viva”, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, com seu Teat(r)o Oficina teve uma sessão interrompida pelo grupo Comando de Caça aos Comunistas no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo. Os artistas foram espancados e o cenário, destruído. Depois, durante a turnê no Rio Grande do Sul, os artistas voltaram a ser perseguidos com violência por militares.

Também em 1968, a atriz Norma Bengell foi sequestrada por militares no momento em que chegava ao Teatro de Arena, em São Paulo, para apresentar a peça “Cordélia Brasil”, de Antônio Bivar.

Recentemente, o teatro tem sido vítima novamente da violência policial.

Em 2015, artistas do Teat(r)o Oficina precisaram depor no Fórum Criminal da Barra Funda. Ao fim, a Justiça decidiu que o diretor José Celso Martinez Corrêa, e os atores Tony Reis e Mariano Mattos Martins, eram inocentes na ação criminal movida pelo padre Luiz Carlos Lodi da Cruz, de Anápolis, Goiás.

O padre havia acusado os artistas de crime contra seu sentimento religioso católico por conta de uma cena da peça “Acordes”, apresentada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2012 a convite de alunos, professores e estudantes em greve contra a posse da reitora Anna Cintra, que havia ficado em terceiro lugar na eleição.

O padre goiano viu a peça pela internet, no YouTube. Sentindo-se ofendido com a cena na qual um boneco semelhante ao Papa Bento 16, que na obra inspirada em Bertolt Brecht representava a figura do autoritarismo, resolveu então processar criminalmente os três artistas do grupo Oficina, além da produtora da companhia teatral, Ana Rúbia.

Também em 2015, o artista circense Leônidas Quadra, intérprete do palhaço Tico Bonito, foi preso também durante uma apresentação em Cascavel, interior do Paraná, justamente porque policiais que viam a apresentação não gostaram das críticas à polícia feita na peça. O palhaço foi detido por “desacato à autoridade”.

Em 2016, a PM de Santos, litoral paulista, prendeu o ator Caio Martinez Pacheco durante a peça “Blitz – O Império que Nunca Dorme”, da Trupe Olho da Rua, que satiriza o poder do Estado. Os policiais que estavam presentes na praça onde a peça era apresentada não gostaram do uso da bandeira nacional no espetáculo.

Passagem pelo corpo

Na programação do “Palco Giratório 2017” do Sesc, a performance de Maikon K é definida assim:

“DNA de DAN é uma dança-instalação de Maikon K. Num primeiro momento, o performer mantém-se imóvel enquanto uma substância seca sobre seu corpo. Após essa fase da experiência, ele se moverá. A ação acontece dentro de um ambiente inflável criado pelo artista Fernando Rosenbaum – o público poderá entrar nesse espaço e lá permanecer. Dan é a serpente ancestral africana, que dá origem a todas as formas. A partir desse arquétipo, Maikon K cria seu rito de passagem pelo corpo. A construção de outra pele, o ambiente artificial e a relação com o público são dispositivos para esta performance, na qual o corpo do artista passa por sucessivas transformações.”

Veja o vídeo da performance artística que foi criminalizada pela PM do Distrito Federal:

Publicado por Patricia Canetti às 11:22 AM


julho 12, 2017

Uma nova gramática para a arte por Mariana Tessitore, ARTE!Brasileiros

Uma nova gramática para a arte

Matéria de Mariana Tessitore originalmente publicada na revista ARTE!Brasileiros em 8 de julho de 2017.

Exposição no Instituto Tomie Ohtake debate a condenação de Rafael Braga nos protestos de 2013, trazendo à tona a pauta do engajamento na cultura. Conversamos com acadêmicos, curadores e artistas para saber o que eles pensam sobre a relação entre arte e política hoje

OSSO Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP - 28/06/2017 a 30/07/2017

“A arte é a ciência da liberdade”, já dizia Joseph Beuys. Mas como interpretar essa frase do mestre alemão à luz da crise democrática que assola o Brasil? Esse debate ganha fôlego com a inauguração da mostra OSSO: Exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga. Feita em parceria com o IDDD (Instituto de Direito do Direito de Defesa), a mostra debate o caso de Rafael Braga, jovem negro que foi detido nas manifestações de 2013 por portar desinfetante e água sanitária. Braga foi o único condenado no contexto dos protestos, seu caso se tornou um símbolo de luta dos movimentos sociais.

Em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, a exposição apresenta 29 trabalhos, reunindo desde nomes consagrados, como Cildo Meireles e Anna Maria Maiolino, até jovens artistas representados por Moisés Patrício, Paulo Nazareth, entre outros. Junto às obras, também há documentos sobre o caso de Braga. Segundo o curador, Paulo Miyada, os artistas participam da mostra como se estivessem assinando um abaixo-assinado.

“O caso do Rafael é paradigmático por ser um exemplo de uma situação institucionalizada. Ele revela o quanto a cidadania, no Brasil, é desigualmente atribuída, dependendo do grupo social, da raça e etc”. Miyada afirma que há um “consenso de que não está tudo bem no País” e que é preciso entender qual é a “pertinência da arte e da cultura nesse contexto”.

Com uma retórica clara, já enunciada no próprio título, a mostra marca posição, sem precisar recorrer a trabalhos panfletários ou “verborrágicos”, como define o curador. “Privilegiamos obras que não fossem tão discursivas. A palavra ‘osso’ remete ao que há de mais agudo, afiado e conciso na arte contemporânea. É como se cada trabalho equivalesse a um gesto, uma ação direta feita pelo artista”, explica.

Uma das participantes da mostra, Carmela Gross acredita que as obras devem “agudizar” as questões sociais: “A arte sempre é política. Claro que não podemos entender a política num sentido estreito. Trata-se, antes de tudo, de produzir um acontecimento sensível que possa reverberar nos outros”. Nuno Ramos, que exibe a obra Balada, composta por um livro alvejado por uma bala, concorda com a colega.

“Não se faz política apenas quando se trata de uma pauta engajada. Quer dizer, há política em toda obra. A Bossa Nova, por exemplo, tinha uma grande potência política, apesar de não ser uma intenção explícita dos autores”, afirma o artista. Ele ainda chama atenção para os riscos de “leituras enviesadas”: “Não necessariamente as obras mais engajadas serão aquelas que permanecerão, dando conta do seu tempo. Precisamos interrogar os trabalhos com bastante riqueza para não ficarmos presos ao seu conteúdo”.

Em rumo ao impossível

Para o filósofo e professor da USP, Vladimir Safatle, a força da obra de arte não pode ser reduzida ao seu discurso.“A dimensão política fundamental da arte não está no engajamento explícito, mas na sua capacidade de dar forma ao que é tido como impossível. E isso não é simplesmente uma função utópica da arte, é a sua dimensão mais concreta, ela permite a criação de novas formas de sociabilidade”. Ele explica que aspirar ao impossível significa, sobretudo, pensar em outras maneiras de habitar e sentir o mundo. E, para isso, é preciso criar novas linguagens.

“Hoje, se olharmos nas galerias de arte, há muitos trabalhos que tratam diretamente de problemas sociais. Mas o que talvez nós precisemos seja algo de outra natureza. Um dos motivos do embotamento da nossa imaginação política vem do fato de adotarmos a gramática daquilo contra o qual se combate. Acabamos falando a mesma linguagem, ainda que para fazer frases diferentes. E é óbvio que, dentro desse processo, o jogo já está perdido. Talvez a arte seja um dos poucos discursos que possa nos lembrar disso. Não há instauração política sem criação de uma nova gramática”, pontua.

Na mostra em cartaz no Tomie Ohtake, um trabalho em especial traz a a ideia da arte em busca do impossível. Trata-se do registro de uma exposição que o artista Paulo Bruscky montou em Recife, em 1974. Intitulada Nadaísmo, a mostra não era composta por nenhuma obra, a galeria estava totalmente vazia. O público era convidado a comparecer com um panfleto irônico: “As pessoas chegam à sala e nada acontece. (..) Nada e somente o nada que perturba tanto. Mas então o nada é algo. Se perturba tanto, então não é só algo, como muito. O nada é muito”.

O encontro com o nada, proposto por Bruscky, desarma o espectador, convocando-o a refletir sobre o inesperado. Para Paulo Miyada, é preciso de fato pensar a política de uma forma mais ampla. “Como curador, tento desautomatizar os jeitos em que trago as pautas para os meus projetos. É uma forma de revalorizar a ideia de política como algo que deve ser conquistado e não uma palavra-chave a priori”, pontua.

Perspectiva histórica

Olhar o passado pode ajudar a entender a relação entre a arte e a política hoje. Segundo o professor do departamento de história da USP, Francisco Alambert, a arte moderna se baseava em duas formas de revolução: a social, pautada pelos exemplos das transformações na França, em 1789, e na Rússia, em 1917, e a formal, associada às vanguardas artísticas. “A arte contemporânea, por sua vez, nasce sob o signo da pós-revolução, quando a perspectiva de uma transformação radical nas coisas e na arte, ainda que não desapareça, já não é mais vista como necessária. Daí o desafio da arte contemporânea de ter que procurar o seu lugar político”.

Nessa busca por uma nova gramática, como afirma Safatle, talvez um dos maiores impasses seja a relação dos artistas com o mercado. Alambert defende que, diferentemente da arte moderna que no início se opunha aos parâmetros oficiais– os quadros de Picasso, por exemplo, chegarem a ser censurados- a produção contemporânea já surge em diálogo com as instituições.

“A política da arte contemporânea é muito contraditória porque, por um lado, os artistas romperam completamente com as linguagens tradicionais. A arte foi para a rua, o corpo, as instalações. Nesse sentido, ela é muito livre. No entanto, essa liberdade é limitada pela condição de mercadoria e pelo fato das obras sempre estarem dentro de uma instituição que as legitime: museus, bienais, galerias. Muito raramente a produção de arte contemporânea está associada a movimentos sociais maiores”, defende o historiador.

Mesmo que dentro de uma instituição, a mostra OSSO representa essa tentativa de diálogo com outros setores da sociedade civil, sendo uma parceria da arte com a justiça. Segundo o curador, a exposição funciona como um “chamado social” para que cada setor colabore trazendo reflexões. “Esse diálogo foi fundamental para o projeto. E talvez seja algo mais ou menos raro porque geralmente o próprio sistema da arte se retroalimenta e tem todas as suas dinâmicas e reflexões internas”, pontua Miyada.

Nuno Ramos também considera importante que as mostras consigam “dialogar cada vez mais com outras parcelas da sociedade”. Ainda assim, ele comenta que a relação entre arte e política deve ser vista a partir de suas nuances:“ Em um momento em que tudo indica que a função do artista é assumir para si questões éticas, talvez o que devamos fazer seja trair essa expectativa e não assumir nenhum papel. E isso em si já é uma postura política. No fundo, é pensar um pouco a arte como uma forma de solidão, algo que não se identifica com as funções do mundo”.

Publicado por Patricia Canetti às 10:50 AM