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outubro 21, 2019

Katya Salvani na Kogan Amaro, São Paulo

Em A concha, a espada, o corte e o amor, a artista explora diversos suportes fazendo uso técnicas de gravura e impressão

No sulco aberto pela goiva empunhada por Katia Salvany, corre um rio azul que esculpe vestidos, conchas e gavetas. Em seguida, percorrendo as expressões nos rostos femininos, passa pelos fios de cabelos e chega aos olhos do expectador. Ao mesmo tempo que traça caminhos, essa ruptura conecta os diversos suportes apresentados em A concha, a espada, o corte e o amor, primeira individual da artista, em cartaz na Galeria Kogan Amaro a partir de 26 de outubro.

Em sua pesquisa, Salvany investiga as contaminações entre gravuras, pinturas, performance e vídeo, passando por cada suporte como a fração de um filme. Na exposição, apresenta suas obras ora como objetos de cena, ora como protagonistas. "A multiplicidade de Katia não cabe em gavetas. A fidelidade de sua composição é a alma artística, que ela faz mergulhar em cada gênero, como também vemos nos trabalhos de Joan Jones e Kiki Smith", afirma a curadora da mostra Ana Carolina Ralston.

Transitando seus trabalhos entre os gêneros natureza-morta e autorretrato, investiga o interesse corporal e seus vestígios no tempo/espaço, à exemplo de Mulher e gaveta (2019), pintura feita em esmalte sintético e Concha azul (2019), em que usa uma técnica alternativa baseada nos princípios da litografia chamada mokulito, que toma a madeira como base. "Mulheres e conchas com gavetas, suspensas no branco do papel, pintadas e desenhadas com cortes desferidos sobre a madeira são como metáforas das muitas vidas e histórias femininas que me atravessam o corpo", define a artista.

A escolha de seus processos de impressão faz de suas obras peças de tiragens únicas com perspectivas ilusórias, em que figuras em superfícies planas causam a impressão de tridimensionalidade. Já nas representações pictóricas, a artista distorce as formas orgânicas a fim de trazer movimento aos objetos.

Publicado por Patricia Canetti às 5:35 PM


Kimi Nii na Kogan Amaro, São Paulo

A artista nipo-brasileira exibe criações inspiradas em elementos da natureza e revela sua concepção minimalista de paisagem

Luz e elementos da natureza despertam encantamento da artista nipo-brasileira Kimi Nii. Ela encontrou no Brasil uma rica variedade de tons, espécies e cenários naturais que inspiram suas criações, esculturas minimalistas, nas quais convida o espectador a construir paisagens mentais. Essa é a proposta da exposição Montanha das nuvens brancas 白雲山 Hakuunzan, individual que Kimi Nii estreia em 26 de outubro, na Galeria Kogan Amaro, com curadoria de Ricardo Resende.

A intimidade com a cerâmica proporciona à artista a habilidade de fundir elementos da cultura japonesa, guardados em sua memória e bagagem, com referências brasileiras, captadas a partir de sua vivência no País. Autora de uma pesquisa centralizada nas formas e luzes da natureza, as obras de Kimi Nii se assemelham a paisagens e aludem sobre dois lados do mundo.

Nascida em Hiroshima, dois anos após a explosão da bomba atômica, a artista mudou-se aos nove anos de idade para São Paulo, e seu fascínio pela luz e a natureza brasileira a fizeram ficar.

Em Montanhas das nuvens brancas, Kimi Nii apresenta formas cilíndricas que se repetem, mas sem nunca se igualarem, e mimetizam a forma das nuvens brancas sobre a ação do vento. “As nuvens são mágicas para mim e, nessa exposição, quero trazer os extremos opostos: a terra e o céu”, explica a artista.

“É proposto pela artista o silêncio entre as nuvens que estão espalhadas pelas alturas da sala expositiva e as formas cônicas alinhadas no chão, organizadas em uma linha reta que desenha em perspectiva para quem adentra a sala”, explica o curador.

Em contraposição, formas cônicas são alinhadas de modo a remeter às formas montanhosas. Em meio a essas duas estruturas, estão peças que apontam para plantas da família dos Hibiscos, chamadas de fauna pela artista, concebidas a partir de sua investigação sobre as formas dessas espécies e sua dinâmica na natureza.

O minimalismo é um dos traços fundamentais da poética de Nii, que conserva em suas cerâmicas a essência da matéria, da forma e da cor do barro, despindo-as de elementos supérfluos e fazendo delas formas exuberantes. A produção da artista é pautada na organicidade e apenas naquilo que lhe parece fundamental. “A obra de Kimi Nii é sobre a vida transformada em objetos belos e harmoniosamente organizada com a matéria da argila”, sintetiza Resende.

Publicado por Patricia Canetti às 5:30 PM


Sessão comentada do filme Xico Stockinger no MARGS, Porto Alegre

Sessão comentada do filme “Xico Stockinger” (2012), do cineasta Frederico Mendina, seguida de debate com o diretor e mediação do diretor-curador do MARGS, Francisco Dalcol. O evento, que integra o projeto “Conversas no museu”, faz parte do programa público da exposição Stockinger 100 anos.

22 de outubro de 2019, terça-feira, às 16h

MARGS - Auditório
Praça da Alfândega s/n, Centro Histórico, Porto Alegre, RS

Documentário “Xico Stockinger”

Através de um olhar cuidadoso e delicado, o filme traz a fala do artista, sua obra, os lugares que fizeram parte de sua formação e seu ambiente de trabalho, além do depoimento de diversas pessoas de sua convivência ao longo de sua trajetória artística. O documentário cruza a carreira do artista com importantes fatos históricos apresentando, também, um pouco de sua vida como cidadão atuante na sua época.

Falecido em 2009, Xico produziu a maior parte de suas esculturas dentro de uma economia de cores e uma profusão de texturas. Muitas vezes utilizou técnicas para introduzir uma única cor em seus trabalhos. Essas características resultam em obras com certa austeridade, unindo força e técnica.

Stockinger foi um artista autodidata, teve sua formação toda baseada em estágios escolhidos dentro das suas necessidades e interesses, não tendo uma formação acadêmica tradicional. Assim, e tomando as palavras do crítico de arte Paulo Herkenhoff, a obra de Xico "está mais vinculada a um humanismo do que a uma ideologia", mesmo porque o artista não se filiou a nenhuma corrente, grupo ou escola específicos, guardando sempre uma independência em sua prática da arte.

O artista migrou para o Brasil após a I Guerra Mundial. Seu sonho era se tornar piloto de avião, mas sua origem austríaca o proíbe de concluir o curso quando o Brasil ingressa na II Guerra Mundial. Inicia como aprendiz do artista Bruno Giorgi, quando abraça um novo sonho: a arte. A inabalável capacidade criativa de Xico ao longo da vida repercutiu entre seus contemporâneos e ainda ecoa na sociedade. O documentário “Xico Stockinger” mostra sua história, entremeada por eventos históricos, suas técnicas e suas obras. Um filme documentário sobre a importância da perseverança, sobre a necessidade de realização pessoal.

Primeira produção da Pironauta e estreia de Frederico Mendina na direção, o documentário foi lançando em 2013, tendo sido aprovado na ANCINE e patrocinado pelas empresas Petrobras e Banrisul e escolhido no Concurso "Rio Grande do Sul – Pólo Audiovisual" de Apoio a Projetos de Finalização de Obra Cinematográfica Brasileira de longa-metragem.

Organizada como celebração do centenário de nascimento de Francisco Stockinger (1919-2009), a exposição Stockinger 100 Anos traz a público mais de cem itens dos acervos documental e artístico do MARGS e de outras instituições parceiras e de colecionadores. Com curadoria de Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS, e da curadora-assistente Fernanda Medeiros, a mostra pode ser visitada até 24 de novembro de 2019, de terças a domingos, das 10h às 19h, com entrada franca.

Sobre o diretor

Frederico Mendina nasceu em Porto Alegre, em 1973. É diretor de cinema autodidata desde 2007. É sócio da Pironauta, produtora focada em projetos audiovisuais de longa-metragem. "Xico Stockinger" é seu filme de estreia.

Sobre a produtora

A Pironauta foi criada para atuar em produção audiovisual, com a missão de adequar as diferentes tecnologias e formatos às necessidades do mundo contemporâneo, ágil e multifacetado. A estratégia de atuação é a formação de parcerias com produtoras e profissionais da área, resultando em projetos como: “Depois de Ser Cinza” (ficção, digital, longa metragem); e “Xico Stockinger” (documentário, digital, longa metragem –patrocinado pela Petrobras, Banrisul e escolhido no Concurso "Rio Grande do Sul – Pólo Audiovisual" de Apoio a Projetos de Finalização de Obra Cinematográfica Brasileira de Longa-Metragem).

Ficha Técnica

Entrevistados – Xico Stockinger, José Francisco Alves, Paulo Herkenhoff
Direção e Roteiro – Frederico Mendina
Assistentes de Direção – Betina Monteiro, Laura Salimen, Cacá Nazario
Produção – Frederico Mendina
Produção executiva – Clarissa Brites, Luciano Koch e Frederico Mendina
Direção de Produção – Luciano Koch e Frederico Mendina
Coordenação de Produção/RJ - Lucas Feitosa
Assistente de Produção – Cassiano Mendina, Alini Hammerschmitt
Direção de Fotografia – Eduardo N. Rosa
Operador de Câmera – Leonardo Maestrelli, Rodrigo Castro, Guilherme Carlin
Assistente de Câmera – Betina Monteiro
Eletricista e Maquinista – Fábio Catalane
Fotografia Still – Jean Schwarz
Produção Animação – Osso Filmes
Arte, Cenários e Direção das Animações - James Zórtea e Rodrigo John
Animação - James Zórtea, Rodrigo John, Adriana Hiller, Marina Kerber e Shir Anabor
Montagem e Finalização – Filipe Barros
Motion Graphics – Pedro Marques
Som Direto – Anderson "Chachá "Amaral Gorga, Benhur Machado, Bruno Carboni,
Philippe Branco, Ernesto Candau e Rodrigo Gandolfi
Estúdio de Som, Edição, Mixagem e efeitos sonoros – Fly Audio
Diretor Geral – Rafael Rhoden
Gravação e Mixagem – Rodrigo Rheinheimer
Foley - Julio Netto, Rodrigo Rheinheimer e DJ Piá
Desenho de Som – Julio Netto
Trilha Sonora Original – New
Músicos:
Violão – Diego Costa
Percussão – Giovanni Berti
Baixo e Guitarra – Rodrigo Rheinheimer
Flauta - Amauri Iablonovski
Pianos e Programação – New

Publicado por Patricia Canetti às 2:50 PM


Stockinger 100 anos no MARGS, Porto Alegre

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) inaugura no dia 7 de agosto de 2019 uma ampla e extensa exposição em homenagem ao centenário de nascimento de Francisco Stockinger (1919-2009). Ocupando as três galerias das Pinacotecas, o espaço mais nobre do museu, Stockinger 100 anos reúne mais de 100 obras, procedentes do acervo do MARGS e de coleções públicas e privadas.

A exposição percorre as diferentes fases do artista que, com seus “Guerreiros”, “Gabirus”, esculturas em pedra e figuras femininas, é reconhecido como um dos mais importantes representantes da escultura no Brasil, também aclamado ainda em vida como um dos mais consolidados referenciais da arte produzida no Rio Grande do Sul. A abertura da exposição se dá exatamente no dia de nascimento de Stockinger. Além do centenário de nascimento, o ano de 2019 também registra uma década de sua despedida.

A curadoria de “Stockinger 100 anos” é de Francisco Dalcol, diretor-curador do MARGS, e Fernanda Medeiros, curadora-assistente.

Sobre o artista

Nascido em Traun, na Áustria, em 1919, Francisco Alexandre Stockinger criou-se em São Paulo e iniciou-se na escultura no Rio de Janeiro, com Bruno Giorgi. Conviveu com personagens fundamentais na fixação da arte moderna no Brasil: Di Cavalcanti, Milton Dacosta, Maria Leontina e Iberê Camargo. Transferiu-se para Porto Alegre nos anos 1950, onde seria um dos fundadores do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre e, duas vezes, diretor do MARGS.

Depois de ter construído obra importante em xilogravura, ganhou projeção nacional com seus guerreiros em ferro e madeira, que costumam ser associados com a resistência à ditadura militar. Xico foi antes aviador, meteorologista e diagramador. Também coleciona cactos (é responsável pela identificação de pelo menos duas novas espécies).

Nas palavras do diretor-curador do MARGS, Francisco Dalcol, a exposição em homenagem a Stockinger é como que um dever do MARGS:

“Por ser Stockinger um dos mais consolidados referenciais da arte produzida no Rio Grande do Sul, e também porque sua arte extrapolou as fronteiras. Além disso, teve um papel institucional decisivo no sistema da arte no Estado, o que faz dele um personagem fundamental na nossa cultura”.

No texto curatorial da exposição, o diretor-curador escreve que, com esta exposição que celebra o centenário de nascimento de Stockinger, o MARGS afirma o compromisso com a nossa história artística:

“E em seu dever de prestar esta importante homenagem, cuja solenidade se torna necessária para que a relevância de um grande artista seja recolocada e não se apague da memória coletiva. Ao assinalar e afirmar a importância de Stockinger, o esforço é tomar o seu centenário de nascimento, e os 10 anos de sua despedida, como um momento oportuno para se difundir o seu legado. O intento é proporcionar um reencontro e um renovado interesse com uma produção tão conhecida e aclamada, mas sobretudo oferecer uma experiência intensa e enriquecedora para um público mais amplo e não totalmente familiarizado com a importância de sua obra e vida, notadamente as novas gerações”.

Sobre a exposição

“Stockinger 100 anos” reúne mais de 100 obras, entre esculturas, gravuras, documentos e outros itens. Na concepção curatorial, optou-se por uma exposição que não segue uma ordem cronológica estrita, preferindo estabelecer aproximações e possíveis relações entre diferentes fases e vertentes da extensa obra de Stockinger, produzida ao longo de seis décadas. Dessa estratégia de organização, resulta uma mostra estruturada em torno de núcleos temáticos, formais e conceituais. No texto curatorial, Francisco Dalcol escreve:

“Reconhecendo se tratar de um artista já legitimado e amplamente abordado, a exposição se assume mais panorâmica do que retrospectiva, tendo sido organizada segundo estratégias que procuram oferecer compreensão e legibilidade frente a uma produção tão extensa quanto diversa em suas etapas. Reforçam a opção por esse viés os diversos textos de mediação apresentados no espaço expositivo, com os quais se procura situar e contextualizar a obra e a trajetória do artista”.

Na galeria central das Pinacotecas, estará reunido um grande conjunto da estirpe dos “Guerreiros”, na qual se incluem figuras como profetas, sentinelas, touros, cavalos e personagens femininas. O diretor-curador escreve:

“Nos começo dos anos 1960, depois de um período dedicado às artes gráficas (desenho de imprensa e gravura), Stockinger retomou a prática e pesquisa em escultura. Começou a fundir em bronze no quintal da casa, de modo caseiro e mesmo rudimentar. Nesse processo artesanal e experimental, desenvolveu formas e texturas que o levariam a elaborar a estirpe em torno da figura mítica do guerreiro. Seguindo em suas experimentações, passou a trabalhar os “Guerreiros” com troncos de árvore e peças metálicas soldadas, desenvolvendo aí um inventivo processo construtivo — colagem e sobreposição, e não mais modelagem ou entalhe —, que configura a sua mais particular e notável contribuição para o campo da escultura”.

Já nas duas galerias laterais, estão contempladas as demais vertentes de sua produção. Em uma delas, estão reunidas dezenas de gravuras realizadas entre os anos 1950 e 1960, juntamente a uma seleção de itens que destaca a sua atuação na imprensa, em especial a gaúcha, onde trabalhou com diagramação, ilustração, caricatura e charge. Sobre a produção em gravura, Francisco Dalcol descreve:

“Ainda no final da década de 1950, Stockinger passou a praticar gravura. Dessa experiência, ficou notabilizado por uma importante produção em xilo (gravura impressa a partir de matriz de madeira), manifestando já aí forte pendor tanto à consciência social como às vertentes expressionistas. Contudo, a produção em gravura de Stockinger não se valeu das intensidades da expressão para uma dramatização documental da vida. Por outra via, abordou o drama social coletivo pela chave do conflito existencial, a partir de personagens excluídos e marginalizados da sociedade, tanto urbana como rural, a exemplo de pobres, boêmios, prostitutas e abigeatários”.

Nesta mesma galeria, outra seção destaca o seu trabalho de escultura em pedra, sobretudo o mámore. Segundo Dalcol:

“São esculturas serenas e silenciosas, que enfatizam o apelo à contemplação. Convidam ao deleite da beleza lírica e poética, mobilizando uma sensibilidade própria à forma e à matéria, e também ao que pode haver de prazer e sensual no resgate desses sentidos. Esculpindo em pedra, Stockinger não mais acrescenta nem molda, apenas subtrai o excesso. Há volume e cor, mas também ausência. A narrativa e o comentário da realidade social dão lugar à opção pelo silêncio, da arte como objeto em si. Aqui, o artista deixou-se guiar pela operação de reconhecer na forma bruta da matéria a sua vocação, encontrando assim a via de uma abstração informal”.

Por fim, na terceira galeria, estão reunidas peças diversas, como os seus conhecidos “Gabirus”, que retratam a miséria do povo do nordeste, e também sua “Magrinhas”, figuras femininas que se destacam pelo aspecto longilíneo. O diretor-curador comenta:

“Nos anos 1990, Stockinger recobrou as cargas de um comentário social mais explícito em sua produção artística. Sensibilizado pelas notícias da fome e miséria que teimavam a chegar do nordeste brasileiro, concebeu as figuras dos “Gabirus”, os seus seres nanicos, expressivos do drama humano que persiste a recair sobre as populações menos favorecidas. Como modo de denúncia, Stockinger procurava intencionalmente chocar com suas impactantes peças fundidas em bronze, que também já apontavam, uma vez mais, para a aproximação com algo do grotesco presente em sua produção”.

Nesta última sala, também estão reunidas diversas esculturas que explicitam o aspectos acnetral e primitivo da produção de Stockinger, a exemplo de grandes mestres da arte moderna. O diretor-curador salienta:

“Nessas esculturas, evidencia-se que a produção de Stockinger sempre apontou para o lastro da tradição artística ocidental. Mais precisamente, para a revalorização da escultura primitiva sugerida por grandes mestres europeus, filtrada por um viés humanista e por uma figuração livre. Entre essas referências figuram como incontornáveis escultores a exemplo de Alberto Giacometti, Aristide Maillol, Auguste Rodin, Constantin Brancusi, Henry Moore, Jean Arp e Marino Marini. Ao se valer a seu modo desse aspecto primitivo, arcaico e ancestral encontrado nos artistas modernos, tornado emblema de sua fidelidade e coerência artísticas, Stockinger alcançou uma obra que continua a significar por sua dimensão tão humanista quanto universal”.

A exposição “Stockinger 100 anos” pode ser visitada até dia 24 de novembro de 2019. O MARGS funciona de terças a domingos, das 10h às 19h, sempre com entrada gratuita. Visitas mediadas podem ser agendadas por e-mail.

Publicado por Patricia Canetti às 2:29 PM


Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural no Mamam, Recife

A mostra apresenta no Recife um conjunto de 46 obras, que abarcam mais de 80 anos da história da confecção deste tipo de livro por artistas brasileiros, na transição entre moderno e o contemporâneo, e revelam como a participação e a invenção artística traçam fronteiras com a literatura e o design. Além da exposição, o museu exibe livros de seu acervo e de artistas locais convidados

De 17 de outubro a 19 de janeiro, fica em cartaz no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) a exposição Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural. Com curadoria de Felipe Scovino e projeto expográfico de Marcus Vinícius Santos, apresenta 46 das 125 obras deste acervo, em um percurso de 84 anos de história da confecção de livros de artista, em diversos formatos.

A mostra já foi apresentada em São Paulo, na sede do Itaú Cultural, em Ribeirão Preto, no Instituto Figueiredo Ferraz, em Curitiba, no Museu Oscar Niemeyer (MON), e em Belo Horizonte, na Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard do Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado. Assim como nas cidades anteriores, a escolha e recorte das obras e seções sofreu mudanças em Recife. Na capital pernambucana, com exceção da obra do argentino Jorge Macchi, a exposição se concentra nos artistas brasileiros da coleção de livros de artista do Itaú Cultural e na transição entre o moderno e o contemporâneo, especialmente o momento em que o formato do livro cria novas fronteiras no seu formato conceitual, expandindo o lugar da palavra para além da página.

“Acompanhando a criação de novos procedimentos para a concepção de livros de artista, a exposição constitui diversas relações para o leitor”, avalia Scovino. Uma delas, de acordo com o curador, é a da pluralidade de ações não só com a literatura e as artes visuais, como também com o design, a política e, em alguns momentos, com a música. “Também se verifica uma leitura que não se esgota, que se desdobra, redefinindo o papel do livro, do leitor e o do artista”, observa.

Outro acervo que será exibido em diálogo à mostra é o de coleção livros de artistas do MAMAM e de artistas pernambucanos convidados. Esse espaço se faz importante para o fortalecimento do Recife como um polo de referência dentro do contexto nacional das artes.

A MOSTRA

Para Felipe Scovino, Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural “não é uma exposição apenas sobre livros-objetos, como se poderia imaginar quando veem à mente a expressão ‘livro de artista’”. O curador destaca que a mostra amplia essa percepção ao envolver os atributos que cercam este tipo de obra de arte: reflete a produção de uma revista pelo próprio artista, concebendo seu conteúdo e design gráfico; a manufatura de um livro ou a intervenção propondo uma ação conceitual ou física nesse suporte, ambos em caráter de tiragem limitada; a ilustração de uma publicação ou a produção de uma obra especialmente concebida para a sua capa; e a execução de um álbum de gravura.

Em Recife, a mostra se desdobra em cinco núcleos: Rasuras, Paisagens, Álbuns de Gravura, Uma escrita em Branco e Livros-objetos. Rasuras apresenta livros que, ao receber intervenção plástica, têm a sua função semântica ampliada. As obras não respeitam o jogo de uma narrativa linear, a escrita não precisa ser compreendida e o que importa é a mensagem final, que tem até um certo grau de violência e gestualidade. Em Balada (1995), de Nuno Ramos, o livro espesso e de capa dura não contém palavras, mas sim uma perfuração profunda à bala, transpassando-o brutalmente do começo ao fim, servindo como o único signo de leitura.

Mais uma obra representativa neste núcleo é As potências do orgânico (1994/1995), de Fernanda Gomes, Artur Barrio e Adriana Varejão. Nesta mostra, estão apenas as obras de Fernanda Gomes e Adriana Varejão. O surgimento da escrita visceral é o que marca este núcleo, testificado, ainda, por meio de três obras de Artur Barrio – Uma Extensão do Tempo (1996), Caderno Livro (1997) e O Sonho do Arqueólogo.

O núcleo seguinte, Paisagens, exibe trabalhos que transportam o leitor a uma experiência sensorial por meio de efeitos de impressão. Os livros têm uma aspiração ao tátil e à textura na superfície ou nas imagens, dada a fusão de cores e formas utilizadas. Dão um panorama, nesse sentido, obras como Paisagismo, de Roberto Bethônico, que acumula camadas, e sobreposições sobre o estado transitivo da natureza. Cria, assim, uma relação fecunda entre objeto e imagem.

Situação semelhante acontece em Memória Fotográfica, de Lucia Mindlin Loeb, onde o vazio –que também ocorre em Bethônico – incide na construção metafórica da imagem de uma câmara escura, já que o livro é atravessado em seu miolo por um “furo”. Entre outras obras exibidas neste núcleo, também são emblemáticas Páreo (2006), de Tatiana Blass, Partitura, de Sandra Cinto, e Buenos Aires Tour (2003), de Jorge Macchi.

Em Álbum de gravuras encontram-se obras de artistas plásticos que tiveram atuação determinante na passagem do moderno ao contemporâneo no Brasil. Entre elas, Gravuras Gaúchas (1952), em que o icônico Grupo de Bagé, composto por artistas como Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti, defendia a popularização da arte.

Há obras emblemáticas desse período também de Arthur Luiz Piza e Sérvulo Esmeraldo, sendo este último importante artista cearense e um dos pioneiros da arte cinética no Brasil. Em uma de suas obras paradigmáticas, Variations sur une courbe, Esmeraldo apresenta uma poética incomum em seu trabalho. O mesmo acontece em Bernard Palissy, de Piza, cujas sete gravuras originais também estão em exposição.

Sandra Cinto está presente com o livro objeto Partitura, inspirado em antigos cadernos de estudos musicais e reinventados com a técnica da litografia. De Antonio Dias, há um livro com imagens ampliadas de pele humana, Flesh Room with Anima.

Antonio Henrique Amaral e João Câmara, também presentes neste núcleo, exploraram, nos anos 1960, cada um a seu modo, percepções sobre o tema da identidade e, em especial, de uma linguagem popular extremamente vigorosa e crítica. Já a tônica na pesquisa de Regina Silveira é duvidar dos códigos de representação. Em Anamorfas (1980), presente na mostra, nota-se um registro significativo desse estudo que subverte os sistemas de perspectiva.

Uma escrita em branco é um núcleo contemporâneo e apresenta obras que quebram as expectativas de um conceito fechado de livro ou leitura. Eles são oferecidos ao público como matéria, densa, compacta e sensorial. Entre eles, Devaneios – Utopias, livros em pó de tijolo e resina produzidos por Brigida Baltar em 2005, e Blocado: a arte de projetar, obra de Debora Bolsoni, de 2016, composta de ferro, papel e cola.

Desde meados dos anos 1950, no Brasil, os poetas concretos vinham problematizando as noções de livro, palavra e leitor e este é o teor do núcleo Livros-objetos. Nele estão obras como Muda Luz (1970), projeto de Plaza e Augusto de Campos, e Notassons – Notações Musicais e Visuais Aleatórias (1970-1992), de Montez Magno, que demonstram a ideia de escrita expandida e desdobrada em novas poéticas e (des)continuidades.

SALA DE DIÁLOGOS

Os dois acervos, Coleção Itaú e MAMAM, ocuparão o espaço juntos, fomentando a discussão entre artista, público e instituições culturais sobre as relações e alcances geográficos dos artistas contemporâneos das mais diversas poéticas, localidades e gerações. Ana Lira, Bruna Rafaela, Beth da Mata, Fernando Perez, Juliana Notari, Laura Melo, Márcio Almeida, Maurício Souza, Milena Travassos, Oriana Duarte e Paulo Bruscky são os autores locais selecionados pela curadoria do museu.

COLEÇÃO ITAÚ

As peças desta exposição pertencem ao acervo do Banco Itaú, mantido e gerido pelo Itaú Cultural. Formado por recortes artísticos e culturais que abrangem da era pré-colombina à arte contemporânea, cobre a história da arte brasileira e importantes períodos da história de arte mundial. A coleção começou a ser criada na década de 1960, quando Olavo Egydio Setubal adquiriu a obra Povoado numa Planície Arborizada, do pintor holandês Frans Post – agora exposta no Espaço Olavo Setubal, que ocupa o 4º e 5º andares do Itaú Cultural, em São Paulo, na exposição permanente dos recortes Brasiliana e Numismática também pertencentes a este acervo.

Atualmente formada por mais de 13 mil itens, a coleção reúne pinturas, gravuras, esculturas, fotografias, filmes, vídeos, instalações, edições raras de obras literárias, moedas, medalhas e outras peças. Trata-se da oitava maior coleção corporativa do mundo e a primeira da América do Sul, segundo levantamento realizado pela instituição inglesa Wapping Arts Trust, em parceria com a organização Humanities Exchange e participação da International Association of Corporate Collections of Contemporary Art (IACCCA).

As obras ficam instaladas nos prédios administrativos e nas agências no Brasil e em escritórios no exterior. Recortes curatoriais são organizados pelo Itaú Cultural em exposições no instituto e exibidas em itinerâncias com instituições parcerias pelo Brasil e no exterior, de modo a que todo o público tenha acesso a elas.

NÚCLEOS DA EXPOSIÇÃO

RASURAS

Aqui estão obras que se colocam à margem de uma narrativa obediente ao pragmatismo. É o lugar de uma escrita que nasce para não ser compreendida, que é oferecida ao mundo com certo grau de violência e gestualidade. Em Balada (1995), de Nuno Ramos, o rastro da bala que atravessa o volume do livro se transforma em signo de leitura. Em Flesh Room with Anima (1978/96), de Antonio Dias, assistimos a imagens ampliadas de pele: a página do livro se torna um padrão biológico. Nas obras de Artur Barrio, os conceitos de diário, registro, projeto, esquema, sonho e devaneio transportam o leitor para um espaço-tempo que foge a qualquer regra conclusiva sobre a concepção de livro como organizador pleno de ideias. Os livros de Adriana Varejão, Artur Barrio e Fernanda Gomes, que compõem parcialmente a série As Potências do Orgânico (1994/95), são índices de corpos transmutados em livros – estão lá vísceras, sangramentos, machucados. É o surgimento de uma escrita em que os fluidos transparecem, vêm à tona. A palavra transborda para uma relação profana entre imagem, narrativa e sexualidade. Nesse momento, podemos falar em livros-carne, pois neles estão contidos índices do que é visceral.

Em Dossiê Cruzeiro do Sul (2017), Lais Myrrha, ao fazer uso de saberes geopolíticos, astronômicos e históricos, revela que a constelação do Cruzeiro do Sul está invertida na bandeira brasileira. É o estopim para que, historicamente, seja construído um relato contundente sobre as disputas de poder no plano político e a falta de orientação do país expressa em suas disputas ideológicas, assim como, acima de tudo, para que seja registrada a situação de exclusão em vários níveis pela qual passa o Brasil. Em Escravos de Jó (2016), Aline Motta, por sua vez, parte da desconstrução da narrativa da cantiga infantil que dá título à obra para expor criticamente a história do Brasil em conjunto com a constituição de um estado necropolítico. O livro escancara como a cultura e a história oficial do país naturalizaram a violência e, especialmente, como a crueldade com o corpo negro se tornou prática comum e institucionalizada. Rasuras que revelam rasgos na carne.

E, finalmente, rasuras que não apagam as marcas indeléveis do roubo, memórias que retornam como apagamentos na obra de Rosângela Rennó. A pesquisa de 2005-510117385-5 foi criada com reproduções de fotos furtadas e, posteriormente, encontradas e devolvidas à Biblioteca Nacional (RJ), seu lugar de origem. As imagens, que retornaram em péssimo estado de conservação e sem o número de identificação, levaram a artista a outra criação poética, que ressalta a destruição ao reproduzir o verso das fotos, com suas margens rasgadas e outros estragos provocados no furto, realizados de modo “a apagar as marcas de registro de patrimônio da biblioteca”, segundo afirma a artista. A01 [cod.19.1.1.43] — A27 [s|cod.23] é resultado de pesquisa realizada no acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro em 2012 e trata do furto, detectado em junho de 2006, de mais da metade da coleção de álbuns de fotografias realizadas por Augusto Malta e seus dois filhos ao longo de mais de 40 anos. “O livro contém as reproduções do interior e do conteúdo de cada caixa, tal como foram encontrados após a constatação do furto.” E o que não pôde ser reproduzido convida o leitor a construir a sua própria história.

PAISAGENS

Livros que podem guardar não só uma relação explícita com esse tema, mas que o apresentam, sobretudo, em sua superfície ou nas imagens que revelam uma aspiração ao tátil. Transmitem a ideia de uma textura que equivaleria, guardadas as diferenças, à pesquisa pictórica, pois está ali uma superfície vibrátil criada numa fusão entre cores, formas e imagens. É como se, simbolicamente, a paisagem impressa nesses livros pudesse ser experienciada de forma sensível e direta pelo leitor.

Não temos, portanto, apenas uma reprodução visual da paisagem, mas artifícios ou dispositivos criados pelos artistas que manifestam uma capacidade de tornar visíveis o espaço e a atmosfera dessa imagem, em suas mais distintas referências e aparições. Uma paisagem em constante mudança, nunca estabilizada, mas permeada com inflexões do artista e suscetível à imaginação criadora do espectador. Ao serem viradas as folhas em Paisagismo (2005), de Roberto Bethônico, acumulam-se camadas, sobreposições e novas visadas sobre o estado transitivo da natureza. Cria-se, portanto, uma relação fecunda entre objeto e imagem. Situação semelhante acontece em Memória Fotográfica (2013), de Lucia Mindlin Loeb, em que o vazio – experimento/forma que também ocorre em Bethônico – incide na construção metafórica da imagem de uma câmara escura, já que o livro é atravessado em seu miolo por um “furo”. Essa forma é perspicaz, porque o livro é efetivamente a publicação de imagens capturadas de maneira aleatória pela artista do entorno em que ela se encontrava naquele instante. Forma e conteúdo se entrelaçam. Por sua vez, Edith Derdyk desloca a perspectiva do olhar para o alto em Fiação (2004). Seu objeto de pesquisa, nesse caso, é a fiação dos postes da cidade. A paisagem urbana é exibida de um modo pouco usual, ressaltando-se o céu, mas sobretudo as marcas da modernidade (a iluminação elétrica) e os desenhos criados pelos fios.

Em Notassons – Notações Musicais e Visuais Aleatórias (1970/92), de Montez Magno, há um diálogo interdisciplinar e de vanguarda entre literatura, música e artes visuais. A partitura é o espaço não só da música incidental, mas do gesto – palavra e som constituindo o mesmo espaço e gerando ritmo e expressividade. Afirmo isso pois há formas, desenhos e virtualizações: o que está diante de nós são paisagens imaginárias dotadas, sem dúvida, de um espectro sonoro.

Em outra perspectiva sobre paisagem, temos Buenos Aires Tour (2003). Nessa obra, Jorge Macchi constitui oito itinerários que derivam de uma trama de linhas criada a partir da quebra de uma estrutura de vidro que, por sua vez, foi colocada sobre o mapa da cidade argentina. Nesses itinerários foram eleitos 46 pontos de interesse, sobre os quais o guia proporciona informações escritas, fotográficas e sonoras. A paisagem não somente é exibida, mas vivenciada de múltiplas maneiras pelo leitor. Por conta de uma tática movida pelo aleatório, com inspirações situacionistas, a rotina diária pela cidade se transforma em uma cacofonia de cheiros, sons e formas provavelmente nunca antes percebidos.

ÁLBUNS DE GRAVURA

Este núcleo apresenta álbuns, em tiragem limitada, contendo obras de artistas plásticos que tiveram atuação determinante na passagem do moderno ao contemporâneo no Brasil. Gravuras Gaúchas (1952) apresenta pranchas com gravuras dos artistas que fundaram o icônico Grupo de Bagé, tais como Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti. Defendiam a popularização da arte, daí a sua impressionante produção de gravuras, com traços realistas e expressionistas, tecendo uma crítica social e ao mesmo tempo documentando a cena regional do Rio Grande do Sul.

Os álbuns de gravura constituem outra instância de narrativa, assim como os livros. Nas obras de Arthur Luiz Piza, Edith Behring e Sérvulo Esmeraldo aqui expostas, percebemos como a linguagem abstrata é múltipla no país, por suas contribuições e visões mais distintas do que próximas dos concretos e neoconcretos. Há um lirismo singelo e potente, assim como um domínio seguro da linguagem construtiva. Em especial, destaco o modo delicado e autônomo com que Piza se aproxima do informalismo; a contribuição especial de Esmeraldo ao campo da arte concreta no Brasil, com formas que ampliaram o sentido de comunicação entre obra e público; e a iniciativa de Behring, que começa a retirar da linha, do plano, da cor e das características dos materiais trabalhados elementos que vão do mais extremo rigor das formas a uma poesia envolvente.

Já Antonio Henrique Amaral, João Câmara e Gastão de Holanda exploraram, nos anos 1960, cada um a seu modo, percepções sobre o tema da identidade e, particularmente, de uma linguagem popular bastante vigorosa e crítica. Conectados ao tema social, criaram imagens significativas sobre as mais distintas reproduções do espaço social e político brasileiro, esperançosos de um desenvolvimento que desse conta de diminuir as diferenças que habitavam o país. É importante salientar que ambos exploram a ideia de corpo em meio a um panorama em que esse se mantinha em estado de alerta. Violência, sexo e política são temas recorrentes e podemos percebê-los na aparição de bocas, seios e armas, no caso de Amaral, e de um nu tendendo ao expressionismo, no álbum de Câmara e Holanda. Em especial no caso de Antonio Henrique, percebemos um traço que começa a incorporar elementos da gravura popular e a figuração extraída da cultura de massa, com destaque para a proximidade com a publicidade e o grafite.

Duvidar dos códigos de representação é uma tônica na pesquisa de Regina Silveira e, em Anamorfas (1980), temos um registro significativo desse estudo. A artista se interessa pela subversão dos sistemas de perspectiva. Os trabalhos partem de fotografias de objetos cotidianos – tomadas de certa altura e de determinados ângulos –, que são redesenhados com o intuito de obter compressões, dilatações e dobras.

As xilogravuras também ganham espaço na mostra, contidas nas obras em formato de álbum. São os casos de Pequena Bíblia de Raimundo de Oliveira (1966), com texto de Jorge Amado, e Das Baleias (1973), de Calasans Neto, acompanhado de um poema de Vinicius de Moraes. Sendo a literatura de cordel o referencial para essas obras, aponto que ela não se apresenta puramente como expressão da cultura brasileira, mas evidencia a constituição de um livro e de uma narrativa produzidos manualmente pelo próprio artista. São exemplos, portanto, do processo de expansão sobre a ideia de livro de artista.

Assim, este núcleo concentra distintas análises que exploram como podemos refletir sobre o diálogo entre a produção artística e os meios de experimentação tendo o livro como forma e a serialidade como meio.

UMA ESCRITA EM BRANCO

Existem duas situações para o uso dessa expressão. A primeira faz referência a livros em que a palavra está em suspenso e o que se destaca é a materialidade do suporte. Nela, estão em evidência a forma, o peso e a estrutura da obra, sendo a escrita negada ou não concluída. Nada aparece como um dado pronto: é preciso se aventurar entre essas camadas, das quais as incertezas são o motor. É o caso dos livros de Brígida Baltar e Débora Bolsoni, que nos são oferecidos enquanto matéria densa e compacta, sendo justamente por isso caros ao tato. Quebram expectativas sobre um conceito fechado de livro ou leitura, pois se lançam ao sensório. Assemelham-se a blocos e, enquanto o de Baltar é impossível abri-lo, pois seu propósito é o contato com a cerâmica, o de Bolsoni é um livro sem palavras, um campo aberto, um estado permanente do devir-livro.

Ainda acerca da suspensão da palavra, em Momento de Fronteira (1999), de Waltercio Caldas, o vazio ou a falta, metaforizada nos buracos contidos no livro, opera como demarcações sobre um mapa. O que se observa sobre o território é a indefinição em se concluir sobre limites. O que nos interessa nessa situação é a investigação ou aparição do livro enquanto objeto e o alargamento que essa experiência produz no entendimento a respeito do que o livro passa a ser. Em Estudos sobre a Vontade (2000), Caldas veicula efeitos concretos de vazios ao propor sólidos geométricos usando as mãos em uma imagem com apelo cênico. Especula-se sobre a existência do vazio na mesma medida em que se lançam operações de irrealização sobre ele. Como acentuou Ronaldo Brito, “[Waltercio Caldas] introduziu uma dúvida inquietante na segurança da trama”.

A segunda situação é a construção de uma narrativa na qual o leitor é deixado em um estado de perda de referências, pois a linguagem impressa no livro é turva, não se exibe com exatidão. O Livro Velázquez (1996), também de Caldas, torna imprecisa a percepção sobre texto e imagens. Eles nunca se colocam como prontos aos olhos. O livro é atacado como um todo: texto e imagens estão fora de foco. A imagem se coloca como frustração. É preciso furar camadas de inconclusão e deduzir sobre aquilo que nunca se coloca de modo inteiriço. É também esse laço que nos conduz a Caixa de Retratos (2010), de Marcelo Silveira, em que imagens em pedaços criam novos sentidos discursivos para a fotografia. A ideia de retrato como memória e recordação sentimental é descontruída, ao mesmo tempo que outro sentido é criado. Rasgar é modificar, criar novas dobras e outra relação com nosso passado e com o que somos.

Pode-se também investir sobre a palavra uma sucessão de efeitos ópticos, luzes e sombras que criam outra camada de leitura e transformam quem lê em um náufrago ou em um sujeito ao qual são oferecidas diversas bifurcações ou oportunidades de entendimento daquele objeto. Em Como Imprimir Sombras (2013), temos um livro aberto, sem páginas. Impresso sobre o acrílico – que estrutura e dá forma ao livro –, o título que nomeia a obra. Num jogo de luz e como exercício de linguagem, assistimos a sombra do enunciado ser projetada contra o fundo do livro. As palavras se apresentam e se ressignificam no espaço do livro sob as mais distintas vertentes, mesmo sob o signo da ausência. O débito ou a falta se coloca nesse núcleo como afirmação e potência de espaço e como leitura crítica sobre o real.

LIVROS-OBJETOS

Desde meados dos anos 1950 no Brasil, os poetas concretos vinham problematizando as noções de livro, palavra e leitor. Passando pelos poemas espaciais de Ferreira Gullar, que solicitavam a participação do espectador, e pelas obras pioneiras de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Julio Plaza, que experimentavam a ação, a sonoridade e a espacialidade da palavra para além da página, a relação entre a poesia concreta e as artes visuais fundou um novo jeito de aparição do livro – ele toma uma forma escultórica na qual a palavra alcança a tridimensionalidade e passa a ter volume e densidade. A ideia de escrita expandida contida na pesquisa desses poetas ganha uma nova etapa: desdobra-se em novas poéticas e (des)continuidades. O livro faz aparecer sua própria fatalidade, pois interrompe toda linha contínua dos sentidos e torna-se risco. Este núcleo reúne e homenageia os pioneiros dos chamados livros-objetos no Brasil e sua intersecção direta com a poesia concreta. Era o momento em que a palavra saltava da página em direção ao espaço, assim como, guardadas as suas especificidades, simultaneamente as experiências concretas, neoconcretas e cinéticas exploravam um campo ampliado para a pintura e a escultura nas artes visuais. Percebam que a inclusão da obra de Waltercio Caldas neste núcleo cria uma comparação factível entre estas duas gerações de artistas: os da poesia concreta e aqueles com uma aderência ao campo conceitual. Parafraseando Paulo Sérgio Duarte, é a obra de arte na época de suas técnicas de reprodução que esses artistas tomam como terreno de operações.

Passamos então a analisar palavra/poema/livro/escultura como algo indissociável. Em Muda Luz (1970), projeto de Plaza e Augusto de Campos, por exemplo, o livro se abre feito o plano da cidade, trazendo densidade e volumetria para a palavra. Cor, escala e tridimensionalidade são aspectos correlatos da escultura que também passam a fazer parte da poética do livro ou da palavra. Outra parceria dos dois poetas é Objetos (1969). Nesse livro, composto de cinco grandes cadernos, os objetos são as próprias páginas, que, ao serem desdobradas, revelam formas geométricas geridas mediante um jogo estudado de cortes. Livro e escultura, verbal e não verbal, espaço e plano, eis algumas das possibilidades intersemióticas, espaciais e conceituais desse projeto de vanguarda. Interessante pensar que o artista passa a ser um criador ou propositor mais de situações do que de objetos acabados. E o livro foi e continua sendo um meio especialmente importante para pensar essa condição.

Em A Simétrica (1995), também de Caldas, o título da obra indica a ambiguidade própria do objeto: deriva do olhar cartesiano sobre o mundo, pois nele está aparente uma adequação geométrica, mas se equilibra, mesmo, é pelo seu humor, visível nas duas representações do vanitas. Estão lá, em oposição e em diálogo, a concretude das linhas definidoras do espaço e o símbolo da finitude. É esse distanciamento irônico que obriga ao sorriso.

O núcleo apresenta um microcosmo da produção do livro-objeto no Brasil. Seu início, como vértice do plano piloto da poesia concreta, e a sua dobra, em Waltercio Caldas e a sua forma silenciosa e alegórica de enxergar o mundo.

Publicado por Patricia Canetti às 11:57 AM