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Como atiçar a brasa

 


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novembro 14, 2018

Fim da Rouanet causaria apagão em orquestras, museus e musicais, Folha de S. Paulo

Fim da Rouanet causaria apagão em orquestras, museus e musicais

Matéria de Daniel Mariani , Eduardo Moura , Guilherme Genestreti , João Perassolo , Maria Luísa Barsanelli e Rafael Gregorio originalmnete publicada no jornal Folha de S. Paulo em 9 de novembro de 2018.

Alvo de duras críticas, lei é o principal instrumento federal de incentivo às artes; entenda como o mecanismo funciona

Alvo de recentes e acaloradas discussões, a Lei Rouanet tem sido fortemente criticada por parte da sociedade e da classe política, havendo mesmo quem defenda a extinção do mecanismo, hoje o principal instrumento federal de incentivo às artes.

A retórica ganhou força com a eleição de Jair Bolsonaro, já que muitos expoentes da direita que apoiaram o presidente eleito, como o grupo MBL e o deputado federal eleito Alexandre Frota (PSL), pregam pela sua revogação.

"Não só há centralização, como há decisões tendenciosas que levam grupos e grandes empresas a ter monopólio dos patrocínios", disse Frota sobre as leis de incentivo. Ele também já se referiu a uma suposta "farra que ocorreu no setor nos últimos anos".

Mas o eventual fim da lei, dizem produtores ouvidos pela Folha, poderia gerar um apagão na produção artística e acabar com a estrutura de economia cultural —ou seja, os empregos gerados pelo setor, a circulação de capital e o impacto financeiro de atividades artísticas— que se criou no país nas últimas décadas.

"Se a Lei Rouanet deixar de existir, importantes instituições vão ter problemas: Masp, Osesp, Filarmônica de Minas Gerais, Grupo Corpo, além de iniciativas de restauro de patrimônio histórico. Significa uma situação de paralisação na cultura brasileira", diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural e vice-presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

Segundo a advogada Cris Olivieri, consultora para a arte e a cultura, "a revogação seria uma retração, já que não existe um projeto de política cultural para o país" e não há mecanismos para substituí-la. Fora que a legislação "permite uma quantidade infinita de programação gratuita nas maiores instituições e museus nacionais".

Museus, peças teatrais, projetos musicais e de patrimônio muitas vezes compõem boa parte de seu orçamento com recursos obtidos via lei, que permite a patrocinadores descontarem de seu Imposto de Renda os valores destinados a projetos culturais.

A Pinacoteca do Estado de São Paulo, por exemplo, obtém 40% de sua verba anual pela Rouanet — para o ano que vem, o museu foi autorizado a captar R$ 16 milhões.

Tais recursos, diz Paulo Vicelli, diretor de relações institucionais da Pinacoteca, tornaram possíveis mostras como a do escultor Ron Mueck e a coletiva "Mulheres Radicais", atualmente em cartaz.

Os musicais, que desde 2000 vêm crescendo e gerando um mercado no país, também recorrem à lei para pôr de pé a estrutura de espetáculos. No caso de "A Pequena Sereia", versão da Disney montada em São Paulo no início do ano, 90,6% de seu orçamento (R$ 10,9 milhões) foi composto com recursos via Rouanet.

É consenso entre produtores que o mercado de musicais, que gera em média cem empregos diretos por peça, não se sustentaria sem a lei.

"Houve uma profissionalização enorme do setor, mas sem o incentivo a economia dele acaba", comenta Eduardo Barata, presidente da APTR (Associação dos Produtores de Teatro). "Muitas vezes a bilheteria não mantém uma peça."

De fato, a área de artes cênicas (que engloba dança, circo, teatro e, eventualmente, escolas de samba) representa a maior fatia da Rouanet.

No ano passado, ela significou 37,93% de todos os valores captados via lei (cerca de R$ 1,2 bilhão). Logo na sequência aparecem música (21,54%), artes visuais (13,49%) e patrimônio cultural (12,73%).

Críticos do mecanismo falam em rombos de cofres públicos e artistas que "mamam nas tetas do governo" com a lei. Mas um estudo coordenado há dois anos por Henilton Menezes, ex-secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, mostrou que 70% dos projetos realizados são de pequeno porte, de até R$ 500 mil.

A Rouanet representa uma fatia pequena de todas as leis de renúncia fiscal no país: apenas 0,5% do que o Brasil deixa de arrecadar em impostos com programas de incentivo. Já o setor de comércio e serviço é responsável por 27,63% de todas as renúncias fiscais.

E o retorno financeiro costuma ser grande. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas sobre a última Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) mostrou que os impostos recolhidos pelo governo durante o evento, R$ 4,7 milhões, foram superiores aos R$ 3 milhões de isenção fiscal que patrocinadores da festa obtiveram pela Rouanet.

Além disso, a Flip gerou um impacto econômico de R$ 46,9 milhões — gastos dos turistas com hotéis, transporte, restaurantes e recursos para atender a essa demanda, como fornecimento de alimentos, serviços bancários e geração de postos de trabalho.

Já um levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro mostra que os setores econômicos ligados à cultura recebem investimento anual de cerca de R$ 1,4 bilhão, somando Rouanet e leis de audiovisual, e respondem por 2,64% do PIB.

É um retorno maior do que o de outros setores, como a indústria automobilística, que recebe em média R$ 7 bilhões ao ano em incentivos fiscais e representa 4% do PIB.

Não que inexistam problemas. Muito se critica que os projetos aprovados se concentram no Sudeste e que há muita demora para prestar contas e fiscalizar as propostas.

João Leiva, diretor da JLeiva, consultoria especializada em cultura e esporte, ressalta ainda que a lei impede patrocínios de empresas de lucro presumido (em geral, de porte menor). E que justamente elas teriam perfil para custear trabalhos pequenos e médios.

Além disso, só uma das três funções da Rouanet, a do mecenato, que diz respeito aos patrocínios via renúncia fiscal, tem funcionado. Os Ficarts, fundos para a economia criativa, nunca saíram do papel.

Já o Fundo Nacional de Cultura, mecanismo que tentaria equilibrar a distribuição regional da lei, teria recurso previsto de 3% do valor das loterias, mas o repasse não é feito há ao menos seis anos — o total supera R$ 1,5 bilhão.

Fora alguns casos de forte repercussão negativa. Como quando a cantora Maria Bethânia conseguiu, em 2011, autorização do Ministério da Cultura para captar R$ 1,3 milhão e criar um blog. Ou quando a colega Claudia Leitte teria descumprido as regras de distribuição de ingresso, e a pasta exigiu, em 2016, que ela devolvesse R$ 1,2 milhão captados para uma série de shows.

No entanto, há muita desinformação e notícias falsas, que geram críticas. Caso do boato de que Chico Buarque viveria em Paris às custas da Rouanet — o artista nunca usou a lei.

"A demonização da lei é um equívoco", afirma Pedro Machado Mastrobuono, vice-presidente da Comissão de Direito às Artes da OAB-SP. "Defender a revogação da Rouanet por causa de escândalos é tão sem sentido quanto defender o fim da merenda escolar em função de desvios de verbas em prefeituras."

Ex-ministra da cultura, a senadora Marta Suplicy (MDB) reforça que "as pessoas precisam ser esclarecidas sobre o que é verdade ou barulho", e concorda com a necessidade de mudanças. "Num país como o nosso, com tão parcos recursos, poderia ser pensado um limite para cada segmento, com compensação para incentivar mais regiões, artistas iniciantes e novas experiências", ela afirma.

Para a advogada Cris Olivieri, grande parte das críticas vem de uma crença de que a lei seria partidária. Ela diz que a maioria dos projetos para captação de recursos normalmente vem "de quem trabalha com o segmento" e são projetos sem qualquer interferência política. "Não tem que ser amigo de ninguém do PT para ter projeto aprovado."

O debate e a polarização política foram ainda mais acirrados nas últimas eleições. O deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito Jair Bolsonaro, escreveu em suas redes sociais sobre as críticas de artistas ao pai: "Se não existisse Lei Rouanet — que é dinheiro nosso— você acredita que essa 'claque de artistas' apoiaria PT/PSOL?".

O presidente eleito não disse que acabaria com a lei —afirmou que, em seu governo, a legislação beneficiará apenas artistas em início de carreira e com pouca estrutura—, mas sua vitória causou discussões sobre os rumos da cultura.

Tanto que alguns produtores têm conversado com deputados para discutir no Legislativo projetos para as artes por meio da chamada Frente Parlamentar da Cultura, uma associação suprapartidária que pretende ser formalizada no início do ano que vem.

"A ideia é, da mesma maneira que existe uma bancada evangélica e uma ruralista, formar uma bancada da cultura", diz Eduardo Barata, presidente da APTR (Associação dos Produtores de Teatro).

Ali seriam discutidas legislações para a área e o destino do Ministério da Cultura, que pode ser fundido a outra pasta no próximo governo — um dos temores da classe artística. "Com a fusão, não sabemos se as comissões [para a cultura] continuam", diz Barata.

"A gente espera que o novo governo não confunda a cultura com partido político e que entenda a importância das artes para a sociedade. E que o Poder Legislativo seja o grande baluarte que nos proteja do retrocesso", continua.

Outra demanda, diz Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural que também defende a necessidade de aprimorar o incentivo fiscal, é rediscutir o papel das entidades vinculadas ao Ministério da Cultura, entre elas a Funarte, responsável por determinar políticas para as artes e hoje vivendo precariedade e falta de recursos.

Mas os receios não se restringem a mudanças de estrutura ou legislações. "A grande preocupação é a censura, direta ou indireta", na opinião de Francisco C. Martins, vice-presidente da Apaci (Associação Paulista de Cineastas).

"Movimentos que apoiaram Bolsonaro, como o MBL, tentaram impedir certos eventos [como a exposição 'Queermuseu']. É de se perguntar se o governo dele será autoritário ou respeitará a Constituição."

O audiovisual é a área que conseguiu se estruturar de forma mais perene no país. Fora festivais, como a Mostra Internacional de Cinema e o Anima Mundi, referência em animação, produções cinematográficas não costumam depender da Lei Rouanet para manter suas edições anuais.

A área é regida em torno de várias leis e de uma agência reguladora (a Ancine) e, portanto, mais imune aos humores dos diferentes governos.

Para provocar mudanças na forma como os filmes brasileiros são feitos, o novo presidente teria de mexer na independência da Ancine, a Agência Nacional do Cinema.

"Ele não falou sobre o assunto. Mas, se a atividade audiovisual for parar dentro da pasta da Educação e ela for ocupada por um militar, podemos cair num tipo de produção direcionada, temática", comenta Vera Zaverucha, ex-diretora da agência.

O que fomenta o setor são recursos provenientes do FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), abastecido com arrecadação da Condecine, uma contribuição exigida de quem distribui conteúdo audiovisual, incluindo aí empresas de telecomunicação e operadoras de televisão por assinatura.

Em 2017, esse fundo destinou cerca de R$ 748,7 milhões à atividade que, no Brasil, depende quase que inteiramente desses recursos públicos.

Para mexer no FSA, Bolsonaro teria de mudar os integrantes do comitê gestor do fundo, mas o que o presidente eleito poderia alterar é o percentual de contingenciamento desses recursos, isto é, impedir que certa proporção desse dinheiro seja executada. Atualmente, pouco mais da metade dos recursos do FSA já são contingenciados.

Membro do comitê gestor do FSA, o cineasta André Klotzel crê que existe um "pânico irracional". "Não há motivos para que se tomem os discursos eleitorais de Bolsonaro como práticas de governo", diz.

"Tem-se a impressão de que a esquerda é quem controla o cinema nacional. Mas, quando se olha os campeões de bilheteria nacional, o que se vê são filmes como 'Nada a Perder' [sobre o bispo Edir Macedo] e comédias que têm uma visão mercadológica que não tem nada de esquerdista."

BANCADAS DA CÂMARA DEFENDEM ROUANET, MAS COM MUDANÇAS

A Lei Rouanet dificilmente será extinta nos próximos anos, se depender das principais bancadas da Câmara dos Deputados na próxima legislatura. Ela deve, no entanto, sofrer mudanças, caso isso entre em pauta no Congresso a partir do ano que vem.

A Folha ouviu algumas das principais bancadas sobre o futuro do incentivo. Entre as lideranças de PT, PSD, PR, PSB, DEM, PSDB, PSOL, PCdoB e PPS —que, juntas, terão 240 parlamentares de 513 no total— nenhuma disse ser a favor de extinguir a lei, embora todos sejam favoráveis a algum tipo de mudança, radical ou parcial.

Procurados, representantes do PSL não responderam aos pedidos da reportagem. O partido tem a segunda maior bancada, com 52 parlamentares —na legislatura anterior, tinha somente um.

Embora todos tenham suas críticas à lei, as bancadas divergem quanto ao teor delas.

"Há uma avaliação de que [a Rouanet] precisa ser aperfeiçoada, talvez exatamente pelos motivos opostos [aos de Bolsonaro]", diz Ivan Valente (PSOL-SP), cujo partido contará com dez cadeiras na Câmara. Entre as observações, ele diz que "o dinheiro é público e a escolha é privada".

O PT, que terá a maior bancada, com 56 deputados, defende mudanças parciais e critica a concentração no eixo Rio-São Paulo e o baixo grau de incentivo a "produções culturais relevantes mas sem atratividade como iniciativa de marketing".

"Hoje o incentivo fiscal não estimula de fato o investimento privado", diz Paulo Teixeira (PT-SP), em referência ao baixo grau de patrocínio direto por parte de empresas privadas no setor cultural.

O petista propõe três formas de correção das "distorções" da lei. A primeira é o fortalecimento orçamentário do Fundo Nacional da Cultura. Depois a descentralização regional e um mecanismo que evite concentração de altos recursos em poucos projetos.

Por fim, pede a aprovação de um novo sistema de fomento e dá o exemplo do Procultura, projeto que já passou pela Câmara e agora aguarda apreciação pelo Senado —e também é defendido pelo PCdoB.

A iniciativa foi apresentada em 2016 pelo senador Roberto Rocha (PSB-MA), e a nova lei atacaria as falhas da Rouanet, com o intuito de promover mais equidade entre o seu tripé —o FNC (Fundo Nacional da Cultura), o incentivo fiscal e os Ficarts (Fundos de Investimento Cultural e Artístico).

Os demais partidos ouvidos pela Folha não possuem propostas tão detalhadas quanto a do PT, o que se justifica pelo fato de o partido ser o maior representante da oposição na Câmara e também porque não há nada de oficial confirmado pelo presidente eleito que diga respeito à Lei Rouanet, apenas comentários isolados.

O PSD, que terá a quinta maior bancada, diz não ver necessidade de a lei ser extinta. "Apenas é preciso que seja garantida lisura e transparência no processo para que haja justiça e pluralidade no processo de escolha das entidades beneficiadas."

O DEM, embora defenda mudanças radicais, concorda com o PT quanto à democratização do incentivo. "Não podemos mais ver só os grandes e milionários grupos de cultura recebendo o incentivo", afirma Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), autor do pedido de CPI da Lei Rouanet.

O relatório da CPI pediu encaminhamento ao Ministério Público das investigações realizadas sobre o desvio de recursos obtidos por meio da lei, melhoras dos mecanismos de controle, além de anunciar que seria apresentada uma proposta legislativa para alterar a Rouanet, sem revogá-la. O resultado foi a PL 7619/17, que aguarda parecer da Comissão de Cultura na Câmara.

O relator da CPI foi o tucano Domingos Sávio. Quanto ao futuro da Rouanet na nova legislatura, o PSDB diz preferir mudanças parciais, sobretudo na fiscalização.

Todos os partidos citam a concentração territorial dos incentivados pela lei. O PPS fala em "contemplar os pequenos artistas". Tadeu Alencar, atual líder do PSB na Câmara, diz que "a cultura, num país que negligencia a atividade cultural de longa data, precisa de forte apoio do Estado". Já para o PR, "a legislação de incentivo à cultura pode, e deve, ser aperfeiçoada".

PERGUNTAS E RESPOSTAS

O que é a Rouanet?

O governo permite a empresas deixarem de recolher 4% de seus impostos (6% para pessoas físicas) e os repassarem a iniciativas culturais

Quem pede?

Qualquer pessoa física ou jurídica pode se cadastrar em novosalic.cultura.gov.br

Quem decide?

Os projetos são analisados pela área técnica do MinC com base em critérios como pertinência e adequação a medidas de acessibilidade. Depois, uma comissão sugere aprovação ou recusa da captação. A partir daí, o proponente deve procurar e convencer os doadores

O governo dá dinheiro?

Não, mas deixa de receber em forma de tributos

Há limites?

Grandes empresas podem, por ano, fazer até 16 projetos, somando R$ 60 milhões. Os valores mudam para instituições de menor porte

Contrapartidas

Para usar a lei é preciso atender a algumas regras, como distribuir ao menos 10% dos ingressos gratuitamente, com caráter social, educativo ou de formação artística

Publicado por Patricia Canetti às 9:48 AM


novembro 13, 2018

Um roteiro para apreciar o trabalho de Burle Marx no Rio por Ricardo Ferreira, O Globo

Um roteiro para apreciar o trabalho de Burle Marx no Rio

Matéria de Ricardo Ferreira originalmente publicada no jornal O Globo em 9 de novembro de 2018.

Jardins, escultura, azulejaria: documentário inspira passeio por obras do paisagista espalhadas pela cidade

Aplicando sua “organização planejada dos elementos naturais” em sintonia com o modernismo, Roberto Burle Marx (1909-1994) deixou sua identidade em espaços públicos do Rio. Conhecido principalmente por seu trabalho como paisagista, ele, que era também artista plástico, tem sua trajetória revisitada no documentário “Filme paisagem — Um olhar sobre Roberto Burle Marx”, do cineasta mineiro João Vargas Penna, com estreia marcada para a próxima quinta.

— Parte da cara do Rio é de responsabilidade do Burle Marx— analisa Penna.

Inspirados no longa, traçamos um roteiro para apreciar seu legado na cidade, do verde do Aterro do Flamengo ao painel de azulejos da Fiocruz, que reproduz um protozoário, passando por uma escultura de grande formato no Recreio.

Parque do Flamengo

Com 1, 2 milhão de metros quadrados, o Aterro é considerado o maior projeto de Roberto Burle Marx — e não só por seu tamanho. Inaugurado em 1965 com a função de alargar o fluxo no trânsito entre o Centro e a Zona Sul, o Parque do Flamengo foi uma tela em branco para ele, contratado à época para, dentro do projeto de Affonso Reidy, configurar o paisagismo do espaço.

— O Aterro é uma delícia. Ele teve uma inteligência de escolher espécies adequadas à região ou já nativas. Isso garante uma manutenção maior. Se o poder público não cuidar, a própria natureza se encarrega disso — diz João Vargas Penna.

A marca de Burle Marx no imenso parque contrasta, por exemplo, com a sisudez dos arbustos de estilo europeu da Praça Paris, em frente ao Monumento dos Pracinhas. O paisagismo do Aterro é o contrário daquilo, preza pelas espécies tropicais.

— Ele criava esses espaços pensando no coletivo e no futuro. Nos ensinou que na profissão de paisagista precisamos ter uma certa generosidade em entender que nem sempre iremos presenciar a plenitude dos jardins projetados. Ao plantar uma árvore, talvez não cheguemos a ver sua frutificação ou floração, mas não tem problema, pois alguém irá usufruir e apreciar a longo prazo — comenta Isabela Ono, filha de Haruyoshi Ono, grande parceiro profissional do arquiteto , e sócia do Escritório Burle Marx.

O projeto do entorno do Museu de Arte Moderna, outra criação de Reidy entregue aos cuidados de Burle Marx, mostra a preocupação do artista não só com a vegetação, mas com a escolha de outros elementos na composição, como os granitos e os seixos rolados. O MAM, aliás tem uma tela de Burle Marx em seu acervo.

Calçadão de Copacabana

Um dos símbolos da cidade, o calçadão de Copacabana tem o traço de Burle Marx. Muita gente não sabe, mas o desenho ondulado das pedras portuguesas junto à areia é inspirado no piso da Praça do Rossio, em Lisboa, e foi adotado aqui na gestão do prefeito Paulo de Frontin, em 1919.

Nos anos 1970, com o projeto de duplicação da Avenida Atlântica, coube a Burle Marx dar um novo traçado às ondas, além de criar os desenhos do canteiro central e do calçadão junto aos prédios, que o paisagista transformou num lindo mosaico abstrato moderno.

— O desenho de piso artístico da Atlântica é uma obra de arte viva. As pessoas podem interagir com o espaço, pensado para ser apreciado tanto do nível do pedestre, quanto do alto dos prédios — diz Isabela Ono.

Praça Heitor Bastos Tigre

Um busto do diplomata que nomeia a praça no Recreio seria a escultura colocada ali, na altura do número 16.500 da Avenida das Américas. Por sugestão do filho, também Heitor, optou-se pela instalação de uma grande obra de arte. Chamaram Burle Marx.

Com 11 metros de altura (o equivalente a um prédio de três andares), a peça, única escultura do artista em logradouro público, foi feita a quatro mãos com Haruyoshi Ono e teve seu projeto executado pelo italiano Gianni Patuzzi, em 1989. É feita de argamassa armada policromada, tem um colorido vivo e curvas modernas.

Sítio Burle Marx

Localizado em Barra de Guaratiba, o sítio é um grande santuário para quem quer apreciar a obra de Roberto Burle Marx. Entre pinturas, esculturas e cerâmicas, o espaço reúne mais de três mil obras no acervo museológico, fora as 3.500 espécies de plantas, como filodendros, bromélias, cycas, helicônias, maranthas e palmeiras.

O então Sítio Antônio da Bica foi comprado pelo paisagista junto com seu irmão, Guilherme Siegfried, em 1949. Dentro dos seus 405 mil m², há até uma pequena capela do século XVII.

— O Sítio Roberto Burle Marx é um local mágico. Lá, Roberto colecionou uma variedade enorme de espécies vegetais, sendo seu espaço de experimentação e observação botânica, onde acompanhava o desenvolvimento da vegetação e a relação entre os grupamentos vegetais, e depois aplicava este aprendizado nos projetos de paisagismo. O sítio foi sua residência por dez anos e hoje é um ótimo local para conhecer suas obras de arte e coleções particulares — detalha Isabela.

O espaço foi considerado Patrimônio Cultural Brasileiro em 1985 e, em 2000, foi tombado integralmente pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Lá estão parte das espécies descobertas pelo paisagista, como a Heliconia burle-marxii , símbolo do sítio, ou a Merianthera burlemarxii , do Espírito Santo.

A visitação ao sítio acontece de terça a domingo (excetos feriados), às 9h30m e às 13h30m, e precisa ser agendada por telefone (2410-1412) ou e-mail (visitas.srbm@iphan.gov.br). A entrada custa R$ 10.

Casa Roberto Marinho

O jardim com a assinatura de Burle Marx é uma das principais atrações do casarão construído em 1939 no Cosme Velho e que hoje abriga um centro cultural.

— É uma transição da Floresta da Tijuca, é na pontinha da floresta. Ele usa espécies tropicais, mas fazendo uma transição para o espaço residencial. É uma floresta organizada, uma transição natural — diz Lauro Cavalcanti, que é diretor da Casa Roberto Marinho e foi curador da mostra “Roberto Burle Marx 100 anos — A permanência do instável”, que comemorou o centenário de nascimento do artista em 2008, no Paço Imperial.

Até a semana passada, uma tela de Burle Marx estava na mostra “Modernistas 10”, que saiu de cartaz. Mas uma outra tela sua estará numa das novas exposições que serão inauguradas no dia 6 de dezembro. Até a abertura das mostras, a entrada no centro cultural é gratuita. Além do jardim, o espaço (Rua Cosme Velho 1.105) tem uma sala de cinema com sessões gratuitas aos sábados e um café.

Fundação Oswaldo Cruz

Uma pequena pérola do modernismo brasileiro integra o campus da Fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Projetado na década de 1940 pelo arquiteto Jorge Ferreira, o Pavilhão Arthur Neiva tem um painel de azulejos de Burle Marx.

—Ele teve formação nas artes plásticas, foi assistente do Portinari, do Guignard. Isso se reflete na azulejaria, é visível a influência do Portinari — explica Lauro Cavalcanti.

O artista se inspirou no formato do protozoário Trypanosoma cruzi , transmissor da Doença de Chagas, para desenhar o painel de formas geométricas e tons de azul.

Instituto Moreira Salles

Ao longo de sua carreira, Burle Marx trabalhou em inúmeros projetos residenciais. Um exemplo é a casa do banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles, na Gávea, desenhada pelo arquiteto Olavo Redig de Campos, construída em 1951 e que hoje abriga o IMS. O paisagismo de Burle Marx está lá, bem como um painel de azulejos feito pelo mestre que retrata mulheres lavadeiras. Também em tons de azul e branco.

— Ele inovou na maneira se criar jardins, utilizando na composição plantas nativas que eram consideradas menores na época. Na residência do embaixador, por exemplo, ele usa a espécie Calycophyllum spruceanum, o pau-mulato, uma árvore do Norte do país — destaca Isabela Ono.

Outros trabalhos do mestre:
Sede Náutica do Vasco da Gama (Rua General Tássio Fragoso 65, Lagoa). Um belo painel de azulejos feito por Burle Marx decora uma das fachadas do edifício.

Edifício Sede da Petrobras (Av. República do Chile 65). O edifício de arquitetura arrojada ganhou jardins suspensos projetados pelo paisagista nos vãos da fachada.

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo — FAU/UFRJ (Av. Pedro Calmon 550, Fundão). O jardim do entorno da FAU é de Roberto Burle Marx, que também assina um painel externo da faculdade.

Conjunto Habitacional do Pedregulho (Rua Capitão Félix 50). Simbólico pelas linhas sinuosas, o projeto de Affonso Eduardo Reidy em São Cristóvão também tem os jardins assinados por Burle Marx.

Largo da Carioca (Centro). O projeto paisagístico no entorno do edifício do BNDES, do Convento de Santo Antônio e o enorme mosaico de pedras portuguesas que calçam o local são do paisagista.

Palácio Gustavo Capanema (Rua da Imprensa 16). Marco da arquitetura moderna, o prédio tem um jardim suspenso desenhado por Burle Marx. Atualmente está em obras.

Publicado por Patricia Canetti às 4:53 PM


The art world reacts to Brazil’s new far-right president, Jair Bolsonaro by Gabriella Angeleti, The Art Newspaper

The art world reacts to Brazil’s new far-right president, Jair Bolsonaro

Article by Gabriella Angeleti originally published in The Art Newspaper on November 2nd, 2018.

The former army captain's apparent leanings toward authoritarianism and his fundamentalist views have arts professionals feeling wary

Following the election of the far-right congressman and former army veteran Jair Bolsonaro as Brazil’s next president, cultural professionals are starting to weigh in on what this could mean for the country’s arts. Bolsonaro has said that he wants to dissolve or merge various government bodies, including the ministry of culture, and has expressed little support toward rebuilding the devastated National Museum in Rio de Janeiro, telling the Associated Press earlier this year: “It caught fire already. What do you want me to do?”

When the results were announced on Sunday night, thousands of Bolsonaro’s supporters celebrated in the public square in front of the Museu de Arte de São Paulo (Masp), and clashed with his opponents, who chanted “Not him” and called Bolsonaro—who has spoken nostalgically of Brazil’s decades-long military dictatorship—a “fascist”. Demonstrators returned to the São Paulo museum square this week, and protests broke out in other cities including Rio de Janeiro, Porto Alegre and Recife, with left-wing activists vowing to resist the new president, who takes up the post on 1 January. Arts professionals are feeling wary, although few would speak about their concerns on the record, perhaps because of Bolsonaro’s apparent sympathies with authoritarianism, or the fact that government funding supports a significant part of Brazil’s cultural production.

“It’s impossible to know what will happen—the only certainty is that it won’t be the same as before,” says Bernardo Mosquiera, the curator of the experimental arts lab Solar dos Abacaxis (Pineapple House) in Rio de Janeiro. “But most people are apprehensive and attentive, and at the same time terrified and aggressive.” Ahead of the election, Solar dos Abacaxis opened a group show and performance addressing democracy and corruption in Brazil, called Manjar: We Are Muitxs, after a leftist movement that aims to influence government policy in urban centers.

"Bolsonaro's intolerant and non-inclusive discourse stimulates and validates a violent, exclusionary view that does not allow room for dialogue with anything that is different, with the other; that does not consider living with anything they disagree with," says Fernanda Lopes, a curatorial assistant at Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro. She adds that she worries that censorship and conservative attacks against exhibitions, such as a recent queer art show, will only get worse.

"Besides cutting costs to achieve their aggressive revenue goals, the way I see it, this new government will use the dismantling of investments on education and culture as an attack, a way of silencing and starving everyone who publicly diverges from it," says Germano Dushá, an independent curator and co-founder of Fora, a multidisciplinary platform for public arts in São Paulo. "It is not an unknown fact that the great majority of educators, scientists, artists and intellectuals are strongly opposed to Bolsonaro's policies and everything that he represents. From someone who has said in a live video that will swipe all those who oppose him, we can’t expect a clear and powerful agenda for cultural production, that's for sure. Most likely, it will be an austere and tense nightmare."

“We have seen how the cultural infrastructure of Venezuela was decimated by a similar authoritarian, populist and militaristic president,” says Gabriel Perez-Barreiro, the chief curator of the New York- and Caracas-based Colección Patricia Phelps de Cisneros and the curator of the 33rd São Paulo Bienal. Venezuela’s former president Hugo Chávez often railed against the elitism of the arts and ousted the leaders of most of the country’s state-run institutions in a televised purge, leading many artists, curators and private collectors to leave the country. “In particular, Bolsonaro’s expressed views on women, gender orientation, sexual preference and race are very worrying, as is his apparently disregard for freedom of expression,” Perez-Barreiro adds.

Sérgio Sá Leitão, the current culture minister, has publicly supported Bolsonaro, although on Wednesday he issued a statement suggesting that it would make more sense to combine the culture department with those for sports and tourism, rather than folding it into the education ministry, as Brazil’s interim president recently tried to do.

In a pre-election twist, an unlikely feud emerged between Sá Leitão and the former Pink Floyd band member Roger Waters, who criticised Bolsonaro and other hardline political leaders around the world during a series of concerts in Brazil. Sá Leitão accused Waters of illegal electoral campaigning during his performances, for which he received 90m reais ($24m). In an interview with the Brazilian newspaper Folha, Waters called Bolsonaro corrupt and insane, and said that Sá Leitão is in the “wrong profession” and should resign. “For a long time, Sá Leitão has not been a representative of the artistic class but someone we have to deal with,” Mosquiera says, adding that he did not expect the culture minister to be remain as part of Bolsonaro's government.

But the immediate and vocal resistance against Bolsonaro's policies gives some a glimmer of hope. "The museological, curatorial, and arts community is stepping into the biggest challenge of this generation," Dushá says. "Everyone is tired, worried and many are melancholic. But also, there is an energy building towards resistance, and many new ideas, bonds and communions are emerging. It will be a matter of keeping the spirit alive and thinking strategically."

"Institutions need to stay on the side of culture, artists, defending artistic and intellectual production," Lopes says. "We have an important fight ahead."

Publicado por Patricia Canetti às 4:32 PM


outubro 21, 2018

Ai Weiwei: Comunicação pela raiz, revista seLecT

Ai Weiwei: Comunicação pela raiz

Matéria originalmente publicada na revista seLecT em 18 de outubro de 2018.

O artista chinês Ai Weiwei é mundialmente conhecido por seu ativismo pelos direitos humanos e pela liberdade, além do uso inteligente das tecnologias de comunicação e das redes sociais. Há exatamente um ano, em outubro de 2017, quando iniciou um período de sete meses de residências artísticas no Brasil, Weiwei se juntou a protesto contra a censura à arte sob a marquise do Masp. Não deu entrevistas, mas usou sua imagem diante da câmera do celular de manifestantes para dar o seu depoimento: censura nunca mais. Um ano depois, quando a sociedade brasileira sucumbe à onda de ódio e violência e o candidato que lidera as intenções de voto na corrida presidencial advoga pelo fim dos ativismos e da diversidade de ideias, a volta do artista chinês para inaugurar a exposição Ai Weiwei Raiz, na Oca, em São Paulo, é significativa e muito bem-vinda.

A mostra apresenta ao Brasil um artista que estruturou toda sua obra em torno da prática de monitorar o poder e investigar a corrupção policial e política em seu país de origem. Em 2009, devido à apuração da morte de 5.335 crianças no desabamento de escolas durante um terremoto em Sichuan e à denuncia em seu blog da corrupção na construção das “escolas de tofu”, conhecidas assim por sua fragilidade, Ai Weiwei levou uma surra na rua, sofreu dano cerebral e quase morreu. Em 2011, foi preso sem acusação formal e, ao sair, teve o passaporte confiscado por quatro anos. Vivendo desde 2015 em Berlim, com a mulher e o filho, o artista pesquisa hoje a crise migratória mundial. Human Flow (2017), seu filme sobre a busca de refugiados por segurança, abrigo e justiça, abriu a 41ª Mostra de Cinema de São Paulo. “Na Alemanha, esse assunto gerou uma enorme crise social. Vamos lá, a Alemanha é um estado muito poderoso, eles podem facilmente absorver essas pessoas”, diz Weiwei à seLecT. “Mas não se trata só de oferecer ajuda. A imigração beneficia a economia e a cultura alemã. A Alemanha definitivamente precisa ter mais diversidade, assim como os EUA. Eles construíram essa estrutura dura e monstruosa, e mudar isso é quase impossível. Mas a arte tem a liberdade e o direito de questionar e está na posição perfeita para fazer isso”.

A mostra “Ai Weiwei Raiz” traz a São Paulo (e a Belo Horizonte e Brasília, em 2019) uma série de obras consagradas. Entre elas, “Law of Journey” (2017), um bote inflável que carrega refugiados em tamanho maior que o real com coletes salva-vidas. A instalação é toda negra e foi posta por um dia no Lago do Ibirapuera, mas agora, por sua fragilidade, está instalada dentro da Oca. A obra ganhou uma versão em madeira talhada por artesãos de Juazeiro do Norte (CE), que colaboraram com o artista durante sua residência no Sul da Bahia. A experiência brasileira gerou cinco novas séries de trabalhos feitos com madeira, sementes, tecidos, pele de vaca e raízes de pequi-vinagreiro, árvore da Mata Atlântica baiana em risco de extinção.

De um artista engajado na luta contra a injustiça nos países aos quais viaja, talvez pudesse se esperar comentários mais diretamente implicados com as mazelas políticas e sociais brasileiras. Sobre isso, Weiwei responde: “Não gosto de nenhum tipo de envolvimento casual. Qualquer comentário deve ter muitas profundidades. O trabalho que fiz no Brasil relaciona-se com artesãos locais, que são elementos básicos e essenciais de qualquer sociedade. Esse é o posicionamento político que escolhi fazer, e não o comentário à situação política local”, esclarece.

Os trabalhos com artesanato brasileiro se relacionam com sua pesquisa sobre as tradições manuais chinesas que foram proibidas pela Revolução Cultural e ameaçadas de extinção pela soberania da produção industrial do país. Desta série, é apresentada no Brasil a instalação “Sunflower Seeds” (2010), composta por milhões de sementes de girassol de porcelana pintadas à mão por artesãos chineses. Outra conhecida obra que tece um comentário bombástico sobre a destruição da memória e da cultura tradicional é “Dropping a Han Dynasty Urn” (1995), fotoperformance em que o artista quebra uma urna de 2000 anos.

O múltiplo FODA, com título formado pelas as iniciais de alimentos que seduziram o artista em sua estadia em Trancoso, Sul da Bahia – fruta do conde, ostra, dendê e abacaxi – é composto por esculturas em porcelana – criando um elo entre a percepção sensorial e sensual que o artista teve do Brasil com a técnica milenar chinesa. As peças foram elaboradas em uma fábrica de porcelana em São Caetano, na região do ABC paulista, em tiragem de 300 edições, e comercializadas pela galeria ArtEEdições a fim de contribuir para o financiamento da exposição na Oca.

“A palavra-chave desta exposição é raiz”, diz o curador Marcello Dantas. “Há um poema do pai dele, Ai Qing, escrito em 1940, que fala da comunicação entre as árvores através de suas raízes. Ai Weiwei desvendou as raízes perdidas da China e agora ele vem para o Brasil e encontra uma maneira de cavar nossas raízes e fazer a comunicação entre os dois países pelo subsolo de nossas tradições culturais”.

Árvore

Uma Árvore, outra árvore,
Cada uma de pé e eretas
O Vento e o Ar
Dizem de sua distância
Mas Abaixo da capa da terra
Suas Raízes se estendem
E em profundezas que não se vê
As raízes da árvore se entrelaçam

Ai Qing, 1940

A seguir, leia os principais trechos da conversa de Weiwei com a seLecT:

Tivemos contato há um ano, no Masp, em uma manifestação contra a censura nas artes. Eu te pedi uma declaração, você me respondeu com uma selfie. Acho que entendi sua declaração. A fotografia postada é, para você, uma ferramenta política?
Acho que está além da política. O significado do gesto de tirar uma foto e postar em redes sociais é, muitas vezes, maior do que pensamos. Esta não é só mais uma foto. Ao ser postada ela se torna algo diferente. Para mim, esta prática serve como um diário, um esboço. Porque nossas vidas se tornaram tão fragmentadas, viajamos muito, conhecemos muitas pessoas. (…) Nossa memória é muito questionável. Como nos lembramos das coisas? Eu não sei como a memória realmente funciona. Mas se olho para uma foto eu vejo detalhes que eu nunca prestei atenção antes. Na vida, você não presta atenção a determinadas coisas. Então, a fotografia funciona como um paralelo à realidade. A fotografia é sobre a vida. E a vida é muito mais que a política.

Para você, a arte tem a função de denunciar e monitorar o poder de uma forma que outras instituições, como a imprensa, não se comprometem a fazer por questões de censura, por exemplo?
Em alguns eventos, acho que fui jornalista, fui advogado, fui alguém que batalhou por justiça social. Como no caso específico de um menino que matou seis policiais. Na China, matar seis policiais é o fim, este é o caso mais impossível de pedir por sua defesa. Eu li cerca de sessenta artigos sobre este caso. Este foi o caso mais difícil da história nacional. Um menino de 20 anos anda de bicicleta, de férias, pára a bicicleta no semáforo vermelho e é interceptado por policiais que perguntam “como você conseguiu essa bicicleta?”. Ele diz que alugou, eles pedem para ver os comprovantes, ele diz que não tem os comprovantes com ele, então levam-no para a estação e ele é espancado em um quarto escuro. Depois, quando o menino pede retratação, defendendo os seus direitos, a polícia negou que o tivesse espancado, alegando falta de provas. Um ano depois, o menino preparou uma sacola com uma faca, entrou na sede no prédio da polícia e matou os seis policiais. E, claro, na China, se você matar alguém, terá sentença de morte. Eu desenvolvi um forte argumento quando este caso se desenvolveu, porque todo o procedimento foi totalmente errado. Ele pode depor, não teve direito a testemunhas e foi sentenciado como assassino. Toda a mídia começou a tratá-lo como louco ou mentalmente doente. Mas se ele estivesse mentalmente doente, ele não poderia ser morto, certo? Eu fiz um filme sobre isso. Escrevi em meus blogs. Apenas porque eu e um único advogado escrevemos sobre isso, o caso então recebeu muita atenção e tornou-se o caso mais falado de 2008, durante as Olimpíadas.

A arte pode substituir o jornalismo?
Eu não sei se a arte pode substituir o jornalismo, mas certamente não são tantos os artistas que estão fazendo isso. Eu não vejo as pessoas fazendo isso. Eu fiz por causa da minha personalidade: eu gosto de discutir, argumentar, gosto de encontrar detalhes da vida que criam fortes argumentos, e isso não apenas a respeito de uma pessoa, mas a respeito de sociedades onde falta esse tipo de argumento. O meu caso é bastante singular, porque se você é um profissional da notícia, comprometido com esse programa, você tem que processar as notícias rapidamente, e publicá-las antes de qualquer outra pessoa. Daí você se comprometerá com outra notícia. Você nunca irá tão fundo. Nenhum editorial lhe daria espaço suficiente para desenvolver o assunto. Mas, no meu caso, eu poderia ir até o canto mais escuro que eles estiveram, o hotel onde ele ficou, onde ele comprou sua faca, como era a mãe dele, como o pai falava dele, todos esses detalhes. Ninguém iria atrás desses detalhes para dar dignidade a esse menino.

Como as peças feitas no Brasil abordam problemas que você viu e experimentou aqui?
Eu não diria que fiz comentários sobre o momento político do Brasil. Não gosto de nenhum tipo de envolvimento casual. Qualquer comentário deve ter muitas profundidades. O trabalho que fiz no Brasil relaciona-se com artesãos locais, que são elementos básicos e essenciais de qualquer sociedade. Esse é o posicionamento político que escolhi fazer, e não um comentário à situação política local.

Como foi sua relação com eles para realizar as obras aqui expostas?
Em uma escala maior, foi como jogar uma pedra na água tranquila. A arte é basicamente jogar uma pedra em uma superfície de água lisa. Dei a eles um novo elemento relacionado à minha prática e desafiei-os para ver o que era possível fazer. Eles se saíram muito bem, foi uma grande surpresa.

O múltiplo FODA induz a uma relação sensual e sensorial com a cultura brasileira… me conte sobre isso.
Sim, acho que sim. Nessa série eu e Marcello (Dantas) queríamos misturar algumas coisas que tocam a sensibilidade da cultura aqui e é claro que chegamos em frutas e alimentos… e acho que a peça é muito divertida e lúdica. No começo, buscamos fabricantes que estivessem dispostos a trabalhar com alguém como eu, cheio de ideias. Isso se tornou para eles um desafio. A porcelana é a mais antiga linguagem humana, criada desde que surgiu o fogo… mas hoje seu produto é tão limitado e turístico. Pensei que seria muito bom trabalhar com esses produtores locais para desafiar isso. E eles fizeram isso perfeitamente bem. O resultado nunca seria o mesmo na China. Aqui a forma e a linguagem ficaram perfeitas. Esse trabalho foi um exemplo muito bem-sucedido de respeito à linguagem local e ao mesmo tempo de desafiá-la, procurando levá-la a outro nível. Eu acho que é como a luz de uma vela. Se apenas uma vela é acesa, a sala certamente ainda fica escura. É preciso acender muitas outras velas para a iluminação… e isso não é uma conquista automática.

Leia aqui portfólio de Ai Weiwei, produzido para a edição #35 da seLecT.

Publicado por Patricia Canetti às 10:15 AM


outubro 5, 2018

Bienal de SP sofre com as escolhas convencionais de artistas coautores por Tadeu Chiarelli, Folha de S. Paulo

Bienal de SP sofre com as escolhas convencionais de artistas coautores

Crítica de Tadeu Chiarelli originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 11 de setembro de 2018.

Mostra perde a chance de estabelecer diálogos entre eles, mas tem obras de nomes raros por aqui

Antes da abertura da 33ª Bienal de São Paulo, comentava-se que seu curador, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro, instalara ali o neoliberalismo —em vez de assumir a responsabilidade pela proposta e pela escolha dos artistas, preferiu transferir parte de sua responsabilidade para sete artistas, convidando-os a dividir com ele o encargo.

Não penso que tal opção tenha lhe ocorrido para atenuar sua tarefa de curador. Creio em suas palavras, quando disse querer romper com o autoritarismo inerente a seu cargo.

Discutível em sua suposta motivação democrática, o fato é que a proposta abre um bom precedente para grandes mostras. Pôr sete artistas como coautores parece um sopro de rejuvenescimento nessa estrutura. Dividir as rédeas com artistas é apontar para o fato de que esses profissionais, menos acostumados às vicissitudes do cargo de curador, podem trazer algo novo.

Isso teria acontecido se não fosse um “acidente de percurso”. Visitando a mostra fica evidente que a maioria dos artistas convidados parece ter se despido da condição de artista comprometido com a disrupção para assumir o que de mais protocolar pode haver numa ação de curadoria.

De início se perdeu a oportunidade de tentar uma conexão entre os sete artistas convidados. Como a conexão não ocorreu, o resultado é uma edição com mostras independentes, sem pontos de contato, o que é para se lastimar.

Felizmente, essa característica não impede que o público encontre obras de artistas de interesse e que participam da mostra porque foram pinçados pelos sete profissionais convidados por Pérez-Barreiro (ele também chamou 12 artistas para mostras individuais dentro desta edição).

Vejamos o caso da exposição concebida pelo espanhol Antonio Ballester Moreno. Só por alguns dos artistas por ele apresentados —Alberto Sanchez, Benjamín Palencia e Friedrich Fröbel— já valeria uma visita à Bienal, pois dificilmente seriam vistos no Brasil em outra situação.

No entanto, a relação entre eles é mostrada a partir de estratégias obscuras para o grande público que, infelizmente, demonstrou (no que pude presenciar) dificuldades para alcançar os alinhavos sutis demais do curador.

A presença de artistas que dificilmente seriam mostrados no Brasil também é notada na mostra da sueca Mamma Andersson, responsável por apresentar trabalhos que também valem uma visita, como os de Carl F. Hill, Marolav Tchý e Bruno Knutman, todos formando a genealogia da obra da própria Andersson.

Na mostra, no entanto, a expografia realizada por justaposição impede qualquer ousadia que a retire do previsível.

A preocupação com a própria genealogia também é vislumbrada na exposição do uruguaio Alejandro Cesarco, por meio das obras de artistas como Peter Dreher, Louise Lawler (com obras excepcionais) e Sturtevant.

Mas Cesarco não deixa de apresentar artistas mais próximos de sua geração ou ainda mais novos, como Henrik Olesen e Sara Cwynar —todos tratados dentro das mesmas especificidades de uma curadoria convencional.

Tal convencionalismo parece ganhar uma dimensão superlativa na mostra do brasileiro Waltercio Caldas: paredes brancas envolvem seus próprios trabalhos em meio a obras de outros artistas, todos dentro de uma ordem e de uma sofisticação expográfica supostamente exemplares.

No entanto, alguns ruídos parecem funcionar como aparelhos de disrupção de toda aquela lógica. Os dois iniciais são da ordem da montagem: primeiro, certos equipamentos do edifício (de segurança ou manutenção) que, por terem sido isolados de forma categórica, paradoxalmente parecem integrar a mostra!

Por sua vez, o deslocamento das etiquetas de identificação das obras, agrupadas em cantos das salas, obriga os visitantes a caminharem de um lado para o outro, para esclarecerem dados de autoria, e intensifica a consciência no público de estar ali experimentando uma vivência repleta de arbitrariedades há muito naturalizadas em espaços que, absolutamente, não são neutros.

Por último, algumas obras apresentadas também rompem com o que de predeterminado existiria naquele universo. Refiro-me às obras de Gego, Tunga e Victor Hugo, ao vídeo de Bruce Nauman e a alguns dos trabalhos do próprio Caldas.

Além dele, a única que não se despiu de sua condição de artista para se assumir como mais uma curadora tradicional foi Sofia Borges.

Radical, a artista brasileira construiu um ambiente labiríntico (fiel metáfora de sua poética) em que as divisórias criam espaços insólitos onde seus trabalhos são apresentados em diálogo com os dos seus convidados.

De fato, Borges fez mais do que simplesmente mostrar sua produção interagindo com as de Leda Catunda, Sarah Lucas, Antonio Malta Campos e Jennifer Tee, entre outros.

Ela os vampirizou (no melhor sentido que possamos dar a esse verbo), devolvendo-os ainda mais potentes. Todos ali saíram maiores do que já são e a curadoria de Borges mostrou-se, de fato, a melhor obra desta edição da Bienal.

Voltando a Pérez-Barreiro, agora como responsável por 12 exposições individuais, há de se lamentar a atitude distanciada e mesmo burocrática assumida por ele em relação aos artistas que escolheu. São 12 mostras em sua maioria fechadas em si mesmas, espalhadas por entre espaços vazios, sem articulação. Uma lástima.

Para terminar, afirmo que sempre vi de maneira positiva Pérez-Barreiro propondo dividir a curadoria com artistas e espero que essa sua iniciativa possa ser retomada nas próximas edições, com as correções necessárias.

Dentro delas, recomendo que seja sugerido aos artistas que extrapolem seus limites territoriais. Nesta edição, vários tenderam a concentrar suas exposições em artistas do seu entorno. Se essa característica se enraizar, correremos o risco de voltarmos a bienais com delegações nacionais. O que não seria desejável.

33ª Bienal de São Paulo
Quando Ter. a dom. e feriados: 9h às 19h. Qui. e sáb.: até às 22h. Até 9/12
Onde Pavilhão da Bienal, av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, parque Ibirapuera, portão 3
Preço Grátis

Publicado por Patricia Canetti às 6:59 PM