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Como atiçar a brasa

 


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agosto 10, 2018

Artistas negros ocupam museus e levantam debate sobre diversidade por Nelson Gobbi, O Globo

Artistas negros ocupam museus e levantam debate sobre diversidade

Matéria de Nelson Gobbi originalmente publicada no jornal O Globo em 10 de agosto de 2018.

Sonia Gomes e Jaime Lauriano abrem individuais no MAC de Niterói neste sábado

RIO — À primeira vista, as obras de Sonia Gomes e Jaime Lauriano que integram suas individuais no Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, com abertura amanhã, às 14h, não abordam temáticas relacionadas à cor da pele de seus autores.

NOS EUA: Iniciativas levam mais diversidade a quadros de museus

No entanto, à medida em que se desvelam as camadas dos trabalhos, questões como racismo estrutural, violência urbana, repressão e representatividade vêm à tona. As obras de ambos recriam materiais relacionando memória afetiva à história da população negra no Brasil. Seja nas esculturas e instalações da mineira Sonia a partir de tecidos e recortes de roupas e bordados, que integram a mostra “A vida renasce, sempre”, com trabalhos dos últimos 20 anos; ou nas miniaturas de veículos militares feitas pelo paulistano Lauriano utilizando em sua fundição cápsulas deflagradas pela PM do Rio, na exposição “Brinquedo de furar moletom”.

LEIA MAIS: Bienal do Mercosul cria diálogo entre fatos históricos e temas do presente

Representantes de duas gerações da produção contemporânea nacional (ele tem 33 anos, ela, 70), os dois evidenciam um movimento de abertura de instituições e do mercado à obra de artistas afrodescendentes, no país e no exterior. O tema da representatividade foi central em 2018, em eventos como a 11ª Bienal do Mercosul, encerrada em junho, em Porto Alegre, ou a coletiva “Histórias Afro-atlânticas”, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo (Masp) — em ambas, havia obras da dupla. Agora, os dois se reencontram no MAC, uma das instituições que buscam ampliar o espaço para esta produção: antes, o museu só havia sediado duas individuais de artistas negros em seus 20 anos: o britânico Isaac Julien, em 2016, e o baiano Ayrson Heráclito, este ano.

— Há quem aponte essa maior presença de negros em instituições como uma tendência, pois ela tem se intensificado nos últimos cinco anos. Isso é a consolidação de um movimento que já acontece, no mínimo, há um século na arte brasileira — ressalta Lauriano. — Pensando até na proporção dos negros na população, se a presença institucional não era evidente, algo estava bem errado.

LEIA MAIS: Masp inaugura mostras sobre Maria Auxiliadora e Aleijadinho

Artista da Rocinha desponta no mercado ao retratar cotidiano da favela

Única representante brasileira na mostra principal da Bienal de Veneza de 2015, Sonia reflete sobre as várias camadas de preconceito que sofreu ao ganhar, agora, sua primeira individual em um museu brasileiro.

‘Pela proporção dos negros na população, se essa presença não era evidente é porque algo estava errado’ - Jaime Lauriano, artista visual

— O preconceito contra o negro é tão forte no Brasil, que ser mulher, para mim, acaba virando algo mais leve. Por muito tempo, só os brancos e ricos faziam arte, o que os negros faziam era considerado artesanato ou “arte popular”. Agora vejo as instituições abrindo as portas não como concessão, mas por ser impossível negar a a qualidade destes trabalhos — observa Sonia. — Quando fui convidada para a Bienal de Veneza, senti uma responsabilidade gigantesca. Fiz uma imersão de quatro meses trabalhando, mal dormia, sabia que não podia errar. Era preciso me afirmar naquele espaço, até para que outros artistas negros se espelhassem, vissem que era possível.

Curador do MAC com o mexicano Pablo León de la Barra, Raphael Fonseca acredita ser um dever institucional rever suas atuações para promover este reconhecimento, ainda que tardio:

— Além de questionar onde estão os artistas negros, precisamos perguntar onde estão os curadores negros, os galeristas negros. Podemos estender essas questões a indígenas, mulheres, trans. Temos de utilizar ferramentas que não tínhamos há 15 anos para ampliar essa pesquisa.

‘Antes só os brancos e ricos faziam arte, o que os negros faziam era artesanato ou 'arte popular'’ - Sonia Gomes, artista visual

Crítico e curador, Paulo Herkenhoff está trabalhando em um livro sobre a história dos negros nas artes visuais do Brasil. Ele acredita que o movimento, ainda que tardio, possa lançar novo olhar sobre a produção brasileira:

— As instituições tentam, ainda que timidamente, fechar estas lacunas. Além de ampliar a presença desses artistas, é preciso observar a diversidade regional.

Idealizador do Museu Afro Brasil, que completa 15 anos de atividades em 2019, o artista e curador Emanoel Araújo espera que a representatividade se mantenha para além das mostras e debates relacionados aos 130 anos da Lei Áurea, em 2018:

— Torço para que as obras destes artistas não fiquem momentaneamente nestas instituições, mas que passem a integrar os acervos dos museus. É necessário a construção de uma memória.

A vida renasce, sempre” e “Brinquedo de furar moletom

Onde: MAC — Mirante da Boa Viagem, s/nº, Niterói (2620-2400). Quando: Ter. a dom., das 10h às 18h. Abertura amanhã. Até 25/11. Quanto: R$ 10. Classificação: Livre.

Publicado por Patricia Canetti às 8:24 AM


agosto 9, 2018

Obra de Diego Bresani é vetada em exposição do prêmio Transborda por Nahima Maciel, Correio Braziliense

Obra de Diego Bresani é vetada em exposição do prêmio Transborda

Matéria de Nahima Maciel originalmente publicada no jornal Correio Braziliense em 4 de agosto de 2018.

O trabalho faz referência a Jair Bolsonaro e a Caixa, que recebe a exposição, decidiu vetá-lo

A obra My sweet president, escolhida pelo júri do Transborda Brasília – Prêmio de Arte Contemporânea para integrar exposição em cartaz na Caixa Cultural a partir de terça (07/08), foi vetada e não estará na exposição. Segundo o artista, a Caixa alegou que, como se trata de ano eleitoral, fica impossível, pela legislação, exibir obras que façam referências a candidatos à presidência da República. My sweet president tem Jair Bolsonaro (PSL) como foco. No ano passado, a revista Isto É publicou uma foto que Diego Bresani fez do presidenciável. O filho do candidato não gostou da imagem e reclamou nas redes sociais. Disse onde o artista morava e quem ele era.

Bresani passou então a receber dezenas de ameaças nas redes sociais e tirou os prints de tela de cada uma. Depois, organizou tudo por temas. Há desde comentários homofóbicos e sobre esquerdopatia até ameaças de morte. Com as imagens, ele criou a obra My sweet president, um políptico gigante com as mensagens ampliadas para que o público possa ler de longe. “É para termos a noção do tamanho de um ataque de ódio”, explica. “E do lado dos prints, tem a foto do Bolsonaro.” O artista ficou três dias trancado em casa com medo das ameaças, já que seu endereço e telefone foram divulgados nas redes sociais. “A Caixa justificou que é período eleitoral. Eu propus tirar a foto do Bolsonaro e deixar as ameaças. Eles não deixaram. Vetaram”, explica.

O júri formado por Marília Panitz (DF), Guga Carvalho (PI), Clarissa Diniz (PE/RJ), Agnaldo Farias (SP) e Lisette Lagnado (SP) analisou a obra e a considerou de boa qualidade ao ponto de estar entre os 12 selecionados do prêmio. Marcada para abrir na terça (7/08), a exposição na Caixa deve ficar sem a obra de Bresani, mas ela continua a concorrer ao prêmio. “Estamos aguardando o posicionamento oficial da Caixa sobre a possibilidade de a obra ser exibida. Houve uma consulta ao departamento jurídico, já que a exposição coincide com o período eleitoral e a obra inclui a imagem de um candidato. Até que a Caixa se posicione, optamos por não instalar o trabalho. Contudo, o trabalho, entrando ou não na exposição, faz parte do Transborda, foi selecionado pelo júri e segue concorrendo ao prêmio. A exposição é uma parte do projeto, mas não é todo ele”, avisa Virgínia Manfrinato, idealizadora do Transborda. Na terça (07/08), às 18h, os membros do júri participam de uma conversa aberta ao público. Por enquanto, a Caixa não se pronunciou sobre o veto à obra.

Mostra dos artistas selecionados para o Transborda Brasília – Prêmio de Arte Contemporânea 2018
Abertura na terça (07/08), às 19h na Galeria Acervo da Caixa Cultural (SBS, quadra 4, lotes 3/4 - Asa Sul, anexo à matriz da CAIXA). Visitação até 9 de outubro, de terça a domingo, das 9h às 21h.

Publicado por Patricia Canetti às 3:44 PM


Uma entrevista divertida com Antonio Dias, em Milão, 1990 por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Uma entrevista divertida com Antonio Dias, em Milão, 1990

Entrevista de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 8 de agosto de 2018.

Conheci Antonio Dias em 1990, em Milão, quando fui correspondente da Folha na Itália. Ele tinha 46 anos e eu 34 (bem, hoje posso dizer que éramos jovens!). Naquela época mantinha seu apartamento na rua Fratelli Bronzetti mas estava com um pé em Colônia, cidade que andava movimentada e atraía muitos artistas .
Ficamos amigos e continuamos nos encontrando ao longo desses anos. Sua morte e uma troca de mensagens com Lica Cecato, que foi sua mulher, me lembraram de uma entrevista que fizemos em seu apartamento milanês, em finais de 1990.
A parte mais legal foi um divertido “pinga-fogo” com perguntas e respostas curtas sobre arte e vida. Ele gostou quando viu. Reproduzo aqui.

PESSOAL E INTRANSFERÍVEL

Vício: “Fumar”
Comida: “Italiana e japonesa”
Restaurante: “Trattoria da Davide, no corso Garibaldi, em Milão”.
Costureiros: “Jeans, Armani e Lagerfeld”
Bebida: “Superalcoólicas”
Mineral com gás ou sem gás? “Água só de coco”
Rio ou São Paulo: “Os dois, com todas as diferenças”.
Milão ou Paris? “Milão e Colônia para trabalhar. Paris para passear”.
País a conhecer: “Toda a Ásia”
Rua: “Riachuelo, no Rio”.
Cor: “Cinza grafite e vermelho”
Collor: “O moço que eliminou as instituições culturais no Brasil”.
Ginástica: “Na cama”
Esporte: “Vide ginástica”
A pé ou de trem? “A pé. Adoro andar. Seria capaz de caminhar 24 horas sobre 24 horas, exceto, claro, durante as horas de ginástica”
Avião ou bicicleta? “Avião, sempre. Bicicleta, nunca”
Por que usa óculos: “Tenho tudo, astigmatismo, miopia, um pouco de vista cansada e glaucoma”

ARTE

Pincel ou brocha? “Brocha. E velha”
Começa a pintar de cima para baixo ou de baixo para cima? “Depende de onde estou”
Tela: “Belga, de linho, com preparação a gesso. Na falta, qualquer pano, depois de preparado”
Duchamp ou Picabia? “Os dois. Um diverte, outro faz pensar”
Picasso ou Mondrian? “Nenhum dos dois. Um diverte, outro faz pensar”
Salvador Dali: “Gosto, por incrível que pareça”
Crítico nota 10: No Brasil, Paulo Sérgio Duarte e Ronaldo Brito
Transvanguarda: “Um momento fraco”
Neo-conceitual: “Neo-déjà vu”
Performáticos: “Bom para ‘night’ de periferia”
Matéricos: “Consultar livros sobre o informal e o tachismo”
Vídeo: “Arte do futuro”
Cinema italiano: “Arte do passado”
Vernissage: “Estou aprendendo a evitar. É como ir à missa”
Bardi: “Bar de quem?”
Arte: “Imagina!”
Artista: Vivo, Jannins Kounelis. Morto, Joseph Beuys
Fotografia: Miguel Rio Branco
Galeria Alaska ou galeria Vitório Emanuele? “Não gosto muito de galerias”
Marchand nota dez: No Rio, Jean Bolghici; em São Paulo, Luisa Strina; em Badenweiler, Luise Krohn, que já fez 81 anos”
Marchand nota zero: “Giorgio Marconi, em Milão”
Verde: “Óxido de cobre ou folhagem”
Vermelho: “Naphthol Crimson”
Rosa: “Só Luxemburgo”
A melhor revista de arte: “Parkett, da Suíça”
A pior revista de arte: “Todas a pagamento. Serve também para o Brasil”
O colecionador: “Certamente não é o especulador”
Cores e sons: Gosto mais de música do que de artes plásticas”
Preto e Branco ou cores: “Sempre senti uma dimensão gráfica em meu trabalho, em termos de polarização, entre branco e preto. Ultimamente a cor está me chamando a atenção”

CANÇÃO DO EXÍLIO

Cinema: “O antigo Rian, em Copacabana”
Amigos de outros tempos: Roberto Magalhães, Jorge Mautner, José Agripino de Paula, José Resende, Wesley Duke Lee e Rogério Duarte
Por que saiu do Brasil? “Achava que era mais seguro”
Música brasileira: “Quase todo mundo. Cartola, Walter Franco, Itamar Assunção, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Hermeto Paschoal”
Marca de cigarro: Hollywood

PREFERÊNCIAS

Costura ou cultura? “Cultura”
Beatles ou Stones? “Os dois”
Mick Jagger ou Keith Richards? “Os dois juntos”
Secretária ou secretária eletrônica? “Secretária eletrônica”
Gabeira ou Cohn-Bendit? “Rude Dutchke”
O melhor do Brasil: “Só música”
O pior do Brasil: “Buracos nas ruas e assaltos”
Palavra escrita: “Os concretos e Octavio Paz”
Jorge Amado: “Vide entrevista dado no Brasil por Achille Bonito Oliva”
O chato: “Seria uma lista muito grande”
O burro: “Maior ainda”
Atriz predileta: Fanny Ardant
Ator predileto: Paulo César Pereio
Filme inesquecível: “’Le Chien Andalou’ (O Cão Andaluz), de Bunuel”
Diretor de cinema preferido: Glauber Rocha e Jean-Luc Godard
Jornal que lê quando está na Itália: “Depende, mas em geral são todos muito chatos”
Revistas semanais: “As internacionais. ‘Time’, ‘Newsweek’, ‘Nouvel Observateur’”
Lugar preferido em Milão: “Piazza Vetra, na região das colunas de São Lourenço. É um lugar belíssimo. Pena que tenha virado ponto de tráfico de drogas”

Publicado por Patricia Canetti às 3:39 PM


Taxas ameaçam apagão nas artes, barrando mostras de Van Gogh, Picasso e Warhol por Isabella Menon e Pedro Diniz, Folha de S. Paulo

Taxas ameaçam apagão nas artes, barrando mostras de Van Gogh, Picasso e Warhol

Matéria de Isabella Menon e Pedro Diniz originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 9 de agosto de 2018.

Segundo autoridades da arte, Brasil pode volta à periferia do mercado de arte internacional se aeroportos não cederem

Entre uma garfada e outra no salmão servido num jantar em Amsterdã, o diretor do Museu Van Gogh, Axel Rüger, enrubescia em silêncio ao ouvir do repórter o assunto “exposição no Brasil”.

Uma das pessoas mais influentes na arte, Rüger parece descrente que a mostra do impressionista planejada para daqui a cinco anos no Masp saia do papel.

Mesmo com a boa vontade dos dois lados da negociação para montar a maior mostra do holandês no Brasil, todos estão de mãos atadas.

Uma nova interpretação por parte das concessionárias dos aeroportos de que obras de arte não têm valor cívico-cultural para a nação e que, por isso, precisariam ser sobretaxadas no armazenamento, ameaça não só a vinda de Van Gogh, último e mais vistoso capítulo da batalha travada desde a última SP-Arte, em abril, mas de todas as exposições estrangeiras marcadas para os próximos cinco anos.

Não é a primeira vez que Van Gogh quase chega a São Paulo. O Instituto Tomie Ohtake previa para 2019 uma mostra do artista, porém, o valor que seria desembolsado pelo empréstimo das telas não coube no orçamento. Agora, com as novas taxas cobradas pelos aeroportos que recebem a maior parte das obras importadas, o caro virou exorbitante.

Guarulhos, em São Paulo, Viracopos, em Campinas, e Galeão, no Rio de Janeiro, passaram a cobrar uma taxa de 0,75% sobre o valor da obra —antes, cobravam R$ 0,15 pelo quilo da peça guardada. A mudança ocorreu após o reajuste das tabelas de preço estipuladas pelo governo, em 2017.

De uma hora para a outra, as concessionárias entenderam que obras de arte não se encaixam numa tabela que prevê taxa pequena para eventos científicos, filantrópicos, esportivos e cívico-culturais, segmento no qual a arte sempre esteve. Ela passou, então, a se enquadrar em tabelas onerosas.

Esse modelo de cobrança, segundo diretores de museus e centro culturais, fará o Brasil voltar à periferia do circuito.

O presidente do Masp, Heitor Martins, calcula que, se trouxesse as 25 obras de Van Gogh que deseja para a mostra de 2023, teria de pagar R$ 28 milhões — o custo anual de operação do museu — só para guardar essas peças avaliadas em R$ 3,75 bilhões. Na regra antiga, gastaria R$ 5.000.

Martins diz ainda que outra mostra, a da alemã Gego, em 2021, pode não acontecer devido ao imbróglio, que vem obrigando instituições a recorrerem à Justiça para cumprir acordos com estrangeiros.

“O país vai na contramão da história e, colocando esses obstáculos, só reforça seu isolamento cultural”, desabafa.

Outra mostra com 300 obras de nomes como Picasso, Rembrandt e Warhol no Tomie Ohtake foi adiada.

As peças viriam do Albertina, museu de Viena forçado a rever sua programação por causa do Brasil.

Ricardo Ohtake, diretor da instituição, conta que entrará com uma liminar para não pagar R$ 350 mil por armazenagem, valor pedido pela nova taxação. Com esse documento, o custo cairá para R$ 800.

“É uma vergonha para o país. Trocamos seis vezes o plano alegando problemas técnicos. Quando expliquei que era por causa das taxas, [os austríacos] gargalharam, achando que estava escondendo algo.” Se as regras não mudarem, ele diz, “é melhor todos os museus fecharem as portas”.

Não sem antes sofrer saias justas, como a que o Instituto Moreira Salles passou ao trazer as imagens do fotógrafo Irving Penn do Metropolitan.

Ao chegarem, o museu foi taxado em R$ 82 mil. O único jeito de se livrar da tarifa era esperar uma liminar. Para isso, as obras dormiriam no aeroporto, o que foi vetado pelo museu nova-iorquino. Na segunda leva de fotografias, com o mandado de segurança, a remessa saiu por R$ 220.

A Bienal de São Paulo, no entanto, deixou que as primeiras obras a chegar para sua próxima edição ficassem no aeroporto. Era isso ou teria de arcar com R$ 720 mil em vez dos R$ 2.200 pagos após liminar.

“O novo aeroporto internacional do Brasil será o do Chile ou o da Argentina”, diz o produtor Marcello Dantas. Visando driblar as altas taxas que poderiam ser cobradas pelas obras do artista Ai Weiwei, alvo de uma retrospectiva na Oca, em outubro, as peças virão do Chile de caminhão.

Mas o problema está longe do fim. Há dois dias, diretores da concessionária GRU Airport se reuniram com Marcio Candido, despachante especializado em logística de transporte de bens de culturais, para discutir uma saída.

“Eles dizem que cívico-cultural é um evento relacionado à pátria”, diz Candido. Dessa forma, insistem que obras não têm “valor patriótico” e que a Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, precisa esclarecer o termo “cívico-cultural”.

Mas assessores dessa agência do governo dizem que não cabe ao órgão interpretar a expressão. Em nota, o GRU Airport afirmou que "não há tabela específica que trate de armazenamento de obras de arte em aeroportos, e que houve um enquadramento adequado das cargas que devem ser beneficiadas por uma tabela específica". Segundo a Secretaria da Aviação Civil, destrinchar essas dúvidas pode demorar até um ano.

O Ministério da Cultura e o Ministério dos Transportes criaram um grupo para discutir o tema. O ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, teme que o impasse contamine projetos na Lei Rouanet.

“Estaríamos subsidiando as receitas das concessionárias com os recursos dos contribuintes”, afirma o ministro.

A produtora cultural Ana Helena Curti também participou das primeiras reuniões em Brasília. Ela chama de loucura o entendimento de que exposições não seriam cívico-culturais. “Se a cultura do país não é cívica, o que pode ser?”

Na visão dela, “a arte briga contra o tempo, porque conseguir liminares é caro e produtores pequenos não aguentariam os custos do trâmite”.

Também enfrentando dificuldades financeiras, concessionárias, como a de Viracopos, que entrou com pedido de recuperação judicial, continuam cobrando altas taxas. A empresa entende que exposições têm fins lucrativos por cobrar entrada do público.

A Rio Galeão, por sua vez, afirma respeitar o entendimento sobre o que é evento cultural, por isso, não cobrou a taxa maior pelas obras da mostra “100 Anos de Arte Belga”, em junho. Porém, as da SP-Arte, em abril, foram consideradas pela empresa como objetos de cunho comercial.

Sob condição de anonimato, uma funcionária disse que, se Van Gogh baixasse no Rio, passaria pagando a menor taxa.

Leia na íntegra o posicionamento do GRU Airport:

"O GRU Airport esclarece que não há qualquer tabela específica que trate de armazenamento de obras de arte em aeroportos e que não houve alteração de interpretação de tabelas de armazenamento previstas no Contrato de Concessão, mas sim, o enquadramento adequado das cargas que devem ser beneficiadas por uma tabela específica –tarifa incidente sobre o peso da mercadoria (Tabela 9), aplicável a casos excepcionais, isto é, que atendam cumulativamente a 2 requisitos: (i) ingressem no País em regime de admissão temporária (regime que é autorizado pela Receita Federal e exige que a carga retorne ao exterior após um prazo específico) e (ii) destinem-se a eventos de natureza científica, esportiva, filantrópica ou cívico-cultural. As tarifas previstas na Tabela 9 são substancialmente baixas e devem ser aplicadas nas situações excepcionais definidas no Contrato de Concessão, nos termos da política pública que as instituiu. Esse entendimento já foi, inclusive, corroborado pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Veja Ofício anexo. A regra tarifária prevista no Contrato de Concessão para importação e armazenamento de qualquer bem é um percentual do valor do bem. Isso porque o risco associado ao armazenamento está diretamente ligado ao seu valor, cabendo observar que, em caso de dano ou avaria a uma obra de arte durante o período de armazenagem (em que o aeroporto se torna fiel depositário daquela obra) existe a possibilidade do importador ser ressarcido por sua própria seguradora, mas esta terá o direito de acionar o aeroporto pelos prejuízos sofridos (ação de regresso). Em outras palavras, o risco e o custo são do aeroporto. É importante ressaltar que o aeroporto não é a única alternativa para desembaraço e armazenamento de cargas. O importador tem a alternativa de fazê-los em um EADI (Estação Aduaneira do Interior)."

Publicado por Patricia Canetti às 3:32 PM


julho 24, 2018

Jac Leirner aborda uso de drogas em exposição e critica ativismo nas artes por Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Jac Leirner aborda uso de drogas em exposição e critica ativismo nas artes

Matéria de Marcos Augusto Gonçalves originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 22 de julho de 2018.

Artista mostra obras criadas sob efeito de cocaína e diz que galerias estão 'abrindo as pernas' para o mercado

Jac Leirner - Adição, Fortes D’Aloia & Gabriel | Galeria, São Paulo, SP - 29/05/2018 a 28/07/2018

[RESUMO] Jac Leirner, que mostra trabalhos criados durante noites de consumo de cocaína em 2010, afirma que as instituições artísticas ‘estão abrindo seus espaços e suas pernas para o mercado’ e critica o ativismo na arte, que considera insuportável.

Uma pedra de cocaína vai se desgastando e assumindo a forma de cabeças, rodas, esferas, cones, corações. Raspada compulsivamente, reduz-se a esculturas minúsculas que são associadas a objetos da intimidade doméstica em cenas fotografadas. Uma moeda, um cristal de rocha, uma nota de dólar, um estilete, um lápis do MoMa, um lenço branco de papel rosado de sangue.

Jac Leirner não gosta de trabalhar com fotografia. "Não me identifico com a linguagem fotográfica", diz. Mas usou uma câmera para registrar três noites brancas em 2010. Três noites de uso da droga, três noites de compulsões, três noites em que o espírito da arte também se manifestou, em estreita conexão com os caminhos e descaminhos da vida.

"A urgência do artista fez com que eu fizesse as esculturinhas. Não era para ser mostrado, era uma necessidade de transformar, mas percebi nas fotos uma força plástica", diz ela, enquanto percorremos as obras expostas nas paredes da Fortes, D'Aloia & Gabriel, em São Paulo. O título da mostra —Adição— é uma dupla referência. Remete diretamente ao processo de dependência química, que afligiu a artista, e a um procedimento da modernidade que ganha contornos particulares em sua trajetória: o acúmulo de objetos ordinários, retirados da vida cotidiana, para a construção de obras de arte.

Em 1982, com 21 anos, Jac expôs "Inacabável (Roda sobre Roda)", trabalho construído pelo empilhamento, em torno de um eixo, de formas circulares de diversos materiais, como vidro, plástico, madeira e feltro —um processo que reapareceu em diversas séries subsequentes, como as antológicas "Os Cem", "Pulmão" e "Nomes", todas da década de 1980.

Na primeira, ela criou obras com formas e significados variados a partir da reunião de notas de 100; em "Pulmão", a matéria-prima foi um conjunto de 1.200 maços de Marlboro; em "Nomes", o ponto de partida são sacolas plásticas subtraídas do território aditivo do consumo —inclusive o de arte.

Na mostra, que pode ser vista em São Paulo até o próximo dia 28, as fotografias —publicadas em sua totalidade num livro— são apresentadas justapostas em peças horizontais, que sugerem pequenas narrativas dramáticas ou cinematográficas, com títulos como "Macbeth", "Oh Yes, Yes" ou "Round Ones". Dispostas em igual sentido, outras obras agrupam, segundo critérios cromáticos, elementos do universo da maconha, como embalagens de papel para enrolar cigarros.

Vistas à distância, essas réguas de madeira que servem de base para as fotografias e os invólucros de seda evocam a representação gráfica de velocidade presente em HQs e desenhos animados —e também a aceleração provocada pelo consumo de cocaína.

Completa a mostra uma instalação feita de sobras de cigarros de maconha, as baganas, perpassadas por fios e obsessivamente ordenadas por tamanho, das menores para as maiores.

"É claro que nesse processo não pude deixar de pensar na experiência de outros artistas", diz Jac. "Como fazer uma escultura de cocaína e não pensar em Hélio Oiticica? Como usar maconha e não pensar em poetas como Baudelaire ou Fernando Pessoa, nos 'Paraísos Artificiais', no 'Opiário', no absinto?".

No mesmo endereço da exposição, na esquina da rua Fradique Coutinho com a Purpurina, na Vila Madalena, funcionou a lendária galeria Camargo Vilaça, fundada em 1992, da qual a Fortes, D' Aloia & Gabriel (que também já foi Fortes Vilaça) é uma espécie de herdeira e continuadora, já com longo e estabelecido percurso próprio.

Marcantônio Vilaça (1962-2000), o fundador da Camargo Vilaça, morreu prematuramente, mas viveu o bastante para ajudar a impulsionar no cenário nacional e internacional a obra de jovens artistas que despontaram a partir dos anos 80, como Beatriz Milhazes, Vik Muniz, Ernesto Neto —e a própria Jac Leirner, que trabalhou com o marchand numa fase em que já havia mostrado trabalhos no exterior.

Nos 26 anos que nos separam da fundação da galeria, muita coisa aconteceu no meio das artes, no Brasil e no exterior. A relativa estabilidade e crescimento econômico do país, progressivamente integrado aos fluxos da globalização, aproximou a cena artística brasileira do circuito internacional, que por sua vez passou por um processo quase que desenfreado de ampliação mercadológica e institucional.

Jac, testemunha desse processo, presenciou um movimento de forte expansão e alta rotatividade de curadores, assistentes e diretores no mundo de museus, galerias, coleções e instituições.

"Hoje as instituições de arte viraram quase que uma peste", afirma. "Todos os multimilionários têm seus museus particulares, por diversos motivos: tributários, financeiros e até mesmo por amor à arte. E está acontecendo uma grande expansão na Ásia, em especial na China, para onde já foram as grandes galerias do Ocidente."

Nos anos 1980, museus e organizações similares, que em geral privilegiavam acervos e exposições de artistas históricos, passaram a acolher de maneira mais ampla a arte contemporânea. "Foi uma novidade", lembra Jac, "mas agora o que está acontecendo é que as instituições estão abrindo seus espaços e suas pernas para o mercado. O mercado está dentro das instituições."

A artista vê na cena atual uma espécie de "grande maçaroca", causada pela diluição de fronteiras e inversão de papéis.

"Feiras algumas vezes exibem arte de ponta, enquanto galerias em certos casos fazem o papel de instituições e mostram obras que aparentemente são invendáveis; fazem também exposições de artistas com trabalhos muito engajados, que parecem ir contra o mercado, mas que acabam finalmente sendo absorvidos, porque o mercado absorve tudo, seja uma nuvem, uma ideia, uma lágrima ou um som", diz Jac.

"É lógico que muitos artistas ficam fora disso. Eles não têm galerias para representá-los em feiras e não entram nesses museus. Ficam no underground, fora do circuito. E temos hoje também essas artes insuportáveis, como arte de rua, arte feminista, arte desse pessoal ativista."

Na onda emergente dos movimentos identitários e da polarização ideológica, a seara cultural, em suas diversas frentes, passou nos últimos anos a conviver com uma proliferação de produções que muitas vezes extraem seu interesse antes de causas e reivindicações do que da imaginação ou da potência da linguagem artística.

"Outro dia me perguntaram se a arte 'resiste'. Eu respondi que ela existe, ela não resiste. Não tem essa de resistência. Esse ativismo é um uso da arte que a denigre e rouba", critica Jac.

"Não é só política, mas todos esses grandes temas, como economia, violência, gênero... São assuntos muito importantes, mais importantes até do que a arte, que devem ser tratados com respeito e conhecimento. Mas não é na arte que isso vai ser resolvido. A arte incorpora tudo isso, mas ela incorpora de forma presencial. Ela apresenta, ela não representa. Ela é a economia, ela é o gênero, ela é a política, não é que ela fale de."

Jac continua: "A arte é tomada de empréstimo para cumprir uma função que, no fundo, não tem. Se transforma em ilustração. Passa a ilustrar esses outros assuntos."

Assuntos que com frequência vêm se impondo em curadorias e exposições em prejuízo de um aprofundamento da poética da arte. "Esses museus e essas grandes mostras estão servindo muitas vezes a essas questões e temas, trazendo grandes públicos interessados neles. Claro que a arte desdobra ideias, desdobra emoções e desdobra história. Mas essa arte como ilustração não desdobra nada, ela apenas ilustra qualquer coisa."

Marcos Augusto Gonçalves é repórter especial da Folha, editor da série de cadernos temáticos "E agora, Brasil?" e autor de "1922 - A Semana que não Terminou". Foi editor da Ilustrada e da Ilustríssima.

Publicado por Patricia Canetti às 11:12 AM