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Como atiçar a brasa

 


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setembro 15, 2019

Pela primeira vez, negros são maioria em principal prêmio de artes plásticas do país por Clara Balbi, Folha de S. Paulo

Pela primeira vez, negros são maioria em principal prêmio de artes plásticas do país

Matéria de Clara Balbi originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12 de outubro de 2019.

Desde a criação do Marcantonio Vilaça, há 15 anos, apenas dois artistas negros haviam vencido a premiação

Mais tradicional premiação de artes plásticas do Brasil, o prêmio Marcantonio Vilaça anunciou, na noite desta quinta (12), os vencedores de sua sétima edição. São eles Aline Motta​, Dalton Paula, Dora Longo Bahia, Ismael Monticelli e Rodrigo Bueno.

Como em edições anteriores, a lista de ganhadores equilibra nomes fortes no circuito, aqui Paula e Longo Bahia, e emergentes, caso de Motta, Monticelli e Bueno.

Esta é a primeira vez, no entanto, que três dos cinco vencedores da edição —Paula, Motta e Bueno— são negros. Desde a criação do prêmio, há 15 anos, apenas dois artistas negros haviam sido escolhidos pelo júri da premiação, Jaime Lauriano e Lucia Laguna, respectivamente em 2017 e 2006.

"Estamos de certo modo recuperando um espaço que foi silenciado", diz Marcus Lontra, membro da banca avaliadora ao lado dos curadores Daniela Bousso, Denise Mattar, Moacir dos Anjos e Paulo Herkenhoff, e do diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Fabio Szwarcwald. "A presença de artistas negros em coleções, por exemplo, é irrisória. E eles são um grupo importante na arte contemporânea brasileira."

Lontra acrescenta ainda que a presença de Paula, Motta e Bueno na premiação é representativa porque "a situação negra não pode ser reduzida a apenas um artista".

Paula, por exemplo, tematiza a violência colonial e o lugar de prazer dos corpos negros em suas pinturas e instalações. Motta costura memórias pessoais e coletivas em sua busca pelas lacunas da história relacionada à escravidão no país. E, com seu Ateliê Mata Adentro, Bueno recupera e transforma resíduos da cidade.

Além deles, Longo Bahia é conhecida por obras de alta voltagem política, em que retrata a violência das grandes metrópoles. Por fim, Monticelli tem um prática mais conceitual, dedicando-se a reordenar espaços, objetos, materiais e narrativas e, assim, apresentar uma nova maneira de compreendê-los.

Cada um dos cinco ganhadores receberá uma bolsa de R$ 50 mil e terá sua obra acompanhada por um curador durante um ano. Eles também participarão de uma exposição itinerante, a ser exibida em Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Campo Grande no ano que vem —a organização ainda negocia levar a mostra para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, os trabalhos dos vencedores podem ser vistos ao lado de obras dos outros 25 finalistas do prêmio no Museu de Arte Brasileira (MAB-Faap) a partir desta sexta (13).

Uma mostra paralela no mesmo local homenageia Anna Bella Geiger por meio de um diálogo entre obras da carioca e de outros 11 artistas.

Publicado por Patricia Canetti às 4:25 PM


setembro 1, 2019

Conglomerado que pode dominar mercado da arte vem sendo criado na surdina por Gabriela Longman, Folha de S. Paulo

Conglomerado que pode dominar mercado da arte vem sendo criado na surdina

Matéria de Gabriela Longman originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 29 de agosto de 2019.

Os empresários Antonio Almeida e Carlos Dale vêm financiando exposições e comprando galerias rivais

No tabuleiro de “War” do mercado de arte, o momento é de novas alianças, quedas de braço e novos protagonismos, lembrando um pouco o atual cenário político. Ativos desde 2002 no mercado de revenda de obras de artistas em geral já consagrados, os sócios Antonio Almeida e Carlos Dale passaram os últimos anos injetando capital, criando parcerias e formando uma rede extensa de galerias, instituições e colecionadores.

Depois do anúncio de fusão com a galeria Leme, em janeiro, formando a Leme/AD, a dupla prepara em silêncio a fusão desta com a galeria Millan, dona de um dos principais times de artistas contemporâneos do país, entre eles nomes como Artur Barrio, Mario Cravo Neto e Tunga. Com cinco sócios (dois da A&D, dois da Millan e um da Leme) e três sedes, o novo negócio busca força para enfrentar a concorrência
global e os tempos de crise.

“A Millan não está sendo vendida porque nunca esteve à venda”, diz André Millan, sócio da casa ao lado de Socorro de Andrade Lima. “É uma nova galeria que vai surgir, novo nome e nova marca que ainda estamos definindo em conjunto.”

Segundo agentes de peso no mercado, a Almeida e Dale ainda teria ingerência sobre a editora Capivara, fundada por Pedro Corrêa do Lago, do portal de vendas online Blombô, e parte do acervo da galeria Mendes Wood DM —as fusões criam um conglomerado comercial de poder sem precedentes no cenário do país.

Ao atuar no mercado de venda de obras, na publicação de catálogos e no patrocínio de exposições em instituições, a dupla vai constituindo posições de poder em todas as etapas dessa cadeia. Entendendo que parceria é poder, passaram a fazer negócio com os próprios concorrentes até fazer deles aliados e, em alguns casos, sócios mesmo.

“Uma coisa que a gente faz é olhar para fora e ver o que funciona. A galeria se posiciona como o centro, não só como ponta final que faz a venda e recebe o dinheiro. Trabalhamos apoiando instituições, famílias, catálogos, exposições, meios de comunicação, revistas que falam de arte, toda a estrutura que está em volta”, conta Antonio Almeida.

“É justamente na crise que precisamos usar nossa criatividade e crescer, tanto que nesses últimos anos multiplicamos o número de projetos. Vamos procurar mercado alternativo, fazer parcerias, aumentar a base de clientes.”

Antonio Almeida e Ana Dale, mãe de Carlos, se conheceram em 1996 na galeria Portal, firma de Malvina Gelleni na rua Estados Unidos. Ali, ele era motorista e montador que começou a ensaiar a venda de algumas obras por conta própria. “Na época, as galerias eram pequenas. Não tinham a estrutura de hoje”, lembra.

Juntos, montaram um negócio também nos Jardins que tinha uma agência de turismo no andar de baixo e um escritório de arte no andar de cima. A atividade dupla acabou com a chegada de Carlos, dentista que morava no interior paulista e que mudou os rumos do negócio.“Ele falou: nós temos que fazer as coisas do meu jeito. Ele sabia que era uma bagunça”, lembra Antonio.

Estabelecida depois na rua Caconde, na virada do milênio, a Almeida e Dale cresceu tendo como clientes jogadores de futebol, como Emerson Leão, e políticos, como o ex-senador Luiz Estevão.

A expansão para valer, no entanto, aconteceu quando começaram a vender obras de arte aos empresários ligados ao grupo Edson Queiroz, de Fortaleza, em especial a Ayrton Queiroz e à fundação que leva seu nome, que tem um acervo com mais de 800 peças do período colonial ao contemporâneo.

“São Paulo inteira passava na galeria para levar obras para apreciação do doutor Ayrton, de tapeçarias a neoconcretos”, contou um importante colecionador paulistano.

Mas, ainda que tivesse dinheiro, a galeria sem prestígio foi sempre vista com ressalvas. Recusada em boa parte das feiras internacionais, passou a fazer parcerias com galerias mais descoladas, como a de Marilia Razuk, para conseguir entrada. É esse movimento que as fusões com Leme e Millan parecem vir completar.

Na tarde de terça-feira, quando receberam esta repórter, o colecionador Orandi Momesso, que estrutura uma espécie de pequeno Instituto Inhotim no Paraná, e a curadora Denise Mattar eram alguns dos que circulavam pela galeria, em meio aos 15 funcionários fixos.

Na sala dos sócios, 23 câmeras acompanham em tempo real a movimentação em cada um dos ambientes. Enquanto o primeiro andar abriga uma exposição de Flávio de Carvalho, o segundo acumula obras de todos os períodos e estilos, formando um conjunto que impressiona pelo volume.

Sempre que questionados sobre o sucesso do negócio, os sócios costumam ser enfáticos sobre a capacidade que têm de fazer pontes, abrir e desbravar mercados fora do eixo Rio-São Paulo.

“Você está num país com 27 estados, todos com potencial enorme de ter consumo de arte, mas nós temos um problema. Nem sempre temos instituições, nem sempre temos conteúdo. Você chega aos museus e não tem acervo, as condições são difíceis. Quando a gente chega a qualquer estado brasileiro, a gente identifica uma instituição local, identifica um parceiro e trabalha para criar e fortalecer esse mercado.”

Pouco a pouco, instituições como o Museu Inimá de Paula, em Minas Gerais, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, o Mamam, no Recife, começaram a encampar projetos de exposição patrocinados pelos galeristas e a emprestar obras do acervo para exposições em São Paulo.

Mais emblemático é o Museu de Arte Moderna da Bahia, que recebeu uma exposição de Adriana Varejão organizada pela Almeida e Dale e não pela Fortes, D’Aloia & Gabriel, representante oficial da artista. A instituição em Salvador agora se prepara para receber uma individual de Ana Elisa Egreja também financiada pelos galeristas.

Na capital baiana, o marchand Paulo Darzé virou um parceiro crucial, assim como galeristas de Goiânia, Cuiabá e outros centros. Na capilaridade estratégica desse dinheiro, a dupla parece ter descoberto um país que o mercado da arte ignorava. Em tempos de fogo, a água ali parece jorrar.

Publicado por Patricia Canetti às 1:30 PM


agosto 21, 2019

Novo site da Revista Item

A revista item foi criada em junho de 1995, com o objetivo de intervir no vazio provocado pela ausência de publicações sobre arte contemporânea no Brasil. item procurou aproximar artistas e pensadores de diversas áreas, com o objetivo de renovar a discussão de arte no país a partir de um pensamento interdisciplinar. A articulação entre arte e reflexão busca, invariavelmente, tornar visíveis os debates culturais.

Cada número de item dedicou-se a um tema específico, em torno do qual os colaboradores foram convidados a desenvolver uma reflexão original – e, na maioria das vezes, inédita – que procurasse revelar aspectos diferenciados e transversais dos assuntos abordados. A primeira parte da revista traz entrevistas, resenhas de livros ou exposições, assim como reflexões rápidas que escapam ao tema principal. As páginas centrais – dos quatro primeiros números – são ocupadas pelo projeto gráfico inédito de um artista convidado.

Entre 1995 e 1996 foram publicados quatro números, abordando os temas (item-1) "textos de artistas", (item-2) "música", (item-3) "tecnologia" e (item-4) "sexualidade".

Em 2002, após seis anos, a revista item voltou a circular, com o lançamento de dois números inéditos: item-5, lançada no Rio de Janeiro e em São Paulo em fevereiro de 2002, teve como tema "afro-américas"; item-6, com tema “fronteiras”, foi lançada no Rio de Janeiro em maio e em São Paulo em junho de 2003.

Acesse o novo site da Revista Item

Editores: Eduardo Coimbra e Ricardo Basbaum
Editores-fundadores: Eduardo Coimbra, Raul Mourão, Ricardo Basbaum

Publicado por Patricia Canetti às 3:42 PM


agosto 11, 2019

Para José Olympio Pereira, Bienal não deve tomar lado, mas sim incentivar o diálogo por Marcos Grinspum Ferraz, Arte!Brasileiros

Para José Olympio Pereira, Bienal não deve tomar lado, mas sim incentivar o diálogo

Entrevista de Marcos Grinspum Ferraz originalmente publicada na revista Arte!Brasileiros em 7 de agosto de 2019.

Presidente da Fundação Bienal adota discurso conciliador, elogia o ministro Osmar Terra e o secretário de Cultura Henrique Pires e fala sobre o projeto de expandir a 34a edição da bienal pela cidade e ao longo do ano de 2020

É em torno das ideias de diálogo e convivência que o atual presidente da Fundação Bienal de São Paulo, o banqueiro e colecionador José Olympio da Veiga Pereira, pensa o projeto curatorial da 34a edição do evento paulistano, a ser realizada em 2020. Se o momento político brasileiro é conturbado e de “fervura alta”, inclusive no campo cultural, não é hora de incentivar maiores polarizações e confrontos, diz ele. “A gente tem que ser capaz de dialogar, mesmo que não concorde com a ideia do outro”.

Com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, a Bienal tem como proposta “abraçar a cidade”, se espalhando no tempo – ao longo de todo o ano com exposições e performances – e no espaço – incluindo diferentes instituições da capital para além do Pavilhão do Ibirapuera. Essa escolha, afirma Olympio, segue também a linha de reforçar relações, criar conversas e incentivar diálogos.

Ao contrário de grande parte das pessoas que trabalham hoje na área cultural – que propõem um discurso de resistência e combate –, ele prefere adotar um discurso conciliador. “Tomar lado é a antítese do que estamos propondo. O que a gente está propondo é que os diferentes lados tem que ser capazes de se relacionar”, afirma Olympio, que é também conselheiro do MAM-Rio, do MASP, do MoMA (Nova York), da Tate Modern (Londres) e da Fondation Cartier (Paris).

Além disso, ele ressalta que considera tanto o ministro da Cidadania de Bolsonaro, Osmar Terra, quanto seu secretário de Cultura, Henrique Pires, “pessoas competentes, sensíveis e bem intencionadas em seus trabalhos”. Afirma, ainda, que se de um lado o presidente dá declarações polêmicas, de outro o congresso deu um exemplo de capacidade de diálogo ao aprovar a reforma da Previdência.

Em entrevista à ARTE!Brasileiros realizada na sede do Credit Suisse Brasil, banco do qual é o atual presidente, José Olympio falou sobre estes e outros assuntos relativos à Bienal e ao contexto político. Leia abaixo a íntegra.

ARTE!Brasileiros – Como você avalia estes primeiros meses à frente da presidência da Fundação Bienal?
José Olympio da Veiga Pereira
– Eu estou há dez anos no conselho da Bienal, então não é que a Bienal seja uma novidade para mim. E há cerca de três anos eu já estava também presidindo um conselho consultivo internacional que nós formamos. Desde que assumi a presidência, acho que a coisa mais positiva foi me dar conta da qualidade dos profissionais que a gente têm. Conhecer mais a estrutura, os talentos e capacidades foi uma coisa muito boa. De fato temos um time muito competente, que veste a camisa, com muita experiência, o que é muito importante. Porque no nosso modelo de governança – temos um conselho de 60 membros, uma diretoria de dez membros, com mandato de dois anos renovável por mais dois – a função do presidente é limitada no tempo. O que garante a continuidade da instituição é o corpo de funcionários e de gestão que está lá, que mantém a memória e as capacitações, e acho que a gente está muito bem equipado nesse sentido.

No início do ano houve a escolha do Jacopo Crivelli Visconti como curador. Como foi esse processo e em que ponto anda o trabalho do time curatorial?
Sim, nesse período nós também avançamos com o projeto curatorial. Das propostas que eu recebi, que foram ótimas, se destacou a do Jacopo Crivelli, que convidou o Paulo Miyada como curador-adjunto e a Ruth Estévez, a Carla Zaccagnini e o Francesco Stocchi como curadores convidados. E nós criamos esse conceito de uma Bienal que abraça São Paulo, que se realiza não só no Pavilhão do Ibirapuera, mas numa rede de instituições culturais da cidade. Enfim, ao mesmo tempo estamos pensando sobre que outras missões a Fundação pode ter além da realização desta grande exposição a cada dois anos e das itinerâncias posteriores no Brasil e no exterior. E isso é uma coisa muito importante, essa promoção de arte global e brasileira entre um público brasileiro e global. Então acho que as coisas estão indo muito bem.

Existe a ideia de expandir a Bienal na cidade, com parcerias com outras instituições, mas também de expandir no tempo, com mostras que aconteçam ao longo do ano. Pode contar um pouco mais sobre isso?
Sim, são dois vetores. Então a Bienal vai começar em março, com três exposições individuais no primeiro semestre, de artistas que também estarão na mostra coletiva posteriormente. E nós teremos também no primeiro semestre três grandes performances apresentadas em momentos pontuais. E teremos também outros eventos ao longo do ano, educativos, debates, palestras etc.

E qual a ideia por trás dessas mudanças, dessa expansão? É parte de um desejo de expansão de público? Vem de uma percepção de que a Bienal ficava muito restrita a um período curto?
Eu acho que você tem toda a proposta curatorial que tem a ver com a poética das relações, a questão do ser humano ser capaz de se relacionar com alguém diferente dele. E eu acho que a formação dessa rede de instituições reforça a proposta curatorial, de criar diálogos. E a Bienal sempre foi um catalizador de atração de um público global e brasileiro que vem ver a exposição, o que faz com que todas as outras instituições culturais queiram caprichar na sua programação, fazer coisas especiais durante o período. Então por que não fazer isso em diálogo? Então vamos realmente oferecer ao grande público uma coisa muito interessante. Por exemplo, você pode ver na exposição coletiva da Bienal um artista que te interesse especialmente, e aí você tem a oportunidade de conhecer a produção dele mais profundamente em uma individual em outro museu. E aí perceber como é este artista visto individualmente ou como ele é visto em relação a outros artistas. E acho importante, para cumprir a nossa missão de promoção de arte, fazer uma coisa que tem impacto, oferecer um produto ao público que tenha interesse, que seja algo diferente. Nossa meta é transformar São Paulo em uma capital das artes plásticas, visuais, de setembro a dezembro do ano que vem. Fazer com que todo mundo que se interessa por arte sinta vontade de vir à São Paulo nesse período.

Uma das coisas que você propôs desde que assumiu tem a ver com um trabalho de criação de ferramentas voltadas à preservação da memória das artes, ampliando o papel, por exemplo do arquivo histórico da fundação, o Wanda Svevo. Poderia contar um pouco sobre isso?
Sim, isso está em formulação, mas é um projeto de mais longo prazo. A ideia é dar à Bienal uma missão institucional de ser um grande centro de memória de arte. Focado como um centro de estudos, de memória. O arquivo histórico Wanda Svevo já serve a um número grande de pesquisadores, mas acho que isso pode ser muito expandido. E estamos pensando como fazer isso.

Falou-se também num fortalecimento das relações da Bienal com a vida cultural no exterior, até pelo seu bom relacionamento com tantas instituições internacionais. Concretamente, o que isso significa?
A Bienal é a mais internacional das nossas instituições culturais. Ela promove este intercâmbio entre a arte global e a brasileira desde o início – inclusive, antigamente havia até representações internacionais. E eu acho que a gente tinha perdido um pouco esse contato. Então desde 2016 a gente começa, através da criação deste conselho consultivo internacional, a se reconectar ao mundo global das artes. Hoje já temos 11 membros neste conselho, gente da França, da Inglaterra, da Holanda, dos EUA, Argentina, Alemanha etc. Porque a gente quer a ajuda dessa rede para promover a Bienal, para conseguir acessar artistas que eventualmente a gente queira trazer, buscar obras importantes. Porque nós somos essa instituição global. E a nossa Bienal, embora muito tradicional e antiga, perdeu parte de sua relevância com o tempo por conta inclusive da infinidade de bienais que foram criadas ao redor do mundo. E o que a gente quer é afirmar a nossa importância, disputar o nosso espaço de luz ao sol neste mundo superpovoado de bienais.

Quando foram apresentadas as primeiras linhas do projeto curatorial, tanto o senhor quanto o curador falaram da importância de não alimentar polarizações neste momento político conturbado, de incentivar a capacidade de dialogar e conviver. Passados cerca de três meses, com os acontecimentos políticos recentes, com as políticas e declarações polêmicas do presidente, como você enxerga essa questão?
Acho que só reforçou o que a gente quer enfatizar. E acho que essa não é uma questão brasileira, mas é global. Quando você olha o que está acontecendo nos EUA, na Europa – com o Brexit, ou na França, na Itália –, a gente está infelizmente em um momento de polarização, de intransigência com a ideia do outro. E o que a gente quer buscar é dizer que, apesar disso tudo, a gente tem esperança. A gente tem que ser capaz de dialogar, mesmo que não concorde com a ideia do outro. É curioso, porque a gente vê ao mesmo tempo, aqui no Brasil, dois exemplos: de um lado as declarações do presidente, mas de outro um congresso que se uniu e aprovou a reforma da Previdência, com 379 votos, unindo partidos das mais diferentes colorações. Então há uma esperança.

A aprovação da Previdência é para você um exemplo da capacidade de união?
É uma capacidade de diálogo. Não é porque a ideia é do outro que ela é ruim. Temos que pensar no país, temos que ter esse diálogo.

Agora, pensando a Bienal como este evento que trabalha com arte, experimentação e criação – um espaço muitas vezes de radicalidade –, é possível neste contexto se furtar de tomar posição, tomar lado?
Tomar lado é a antítese do que estamos propondo. O que a gente está propondo é que os diferentes lados tem que ser capazes de se relacionar. E no fundo, o que a gente quer mostrar é que o lado que a gente está tomando é o lado de que o diálogo tem que acontecer. De que a polaridade não leva a lugar nenhum. Essa é a nossa posição com a proposta curatorial.

Enquanto presidente da Bienal, você lida diretamente com as áreas de cultura e educação. De modo geral, são duas áreas que parecem bastante ameaçadas pelo atual governo, seja na mudança na Rouanet, na Ancine, nas propostas de corte ao sistema S, nos cortes de verbas nas universidades…. Você não enxerga um discurso violento contra essas áreas? Não vê riscos com as novas políticas?
Olha, eu acho que ninguém discute que a educação é fundamental para o desenvolvimento do nosso país. Isso para mim está claríssimo. Você pode debater a efetividade ou não dos nossos esforços na educação, mas a importância da educação é inquestionável. Não vejo ninguém questionar isso. E acho que na cultura a gente tem um defensor, que é o ministro da Cidadania Osmar Terra. Vejo pela própria maneira como ele lidou com a Lei Rouanet. Havia muito medo do que poderia ser feito e acho que a solução final proposta por ele foi uma solução ok. E acho que tanto ele quanto o secretário de Cultura Henrique Pires entendem a importância da cultura e a importância de instituições culturais como a nossa, que foram absolutamente preservadas com a mudança na Lei de Incentivo à Cultura. Então eu acho que tem muito barulho, mas ameaças concretas eu não vejo, ao menos olhando do ponto de vista de entidades culturais como a Bienal e museus. Não quero entrar na seara de produtores culturais ou cinema etc., que aí é outro campo. No campo onde eu milito e participo eu acho que a solução que foi dada está ok.

E quanto aos artistas, você não percebe um clima de apreensão? As pessoas não estão assustadas?
Existe sim. Veja bem, está todo mundo assustado. Existe medo. Eu só espero que com o tempo essa poeira, essa temperatura, abaixe. Mas, sem dúvidas, a gente está vivendo um momento de fervura alta.

Vou insistir um pouco nessas questões políticas, que me parecem muito relevantes neste momento. Em entrevista recente você disse que achava que a cultura poderia ser valorizada independentemente de estar debaixo de um ministério ou de uma secretaria, que o fim do Minc não era um problema em si. Olhando agora, você acha que a cultura está sendo valorizada?
Acho que tem muito ruído em torno da cultura. Não tanto nas artes plásticas, não nas instituições culturais, mas em outras áreas, como na discussão em torno da Ancine. Enfim, espero que isso seja melhor endereçado. Mas continuo com a minha visão de que a gente não necessariamente precisa de um ministério para valorizar a cultura. Você pode ter um ministério e mesmo assim a cultura ser desvalorizada, porque o ministério não tem orçamento, não tem foco – como já aconteceu –, aí não adianta. Eu só acho importante deixar o registro de que eu considero tanto o ministro Osmar Terra quanto o secretário Henrique Pires pessoas competentes, sensíveis e bem intencionadas em seus trabalhos.

Por fim, eu queria saber sua avaliação sobre a participação brasileira na 58a Bienal de Veneza, com o trabalho de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, e na perspectiva em relação à participação brasileira na 17a Bienal de Arquitetura, em 2020, ambas ligadas à Fundação Bienal.
Acho que já na gestão anterior nós fizemos um gol com a participação da Cinthia Marcelle. Foi a primeira vez que o Brasil ganhou uma menção honrosa com o seu pavilhão, o que é uma coisa extraordinária. A escolha agora da dupla Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, com a obra Swinguerra, também foi extremamente feliz. Eu fui à abertura e pude constatar o sucesso do pavilhão mesmo antes de toda a imprensa europeia dar o pavilhão brasileiro como um dos dez melhores. Foi um baita sucesso, impecavelmente realizado, deu orgulho da nossa sala e das soluções técnicas encontradas. Acho também que a diretriz de ter um artista só é a mais adequada, tem mais força. E agora vamos apresentar o Swinguerra na Bienal, para o público brasileiro, essa obra que é absolutamente sedutora e hipnotizante.

E sobre a Bienal de Arquitetura…
Temos planos igualmente ambiciosos para a nossa representação na Bienal de Arquitetura de Veneza. Já está endereçado, mas vamos revelar em breve.

Publicado por Patricia Canetti às 1:04 PM


Novo site da Revista Tatuí

Tatuí foi uma revista de crítica de arte editada entre 2006 e 2015 a partir de Recife, Pernambuco. Ao longo de seus 14 números, foram publicados quase 200 textos e outras formas de pensamento crítico, reunindo dezenas de autoras e autores. Entre edições temáticas e imersivas – processos editoriais surgidos na convivência e trabalho coletivo protagonizado por agentes diversos das artes visuais (artistas, críticas/os, historiadoras/es, escritoras/es, pesquisadoras/es etc) convidadas/os a compor o corpo editorial e autoral dos números 1, 3, 00, 10 e 13 –, à Tatuí interessou promover um debate crítico público, denso e experimental.

Você pode conhecer, acessar e fazer o download da história da Revista Tatuí: edições, residências, oficinas, memórias, fotos, videos e reflexões críticas estão reunidas e online no novo site!

EQUIPE
Ana Luísa Lima - edição
Clarissa Diniz - edição
Daniela Brilhante - design gráfico
Bebel Kastrup - produção executiva
Virginia Correia - assistente de produção

COLABORADORES
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Publicado por Patricia Canetti às 12:57 PM