Página inicial

Como atiçar a brasa

 


outubro 2019
Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
    1 2 3 4 5
6 7 8 9 10 11 12
13 14 15 16 17 18 19
20 21 22 23 24 25 26
27 28 29 30 31    
Pesquise em
Como atiçar a brasa:

Arquivos:
outubro 2019
setembro 2019
agosto 2019
julho 2019
junho 2019
maio 2019
abril 2019
março 2019
fevereiro 2019
janeiro 2019
dezembro 2018
novembro 2018
outubro 2018
setembro 2018
agosto 2018
julho 2018
junho 2018
maio 2018
abril 2018
março 2018
fevereiro 2018
janeiro 2018
dezembro 2017
novembro 2017
outubro 2017
setembro 2017
agosto 2017
julho 2017
junho 2017
maio 2017
abril 2017
março 2017
fevereiro 2017
janeiro 2017
dezembro 2016
novembro 2016
outubro 2016
setembro 2016
agosto 2016
julho 2016
junho 2016
maio 2016
abril 2016
março 2016
fevereiro 2016
janeiro 2016
novembro 2015
outubro 2015
setembro 2015
agosto 2015
julho 2015
junho 2015
maio 2015
abril 2015
março 2015
fevereiro 2015
dezembro 2014
novembro 2014
outubro 2014
setembro 2014
agosto 2014
julho 2014
junho 2014
maio 2014
abril 2014
março 2014
fevereiro 2014
janeiro 2014
dezembro 2013
novembro 2013
outubro 2013
setembro 2013
agosto 2013
julho 2013
junho 2013
maio 2013
abril 2013
março 2013
fevereiro 2013
janeiro 2013
dezembro 2012
novembro 2012
outubro 2012
setembro 2012
agosto 2012
julho 2012
junho 2012
maio 2012
abril 2012
março 2012
fevereiro 2012
janeiro 2012
dezembro 2011
novembro 2011
outubro 2011
setembro 2011
agosto 2011
julho 2011
junho 2011
maio 2011
abril 2011
março 2011
fevereiro 2011
janeiro 2011
dezembro 2010
novembro 2010
outubro 2010
setembro 2010
agosto 2010
julho 2010
junho 2010
maio 2010
abril 2010
março 2010
fevereiro 2010
janeiro 2010
dezembro 2009
novembro 2009
outubro 2009
setembro 2009
agosto 2009
julho 2009
junho 2009
maio 2009
abril 2009
março 2009
fevereiro 2009
janeiro 2009
dezembro 2008
novembro 2008
outubro 2008
setembro 2008
agosto 2008
julho 2008
junho 2008
maio 2008
abril 2008
março 2008
fevereiro 2008
janeiro 2008
dezembro 2007
novembro 2007
outubro 2007
setembro 2007
agosto 2007
julho 2007
junho 2007
maio 2007
abril 2007
março 2007
fevereiro 2007
janeiro 2007
dezembro 2006
novembro 2006
outubro 2006
setembro 2006
agosto 2006
julho 2006
junho 2006
maio 2006
abril 2006
março 2006
fevereiro 2006
janeiro 2006
dezembro 2005
novembro 2005
outubro 2005
setembro 2005
julho 2005
junho 2005
maio 2005
abril 2005
fevereiro 2005
janeiro 2005
dezembro 2004
novembro 2004
outubro 2004
setembro 2004
agosto 2004
julho 2004
junho 2004
maio 2004
As últimas:
 

outubro 6, 2019

Cildo Meireles: “A arte é prostituta. Ela está onde o dinheiro está” por Joana Oliveira, El País

Cildo Meireles: “A arte é prostituta. Ela está onde o dinheiro está”

Matéria de Joana Oliveira originalmente publicada no jornal El País em 25 de setembro de 2019.

Mostra convida a um passeio poético e sinestésico por 150 obras do artista carioca, a maior no país desde 2000. 'Entrevendo' abre ao público nesta quinta no Sesc Pompeia

Cildo Meireles (Rio de Janeiro, 1948) descobriu a arte quando, aos 12 anos, ganhou do pai um álbum com a obra do pintor espanhol Francisco Goya. "De uma certa maneira, ele foi um mestre para mim, porque eu ficava desenhando, copiando seus traços", conta ao EL PAÍS, em uma entrevista no Sesc Pompeia, em São Paulo, espaço que exibe, a partir desta quinta-feira, 150 obras do artista, na exposição Entrevendo. Seis décadas depois daquele presente, ele converteu-se no maior expoente da arte contemporânea brasileira no mundo, ao ponto de que o título de um livro sobre seu trabalho dispense sobrenome —como em Cildo: estudos, espaços, tempo, publicano no ano passado pela editora Ubu.

No Brasil, no entanto, há pelo menos duas gerações que não conhecem sua obra, já que a última grande exposição do artista foi em 2000, nos Museus de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e do Rio de Janeiro, com trabalhos expostos no New Museum, de Nova York. Foi precisamente pensando em aproximar Cildo desse público que os curadores Julia Rebouças e Diego Matos selecionaram as obras de mais de 50 anos de carreira que ocuparão, até fevereiro de 2020, mais de três mil metros quadrados do centro cultural paulistano.

"Não queríamos fazer uma retrospectiva. Primeiro, porque não teríamos condições materiais e físicas para isso e, depois, porque ele é um artista em plena atividade", explica Matos. O próprio Cildo conta que gosta de pensar em uma espécie de antologia poética e, centrada na percepção de sentido (que passa, às vezes, pelo subconsciente), Entrevendo convida o público a um passeio poético por obras sinestésicas que aguçam sentidos como faro e senso de localização.

Já de entrada, o visitante é recepcionado por uma espécie de oca construída com cédulas de países latino-americanos, construída sobre ossos (de boi) e rodeada por uma grande cerca de velas. Dentro da estrutura, soa uma motosserra. Essa é Olvido, a interpretação de Cildo do processo de colonização no continente. Ao lado, está a obra que dá nome à exposição e que convida o público a caminhar por uma instalação cilíndrica de madeira com dois gelos na boca —um de água salgada, o outro, de água doce— enquanto um grande ventilador sopra calor em sua direção.

Outros destaques são algumas obras inéditas no país, como Amerikkka (1991/2013), que faz nascer um continente a partir de aproximadamente 17 mil ovos de madeira e 33 mil balas de armas de fogo, e Eureka/Blindhotland (1970-2018), montada por primeira vez em sua totalidade. Esta última, composta por três instalações de esferas do mesmo tamanho e de diferentes pesos que enganam os olhos —o conceito é acionar outros sentidos além da visão, para perceber o entorno— contará com uma inserção em um jornal (não se sabe bem o quê, nem quando, nem onde).

Ideias assim são intrínsecas ao trabalho de Cildo, que, entre 1970 e 1975, produziu uma série de trabalhos que imprimiam frases consideradas subversivas em cédulas de dinheiro e garrafas de Coca-Cola. A arte do cotidiano, e não do metafísico, é sua essência. "Quando fiz as primeiras inserções, passei um tempo num certo impasse, porque não queria fazer daquilo um estilo, essa coisa de que o mercado tanto gosta, de converter sua obra em uma embalagem", conta. "Depois desse período de crise rimbaudiana, comecei a pensar cada vez mais em peças imersivas, que fossem feitas para uma pessoa, pelo tempo que ela quisesse. O espaço aqui oferece isso, não é tão volátil. Você pode chegar, entrar, ficar quanto quiser", acrescenta.

Arte e crítica social

Cildo Meireles detesta conversar. Diz que só gosta de falar "abobrinhas, e de futebol, sempre". Com uma voz quase inaudível e tom pausado, aceita, no entanto, desvelar um pouco de seu método de trabalho. Ou a falta dele. "Eu gosto de usar a ideia de relâmpago: passa alguma coisa na tua cabeça, e o propósito pode estar na política, no cinema, em alguma coisa que você não sabe precisar que forma tem, que cor, que tamanho. E, aos poucos, você vai se aproximando até materializar isso. Meu método de trabalho sempre foi esse. De uma certa maneira, quase que independe de uma realidade imediata. Eu continuo tomando notas. Às vezes, passo anos, décadas, fazendo essas anotações", conta.

Como exemplo, cita a que seja, quiçá, a obra mais conhecida do público brasileiro, Desvio para o Vermelho, exposta na galeria que leva seu nome em Inhotim. "A primeira anotação dessa obra é de 1967. Naquele momento, eu estava mais interessado nos espaços virtuais, nas maquetes... Mas só realizei ela em 1984, no MAM do Rio", lembra. "Tem outros trabalhos que são de 1969 e que só montei pela primeira vez em 2004, 35 anos depois. Eu gosto, inclusive, de deixar maturar, até porque pode ser que, nesse meio tempo, algum outro artista faça e me poupe", sorri.

Cildo referencia-se no conceito de arte cunhado pelo artista plástico estadounidense Carl André. "Ele dizia que 'o homem sobe a montanha porque ela está lá. E o artista faz a obra de arte porque ela não está lá'. A arte é uma inutilidade, em princípio, mas é indispensável", afirma.

Perguntado a que atribui a recente valorização da arte brasileira no mercado internacional, ele é categórico: "A arte é prostituta. Ela está onde o dinheiro está". Mas matiza: "No final dos anos 1980, começou-se a encarar a produção periférica. Houve o momento da arte da União Soviética, da arte japonesa, e, no final dessa década, descobriram a arte brasileira contemporânea. Hoje, é inimaginável uma grande exposição de arte contemporânea em qualquer lugar do mundo sem um artista brasileiro".

O artista rebate a afirmação de que sua arte é essencialmente crítica social. No ano passado, no entanto, ele atualizou uma das suas intervenções mais famosas —a das cédulas de dinheiro— para carimbar nelas o rosto de Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro no dia 14 de março de 2018. Pergunto-lhe se, de haver começado alguns meses mais tarde, o público também veria em Entrevendo cédulas com o nome ou o rosto de Ágatha Félix, de 12 anos, também assassinada capital carioca, com um tiro de fuzil, na última sexta-feira. "O problema é que o Brasil sempre se supera. Infelizmente, já deve estar acontecendo outra coisa tão terrível quanto isso".

Entrevendo, com 150 obras de Cildo Meireles. Visitação gratuita no Sesc Pompeia, de 26 de setembro a 2 de fevereiro de 2020.

Publicado por Patricia Canetti às 12:18 PM


Caixa Econômica cria sistema de censura prévia a projetos de seus centros culturais por Gustavo Fioratti, Folha de S. Paulo

Caixa Econômica cria sistema de censura prévia a projetos de seus centros culturais

Matéria de Gustavo Fioratti originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 4 de outubro de 2019.

Segundo funcionários, equipes precisam informar 'possíveis pontos polêmicos' e ações de artistas nas redes; banco diz não haver restrição a temas

A Caixa Econômica Federal criou um sistema de censura prévia a projetos culturais realizados em seus espaços em todo o país. Novas regras implementadas neste ano exigem que detalhes do posicionamento político dos artistas, o comportamento deles nas redes sociais e outros pontos polêmicos sobre as obras constem de relatórios internos avaliados pela estatal antes que seja dado o aval para que peças de teatro, ciclos de debates e exposições já aprovados em seus editais entrem em cartaz.

Funcionários da Caixa Cultural de diferentes estados relataram à Folha que essas novas etapas no processo de seleção de projetos patrocinados pelo banco permitem uma perseguição aberta a determinadas obras e autores. Os relatórios já eram uma prática de anos anteriores, mas agora ostentam os tópicos “possíveis pontos de polêmica de imagem para a Caixa” e histórico do artista e do produtor "nas redes sociais e na internet". Procurada, a Caixa diz não haver restrições a temas.

O documento a que a Folha teve acesso mostra que no campo sobre polêmicas devem ser levantados o que está descrito da seguinte forma: “possíveis riscos de atuação contra as regras dos espaços culturais, manifestações contra a Caixa e contra governo e quaisquer outros pontos que podem impactar”. 

Na ficha a ser preenchida há ainda campos chamados “histórico do artista nas redes sociais e na internet e participação em outros projetos” e "histórico do produtor nas redes sociais e na internet". Os tópicos não existiam em anos anteriores, ainda segundo funcionários da empresa.

Os relatórios são analisados pela superintendência da empresa em Brasília e pela Secretaria de Comunicação (Secom) do Governo Federal, ainda segundo os funcionários. Eles devem conter sinopses sobre os projetos culturais propostos pelos artistas, além de históricos dos proponentes, custos do projeto e justificativas para a seleção.

Em conversas com os coordenadores das unidades da Caixa nos diversos estados, alguns funcionários entenderam que temas que desagradam Bolsonaro, como questões de gênero, sexualidade e sobre o período do regime militar, deveriam ser informadas.

Após ser elaborado, o relatório seguiria então para a superintendência da Caixa em Brasília, que poderia barrar ou aprovar o projeto, tendo como base este conteúdo, além de documentação e pesquisas de históricos dos artistas. A Secom e o departamento jurídico também recebem relatórios. Existe determinação para que nenhum projeto seja contratado sem tais avais.

Os funcionário ouvidos pela reportagem relatam ainda que, a partir deste ano, aqueles que são responsáveis por analisar os projetos recebidos por meio dos editais devem fazer um pente-fino do que os proponentes postaram em suas redes sociais. Eles entendem que deverão ser relatados, por exemplo, posicionamentos políticos e partidários e críticas ao governo. 

Também há, de forma mais explicita, restrições da superintendência da Caixa a imagens ou cenas de nudez. O que esses funcionários afirmam é que as mudanças criaram um ambiente de tensão em diferentes graus entre as equipes nos estados. Em algumas delas, dizem eles, foi dito explicitamente que pautas LGBT e sobre a ditadura militar devem ser evitadas.

A autocensura se tornou o risco mais iminente neste processo, ainda sob a avaliação dos funcionários. Eles temem retaliações e demissões e estão incomodados porque entendem que estão participando de um sistema de censura.

Esse é o contexto em que se inserem a suspensão de ao menos três espetáculos teatrais —”Abrazo”, “Gritos” e “Lembro Todo Dia de Você”, e também uma série de palestras e uma mostra de cinema.

Em comum, os eventos cancelados trazem questões e imagens sobre sexualidade ou sobre democracias e sistemas autoritários.

O infantojuvenil “Abrazo”, por exemplo, tem personagens que vivem em um regime em que não podem falar. A Caixa alegou que o cancelamento ocorreu por quebra contratual por parte dos artistas, que teriam prejudicado a imagem da estatal durante um bate-papo após a estreia em setembro.

Os artistas dizem que não ficou claro o que foi dito e que teria incomodado gestores da empresa. Questionada pela Folha, a assessoria de imprensa da Caixa não informou qual foi o conteúdo que incomodou a empresa.

Sobre os cancelamentos da série de palestras Aventura do Pensamento, foram apontadas mudanças em títulos das palestras como justificativa. Sobre “Lembro Todo Dia de Você”, a Caixa diz que o espaço que seria dedicado às apresentações da peça em outubro devem passar por reforma. A assessoria de imprensa do banco afirma que a peça "Gritos", que tem como um dos personagens uma travesti, não estava prevista em sua programação.

Os criadores da peça dizem que "Gritos" fazia parte da mostra de repertório selecionada para a ocupação de um teatro em Brasília, e que a Caixa fez questionamentos apenas sobre essa peça. Não houve o mesmo cuidado com "Aux Pieds de la Lettre", que fazia parte do mesmo programa. 

Inicialmente, segundo José Henrique de Paula, diretor da peça “Lembro Todo Dia de Você”, não haviam sido oferecidas novas datas para que o projeto pudesse ser apresentado, embora os proponentes tenham chegado a última etapa de entrega de documentações. Após publicação pela Folha de matéria sobre a série de cancelamentos, o diretor recebeu um telefonema e foi informado que a Caixa tinha interesse em retomar a agenda.

Artistas que participaram de processos de seleção de editais da empresa e funcionários da Caixa também dizem que neste ano, por determinação da Secretaria de Comunicação, estão sendo exigidos detalhamentos mais volumosos sobre os projetos aprovados. Os questionamentos sobre os conteúdos, incluindo cenas, textos e descrições de imagens, passaram a ser mais frequentes.

Questionada sobre o sistema de seleção de projetos, a assessoria de imprensa da Caixa respondeu que “o processo do chamado Programa de Ocupação dos Espaços da Caixa Cultural envolveu etapas de avaliação por equipe técnica do banco e por consultores externos com reconhecimento no meio cultural”.

Segundo a nota, “foram considerados aspectos técnicos quanto à qualidade dos projetos e contrapartidas oferecidas ao patrocínio, sem restrição a temas”.

A empresa diz ainda que “um dos critérios de seleção previstos no edital dizia respeito à valorização da diversidade de expressões culturais e de propostas que contemplem transversalidade de linguagens, mídias e suportes”.

Esclarece também que os projetos que integram o Programa de Ocupação do Caixa Cultural foram divulgados em 25 de julho, “não havendo no momento novas seleções”.

“A Caixa informa ainda que na etapa de pré-contratação, há emissão de posicionamentos sob as perspectivas de marketing, negócios e demais cláusulas contratuais, com participação de representante das áreas, com o devido registro em ata assinada pelos integrantes”, diz o texto.

Publicado por Patricia Canetti às 12:08 PM


Estatais cancelam programas culturais e despertam novas suspeitas de censura por Joelmir Tavares e Gustavo Fioratti, Folha de S. Paulo

Estatais cancelam programas culturais e despertam novas suspeitas de censura

Matéria de Joelmir Tavares e Gustavo Fioratti originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 1 de outubro de 2019.

Pelo menos seis projetos com assuntos que vão de feminismo a ditadura foram suspensos nos últimos dois meses

Nos últimos dois meses, chegam a seis os cancelamentos de produções culturais por estatais e pelo Ministério da Cidadania, o que levanta suspeitas de censura entre membros da classe artística e procuradores de Justiça. 

Nesta semana, três eventos que já haviam sido programados pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil foram suspensos. Em comum, abordam assuntos que têm desagradado a simpatizantes de Jair Bolsonaro, incluindo temáticas LGBT e críticas ao período militar. 

A unidade da Caixa Cultural no Rio de Janeiro cancelou o patrocínio a dois projetos que já tinham sido aprovados em edital. Um deles foi a mostra da cineasta Dorothy Arzner, que discutiria temas feministas e homossexualidade.

Às vésperas da abertura, no último sábado (28), um ciclo de palestras sobre democracia, história, ciência e ambiente também foi suspenso. 
 
Produtores do evento Aventuras do Pensamento receberam na quinta (26) um email de cancelamento. A justificativa foi a de que os organizadores mudaram títulos de palestras sem aviso prévio antes de assinarem o contrato. Procurada, a assessoria da Caixa diz que as razões para a decisão foram unicamente técnicas.

A série de conferências, voltada a estudantes de dez a 15 anos, chegaria à sua terceira edição e seria aberta pelo professor de filosofia e presidente do Cebrap, Marcos Nobre, numa aula sobre democracia.

Entre os títulos que foram modificados está o da palestra da pesquisadora Tatiana Roque —alterado de “História da Matemática” para “Por que Acreditar na Ciência?”.

Os organizadores dizem que a postura crítica dos palestrantes a agendas de Bolsonaro teria sido a real razão para o veto ao projeto. Roque, por exemplo, é filiada ao PSOL.

A programação, na qual a Caixa investiria R$ 90 mil, incluía ainda falas da escritora Conceição Evaristo, do cientista Mario Novello, do ensaísta José Miguel Wisnik, da professora Suely Rolnik e do líder indígena Ailton Krenak.

Os curadores evitam falar em censura, mas dizem estranhar a decisão da instituição e desconfiar da versão oficial.

Eles relatam ter ouvido informalmente que projetos financiados pelo banco público estão passando por crivo da Secom, a Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, antes que sejam liberados.

“Iniciamos a produção do ciclo e assinaríamos o contrato duas semanas atrás. A Caixa começou a pedir documentos, prontamente encaminhados”, diz Hermano Callou, um dos idealizadores do projeto.

 “De fato, houve mudança de títulos das palestras, mas isso é normal e nunca foi considerado impeditivo [para realização]. Eles sempre estiveram cientes dos nomes dos palestrantes e de seus currículos.”

 Segundo Callou, que é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os organizadores se dispuseram a resgatar os títulos anteriores, mas a Caixa não concordou.

No email em que informou a desistência de apoiar a iniciativa, a instituição argumentou que o edital dá a ela o direito de anular o patrocínio caso haja alteração do projeto ou impossibilidade técnica.

Para Marcos Nobre, o caso desperta preocupação. “Um ato dessa natureza é grave porque não está isolado, faz parte de um contexto de graves indícios da restrição à liberdade de pensamento no Brasil.”

“Acho que pode ter havido restrição política da Caixa, mas não que seja uma restrição partidária ou ideológica à esquerda”, diz Tatiana Roque. “É mais um veto ao papel do intelectual e do cientista, que está sendo visto como ameaça aos poderes instituídos.”

Em nota, a Caixa informa que o projeto original “foi alterado pelo proponente, demandando nova etapa de análise pela patrocinadora”. “Nos termos da sistemática de seleção de projetos vigentes, aplicável a todos os concorrentes, não havia tempo hábil para nova avaliação prévia para subsidiar a contratação.”

Ainda segundo o banco, o projeto poderá ser reapresentado em outra ocasião.

Para Marcella Jacques, curadora do painel que celebraria a diretora lésbica Dorothy Arzner, o cancelamento da mostra se soma à campanha contra “temas que têm sido combatidos pelo governo atual”.

“A gente acredita que é um ato de censura pelo tema”, afirma a produtora, que preparava o evento para novembro.

Ela foi notificada sobre o recuo em um email. “Questionamos a diretora de marketing, e ela negou que fosse por causa do conteúdo do evento. Alegou que seriam problemas de estrutura, porque o 
prédio está em reforma”, diz.

Depois de várias cobranças, a Caixa respondeu aos organizadores do evento que “revê sua pauta cultural a todo momento” e que “a garantia da execução de um projeto só se estabelece a partir da assinatura do contrato entre a instituição e a proponente”.

Afirmou que a decisão, no caso da mostra, se deu por “restrições logísticas e operacionais”. O patrocínio previsto era de R$ 120 mil. Sem a liberação do valor, a Ventura Produções, da qual Jacques é sócia, terá de arcar com os custos até o cancelamento.

A assessoria de imprensa da instituição não se pronunciou sobre o cancelamento. Informou que não teve tempo hábil para levantar as informações —o pedido foi enviado na tarde de segunda (30)
e ficou sem resposta até o início da noite de terça (1º).

Em nota à Folha, a Secom diz que “não veta ou controla conteúdos de apresentações culturais”. Segundo a pasta, uma instrução normativa estabelece que “propostas de patrocínio com valores iguais ou superiores a R$ 20 mil são enviadas para consulta da Secom para conformidade processual e documental”.

Ainda de acordo com a secretaria, “o critério de avaliação do conteúdo é de inteira responsabilidade do órgão proponente”, no caso, a Caixa.

No Rio de Janeiro, nesta semana, também houve o cancelamento de sessões de “Caranguejo Overdrive”, 
peça já programada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, segundo os produtores. 

As sessões aconteceriam nos próximos dias 9 e 10, em uma programação comemorativa dos 30 anos do CCBB, e chegaram a ser divulgadas na internet. Segundo produtores do espetáculo, o cancelamento não foi justificado. 

Eles afirmam ainda que o texto do espetáculo, que já tem uma carreira de cinco anos de apresentações em diversos estados, foi sendo modificado de acordo com o contexto político e passou a abordar questões relacionadas à Amazônia e às milícias. 

"Infelizmente situações como essa vem se tornando  cada vez mais recorrentes nas instituições de cultura do Brasil e, mais especificamente no contexto de celebração de uma instituição do porte do CCBB, só poderíamos manifestar o nosso pesar", diz nota divulgada pelos criadores da peça.

Procurado, o CCBB informou que está em contato com a produção do evento comemorativo para verificar a necessidade de ajuste na programação da qual a peça faz parte.

Em setembro, uma peça que tem entre as personagens uma travesti também enfrentou problemas na Caixa de Brasília. A Cia. Dos à Deux deixou de apresentar “Gritos” depois que a instituição pediu 
detalhamentos sobre a peça.

Na configuração aprovada originalmente, a companhia encenaria duas produções. A Caixa, contudo, só cobrou informações extras sobre a história que trata de gênero e que contém cenas de nudez. 

A Folha pediu à Caixa uma lista de todos os projetos de seu edital cultural mais recente que tiveram o patrocínio anulado e as justificativas. Indagou também se é comum haver cancelamentos de atividades aprovadas em seleções públicas da instituição. Ainda não houve resposta.

Publicado por Patricia Canetti às 12:01 PM


setembro 15, 2019

Pela primeira vez, negros são maioria em principal prêmio de artes plásticas do país por Clara Balbi, Folha de S. Paulo

Pela primeira vez, negros são maioria em principal prêmio de artes plásticas do país

Matéria de Clara Balbi originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 12 de outubro de 2019.

Desde a criação do Marcantonio Vilaça, há 15 anos, apenas dois artistas negros haviam vencido a premiação

Mais tradicional premiação de artes plásticas do Brasil, o prêmio Marcantonio Vilaça anunciou, na noite desta quinta (12), os vencedores de sua sétima edição. São eles Aline Motta​, Dalton Paula, Dora Longo Bahia, Ismael Monticelli e Rodrigo Bueno.

Como em edições anteriores, a lista de ganhadores equilibra nomes fortes no circuito, aqui Paula e Longo Bahia, e emergentes, caso de Motta, Monticelli e Bueno.

Esta é a primeira vez, no entanto, que três dos cinco vencedores da edição —Paula, Motta e Bueno— são negros. Desde a criação do prêmio, há 15 anos, apenas dois artistas negros haviam sido escolhidos pelo júri da premiação, Jaime Lauriano e Lucia Laguna, respectivamente em 2017 e 2006.

"Estamos de certo modo recuperando um espaço que foi silenciado", diz Marcus Lontra, membro da banca avaliadora ao lado dos curadores Daniela Bousso, Denise Mattar, Moacir dos Anjos e Paulo Herkenhoff, e do diretor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Fabio Szwarcwald. "A presença de artistas negros em coleções, por exemplo, é irrisória. E eles são um grupo importante na arte contemporânea brasileira."

Lontra acrescenta ainda que a presença de Paula, Motta e Bueno na premiação é representativa porque "a situação negra não pode ser reduzida a apenas um artista".

Paula, por exemplo, tematiza a violência colonial e o lugar de prazer dos corpos negros em suas pinturas e instalações. Motta costura memórias pessoais e coletivas em sua busca pelas lacunas da história relacionada à escravidão no país. E, com seu Ateliê Mata Adentro, Bueno recupera e transforma resíduos da cidade.

Além deles, Longo Bahia é conhecida por obras de alta voltagem política, em que retrata a violência das grandes metrópoles. Por fim, Monticelli tem um prática mais conceitual, dedicando-se a reordenar espaços, objetos, materiais e narrativas e, assim, apresentar uma nova maneira de compreendê-los.

Cada um dos cinco ganhadores receberá uma bolsa de R$ 50 mil e terá sua obra acompanhada por um curador durante um ano. Eles também participarão de uma exposição itinerante, a ser exibida em Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Campo Grande no ano que vem —a organização ainda negocia levar a mostra para o Rio de Janeiro.

Em São Paulo, os trabalhos dos vencedores podem ser vistos ao lado de obras dos outros 25 finalistas do prêmio no Museu de Arte Brasileira (MAB-Faap) a partir desta sexta (13).

Uma mostra paralela no mesmo local homenageia Anna Bella Geiger por meio de um diálogo entre obras da carioca e de outros 11 artistas.

Publicado por Patricia Canetti às 4:25 PM


setembro 1, 2019

Conglomerado que pode dominar mercado da arte vem sendo criado na surdina por Gabriela Longman, Folha de S. Paulo

Conglomerado que pode dominar mercado da arte vem sendo criado na surdina

Matéria de Gabriela Longman originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo em 29 de agosto de 2019.

Os empresários Antonio Almeida e Carlos Dale vêm financiando exposições e comprando galerias rivais

No tabuleiro de “War” do mercado de arte, o momento é de novas alianças, quedas de braço e novos protagonismos, lembrando um pouco o atual cenário político. Ativos desde 2002 no mercado de revenda de obras de artistas em geral já consagrados, os sócios Antonio Almeida e Carlos Dale passaram os últimos anos injetando capital, criando parcerias e formando uma rede extensa de galerias, instituições e colecionadores.

Depois do anúncio de fusão com a galeria Leme, em janeiro, formando a Leme/AD, a dupla prepara em silêncio a fusão desta com a galeria Millan, dona de um dos principais times de artistas contemporâneos do país, entre eles nomes como Artur Barrio, Mario Cravo Neto e Tunga. Com cinco sócios (dois da A&D, dois da Millan e um da Leme) e três sedes, o novo negócio busca força para enfrentar a concorrência
global e os tempos de crise.

“A Millan não está sendo vendida porque nunca esteve à venda”, diz André Millan, sócio da casa ao lado de Socorro de Andrade Lima. “É uma nova galeria que vai surgir, novo nome e nova marca que ainda estamos definindo em conjunto.”

Segundo agentes de peso no mercado, a Almeida e Dale ainda teria ingerência sobre a editora Capivara, fundada por Pedro Corrêa do Lago, do portal de vendas online Blombô, e parte do acervo da galeria Mendes Wood DM —as fusões criam um conglomerado comercial de poder sem precedentes no cenário do país.

Ao atuar no mercado de venda de obras, na publicação de catálogos e no patrocínio de exposições em instituições, a dupla vai constituindo posições de poder em todas as etapas dessa cadeia. Entendendo que parceria é poder, passaram a fazer negócio com os próprios concorrentes até fazer deles aliados e, em alguns casos, sócios mesmo.

“Uma coisa que a gente faz é olhar para fora e ver o que funciona. A galeria se posiciona como o centro, não só como ponta final que faz a venda e recebe o dinheiro. Trabalhamos apoiando instituições, famílias, catálogos, exposições, meios de comunicação, revistas que falam de arte, toda a estrutura que está em volta”, conta Antonio Almeida.

“É justamente na crise que precisamos usar nossa criatividade e crescer, tanto que nesses últimos anos multiplicamos o número de projetos. Vamos procurar mercado alternativo, fazer parcerias, aumentar a base de clientes.”

Antonio Almeida e Ana Dale, mãe de Carlos, se conheceram em 1996 na galeria Portal, firma de Malvina Gelleni na rua Estados Unidos. Ali, ele era motorista e montador que começou a ensaiar a venda de algumas obras por conta própria. “Na época, as galerias eram pequenas. Não tinham a estrutura de hoje”, lembra.

Juntos, montaram um negócio também nos Jardins que tinha uma agência de turismo no andar de baixo e um escritório de arte no andar de cima. A atividade dupla acabou com a chegada de Carlos, dentista que morava no interior paulista e que mudou os rumos do negócio.“Ele falou: nós temos que fazer as coisas do meu jeito. Ele sabia que era uma bagunça”, lembra Antonio.

Estabelecida depois na rua Caconde, na virada do milênio, a Almeida e Dale cresceu tendo como clientes jogadores de futebol, como Emerson Leão, e políticos, como o ex-senador Luiz Estevão.

A expansão para valer, no entanto, aconteceu quando começaram a vender obras de arte aos empresários ligados ao grupo Edson Queiroz, de Fortaleza, em especial a Ayrton Queiroz e à fundação que leva seu nome, que tem um acervo com mais de 800 peças do período colonial ao contemporâneo.

“São Paulo inteira passava na galeria para levar obras para apreciação do doutor Ayrton, de tapeçarias a neoconcretos”, contou um importante colecionador paulistano.

Mas, ainda que tivesse dinheiro, a galeria sem prestígio foi sempre vista com ressalvas. Recusada em boa parte das feiras internacionais, passou a fazer parcerias com galerias mais descoladas, como a de Marilia Razuk, para conseguir entrada. É esse movimento que as fusões com Leme e Millan parecem vir completar.

Na tarde de terça-feira, quando receberam esta repórter, o colecionador Orandi Momesso, que estrutura uma espécie de pequeno Instituto Inhotim no Paraná, e a curadora Denise Mattar eram alguns dos que circulavam pela galeria, em meio aos 15 funcionários fixos.

Na sala dos sócios, 23 câmeras acompanham em tempo real a movimentação em cada um dos ambientes. Enquanto o primeiro andar abriga uma exposição de Flávio de Carvalho, o segundo acumula obras de todos os períodos e estilos, formando um conjunto que impressiona pelo volume.

Sempre que questionados sobre o sucesso do negócio, os sócios costumam ser enfáticos sobre a capacidade que têm de fazer pontes, abrir e desbravar mercados fora do eixo Rio-São Paulo.

“Você está num país com 27 estados, todos com potencial enorme de ter consumo de arte, mas nós temos um problema. Nem sempre temos instituições, nem sempre temos conteúdo. Você chega aos museus e não tem acervo, as condições são difíceis. Quando a gente chega a qualquer estado brasileiro, a gente identifica uma instituição local, identifica um parceiro e trabalha para criar e fortalecer esse mercado.”

Pouco a pouco, instituições como o Museu Inimá de Paula, em Minas Gerais, o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães, o Mamam, no Recife, começaram a encampar projetos de exposição patrocinados pelos galeristas e a emprestar obras do acervo para exposições em São Paulo.

Mais emblemático é o Museu de Arte Moderna da Bahia, que recebeu uma exposição de Adriana Varejão organizada pela Almeida e Dale e não pela Fortes, D’Aloia & Gabriel, representante oficial da artista. A instituição em Salvador agora se prepara para receber uma individual de Ana Elisa Egreja também financiada pelos galeristas.

Na capital baiana, o marchand Paulo Darzé virou um parceiro crucial, assim como galeristas de Goiânia, Cuiabá e outros centros. Na capilaridade estratégica desse dinheiro, a dupla parece ter descoberto um país que o mercado da arte ignorava. Em tempos de fogo, a água ali parece jorrar.

Publicado por Patricia Canetti às 1:30 PM