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setembro 3, 2020

1monthroy por Marcelo Amorim

1MONTH-ROY

MARCELO AMORIM

Nos anos 2000 um interesse a respeito das relações entre e arte e tecnologia dominou as discussões no campo das artes visuais. Parecia um horizonte cheio de possibilidades a ser explorado e muitos artistas se dedicaram a pensar nesse presente/futuro hipotético em que as relações mediadas por tecnologia dariam também espaço para os criadores atuarem.

Eu mesmo tive a oportunidade de trabalhar em um museu que abrigou diversas exposições importantes sobre o assunto e dentro de um curso de pós-graduação em uma universidade me propus a pesquisar as relações entre performance e mídias interativas. Tive também o prazer de ser orientado pelo artista e pesquisador Lucio Agra nesse processo que para mim foi muito rico. Naquele momento me voltei para mídias que propõem situações dialógicas, sugerem comunidade, jogos e relações. Algo que chamei de "Mídias relacionais”. Ali eu trazia como referência a cena da arte relacional como descrita pelo curador e crítico de arte Nicolas Bourriaud e especialmente o trabalho da artista Lygia Clark com os objetos relacionais.

A questão é que décadas atrás tudo era muito diferente. Algo simples como gravar um vídeo, editar e postar na internet era muito trabalhoso. Transmitir uma performance ao vivo envolvia verdadeiros malabarismos. Um outro ponto era nossa ingenuidade. Antes da popularização das tecnologias, as redes nos pareciam um lugar prenhe de possibilidades de trocas que poderiam acontecer em um território livre. Tudo era muito hipotético e a tecnologia ainda não havia aportado completamente. Outra questão foi essa virada de maré. Não imaginávamos que as redes se tornariam esse lugar saturado de vigilância, narcisismo e fascismo. Parecia que algo mais poderia brotar dessa arena.

Eis que décadas depois um vírus nos obriga a ficar dentro de nossas casas e essas possibilidades de interação mediada, que já tinham perdido seu encanto e se tornado banais, tornam-se a única possibilidade de troca para alguns de nós. No campo das artes, onde tudo envolve encontro, houve um cancelamento generalizado de atividades fazendo com que seus agentes passassem a reconsiderar a exposição, venda e circulação de informações sobre arte pelo meio virtual uma opção atraente.

Até agora vemos como padrão dois registros: de um lado exposições virtuais tentando suprir o lugar da visitação e as lives no lugar dos bate-papos, debates. Essa tentativa de transposição do cubo branco para um ambiente virtual, uma simulação de percurso como uma realidade virtual, uma sensação tridimensional para arquivo em duas dimensões parece ter sido um primeiro objetivo. Os chamados viewing rooms, salas para ver, foram a solução que as feiras de arte deram para seus projetos comerciais e isso se tornou um modelo para outras iniciativas. Por outro lado as redes sociais de museus, galerias e outros espaços com perfil mais institucional se tornaram saturadas de lives, conversas virtuais transmitidas ao vivo entre seus agentes como uma maneira de se fazer presente e seguir em frente com alguma programação e circulação de conteúdo.

Da maneira que eu vejo a tragédia da pandemia desencadeou um outro nível nesse jogo de virtualidades. Chegamos ao momento do streaming, da transmissão ao vivo. Plataformas de streaming como Twitch e Bigo Live, sugerem uma comunidade de comunicadores especializados que tem suas próprias audiências e estão disponíveis para o diálogo em tempo real, substituindo a interação perdida da vida cotidiana. Chama a atenção como atividades banais são desempenhadas diante da câmera. Compartilhar telas jogando videogame ou assistindo um show da tv, maquiar-se ou simplesmente encarar a câmera e conversar com as caixas de diálogo tem uma incrível demanda de atenção.

Pensei então em retornar àquele conceito de "Mídias relacionais" que eu havia pensado anos atrás e testá-lo hoje em dia nesse novo contexto tão problemático. Foi aí que eu propus o programa Sala de Acontecimentos no Fonte, espaço de ateliês coletivos e residências artísticas. A ideia era oferecer ao artista, pelo período de um mês, um espaço físico generoso para que algum trabalho pudesse ser desenvolvido e já de antemão sendo pensado para sua circulação através das redes. Lembrei-me também da ideia de videoperformance e fotoperformance, conceito criado para abarcar trabalhos de performance pensados para render nos suportes da fotografia e video e tive ideia de começar essa exploração com artistas da performance. Artistas cujo trabalho já são em certa medida imaterial e que sempre contam com o amparo do registro em vídeo e foto para relatar suas ideias. Se de um lado temos as "salas para ver” como seria a criação de uma “sala para acontecer”? Convidei o artista Carlos Monroy que já possui uma grande trajetória de performances realizadas em diversos espaços institucionais mas que também já lançou mão do uso de telefones e outros meios interativos em suas criações.

Carlos Monroy aceitou o convite e propôs 1monthroy, título que faz referência ao período de um mês em que ele vai passar a morar no espaço expositivo com câmeras ligadas em tempo real. A cada dia ele fará posts sobre seu processo e transmissões ao vivo criando circunstâncias de diálogo com o público. Grande parte desse processo será a experimentação com plataformas de redes sociais já estabelecidas. Em nossas conversas relembramos performances já clássicas em que artistas se propuseram a habitar o espaço expositivo como quando Joseph Beuys se trancou com um coiote na peça I like America and America likes me (1974), ou Marina Abramovic na obra The house with the ocean view (2002) e também as experiências em vídeo de Bruce Naumann em seu ateliê. O artista que pesquisa ideia de re-formance, a possibilidade de se refazer performances à luz do contexto atual, faz referências a tais artistas canônicos que também se dispuseram a habitar o cubo branco adicionando camadas de ironia e o ponto de vista latino-americano ao retransmitir aulas de danças e ritmos populares.

A ação como um todo se inicia com a pergunta “Quer que eu faça o quê?” (assista a live) uma das frases com que o presidente Jair Bolsonaro respondeu a imprensa que questionava sobre medidas para o controle da pandemia. Nesse caso a referência é a performer e amiga pessoal do artista Rebecca Nagle e seus trabalhos que envolvem atender pedidos do público. Esse gesto também remete outro clássico trabalho de Abramovic quando a artista dispôs seu corpo e objetos em uma galeria para que o público manipulasse como quisesse resultando em uma arma apontada para sua têmpora. Estar a disposição dos comentários e sugestões do público das redes sociais em 2020 é contar com um risco de violência em potencial.

Publicado por Patricia Canetti às 8:25 AM


setembro 2, 2020

Exposição: Como habitar o presente? Ato 2: Estamos aqui por Érika Nascimento

Exposição: Como habitar o presente? Ato 2: Estamos aqui

ÉRIKA NASCIMENTO

Ana Clara Tito, Batman Zavareze, Ivar Rocha, Jonas Arrabal, Leandra Espírito Santo, Gabriela Noujaim, Martha Niklaus, Nathan Braga, Panmela Castro, Roberta Carvalho, Simone Cupello, Talitha Rossi, Ursula Tatuz, Virgínia Di Lauro e VJ Gabiru

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Neste tempo cronometrado, em que a vida humana na Terra aparenta ter seus dias contados, estamos aqui habitando um presente possível, no desejo por dias melhores, enquanto seguimos imersos pela presença do nevoeiro que atravessamos.

Em um lugar de risco de permanência e fragilidades de nossos corpos sociais e físicos, onde o experenciar a cidade está afetado e novos códigos são estabelecidos, percebemos o mundo sendo recriado, nos restando seguir à deriva absorvidos por esta névoa traduzida por uma dinâmica confusa, onde temos medo do peso das gotículas do ar. No profundo sentimento de estranhamentos, estabelecemos movimentos fictícios para nos conectar com o mundo, tateando as fissuras desse hiato tentando nos manter vivos e ativos diante de um estado de tensão e atenção em uma sociedade doente.

Estamos aqui, diante de uma exposição que pode ser vista como a possibilidade de refletir a expansão do presente em um espaço em transição, como se vivêssemos uma dilatação no tempo, em um ritmo complexo, infinito e suspenso. Uma espécie de drama, no qual apesar da divisão em atos, há uma sucessão de quadros em movimentos com grande autonomia estrutural que leva à dispersão do tempo e dos espaços. Um paradigma de forma aberta regido pelo desejo de romper a temporalidade.

Ao passo que, neste risco de desaparecimento, idealizamos mudanças individuais e coletivas, seguimos sem respostas para as provocações projetadas no Ato 1, tornando-se urgente emancipar as estratégias de vivência e criar formas de existir, que não seja a mesma praticada por políticas de negligenciamentos. Sendo assim, como podemos imaginar o nosso lugar como habitante neste tempo? Como manter um estado de potência? Poderíamos vislumbrar até um terceiro ato, que nos transporta para uma projeção temporal, onde imaginamos um horizonte possível, com palavras de esperança lançadas na cidade, até o ponto de deslocarmos o nosso lugar de espectador e atuarmos no tempo presente-futuro.


Exhibition: How to inhabit the present? Act 2: We are here

ÉRIKA NASCIMENTO

Ana Clara Tito, Batman Zavareze, Ivar Rocha, Jonas Arrabal, Leandra Espírito Santo, Gabriela Noujaim, Martha Niklaus, Nathan Braga, Panmela Castro, Roberta Carvalho, Simone Cupello, Talitha Rossi, Ursula Tautz, Virgínia Di Lauro and VJ Gabiru

In this timed age, when human life on Earth seems to have numbered days, we are here, inhabiting a possible present and looking forward to better days, while we are still drowned by the presence of the fog that we are going through.

In a place of risk of permanence and weakness of our social and physical bodies, where the experience of life in the city is affected and new codes are established, we perceive the world as being recreated, leaving us to remain adrift and absorbed by this fog translated into a confused dynamics, where we are afraid of the air droplets’ weight. Facing a deep feeling of strangeness, we make fictional movements to connect with the world, feeling the cracks in this gap, trying to keep alive and active in the face of a state of tension and attention in a sick society.

We are here, witnessing an exhibition that can be seen as a possibility of reflecting on the expansion of the present in a space in transition, as if we were experiencing an expansion in time, in a complex, infinite and suspended rhythm. A kind of theater play, in which, despite the division into acts, there is a chain of pictures in movement with great structural autonomy that leads to the dispersion of time and spaces. An open paradigm governed by the urge to break temporality.

Meanwhile, at the risk of disappearance, we idealize individual and collective changes, we go on without answers to the issues raised in Act 1, making it urgent to emancipate living strategies and to create ways of existing that differ from the one rooted in policies of neglect. So, how can we imagine our place as inhabitants of this time? How to maintain a state of potency? We might even contemplate a third act, which would take us to a temporal projection, where we would imagine a possible horizon, with words of hope being heard in the city, to the point where we forsake our place as spectators and act in the present-future time.

Publicado por Patricia Canetti às 8:46 AM


setembro 1, 2020

O Museu de Imagens do Inconsciente na bb11 por Lisette Lagnado

O Museu de Imagens do Inconsciente na bb11

Lisette Lagnado, 23 de agosto de 2020

Do MAOC, Franco da Rocha, São Paulo
Aurora Cursino dos Santos
Masayo Seta
Ubirajara Ferreira Braga
Maria Aparecida Dias

Do MII, Rio de Janeiro
Adelina Gomes
Carlos Pertuis

O escopo curatorial da 11ª Bienal de Berlin (adiada devido à pandemia da Covid-19 para o período de 05 de setembro – 01 de novembro de 2020) procurou examinar vários sentidos que derivam da noção de “experiência”, desenvolvida pelo artista e arquiteto do modernismo antropófago, Flávio de Carvalho (1899-1973).

Desde setembro de 2019, ou seja, um ano antes da data de inauguração, que coincide com o centenário da fundação do Berlin Psychoanalytic Institut, a presente edição da Bienal compartilhou seu processo de pesquisa ao público local por meio de exposições em escala modesta, rodas de conversa, performances e workshop, na sede que alugou no bairro de Wedding. “The Crack Begins Within” [A rachadura inicia-se por dentro] é o título do epílogo, resultante de três momentos anteriores, as “exp. 1”, “exp. 2” e “exp. 3”.

Ao longo desses meses, reapareceram algumas temáticas que haviam pautado as atividades do Clube dos Artistas Modernos (CAM), espaço experimental que teve curta duração (1932-33) em São Paulo, cuja programação acolheu uma mostra de gravuras da artista alemã Käthe Kollwitz e o “Mês das crianças e dos loucos”. O CAM foi brutalmente fechado pela polícia “por atentado aos bons costumes” depois da estreia da peça O Bailado do Deus Morto, com figurinos, iluminação e cenografia do próprio Flávio de Carvalho. Junto com o psiquiatra Dr. Osório Cesar, o artista vinha desenvolvendo uma troca pioneira, no Brasil, quanto à percepção estética da produção visual de internos e sua inserção em museus de arte.

A curadoria desta edição da Bienal de Berlim apresenta obras do Museu de Arte Osório César, Franco da Rocha, e do Museu de Imagens do Inconsciente, Rio de Janeiro, chamando a atenção, em tempos distópicos, para a questão da saúde mental e pública, de um estado de vulnerabilidade vivenciado a nível global. Importante frisar o caráter inédito, para um evento de arte contemporânea, de reunir, também no Martin Gropius Bau, peças do Museo de la Solidaridad Salvador Allende (MSSA, Chile). Comum entre os doentes, o sentimento de “alienação”, de sentir-se “alheio”, “estranho”, “fora” de uma realidade, será encontrado também na experiência do exílio político, que levou chilenos a sair do país após o golpe militar de 1973. Embora com trajetórias incomparáveis, essas três instituições juntas representam “pequenas” vitórias decorrentes de esforços de indivíduos, a maior parte sem reconhecimento, que se destacam por uma resistência contra aparatos de repressão, sejam eles de natureza política ou baseados em premissas científicas (lobotomia).

Sabendo que as “experiências” de Flávio de Carvalho foram contemporâneas das primeiras publicações de psicologia e antropologia, disciplinas então incipientes, esse ponto de partida serviu de álibi para abarcar conflitos que atravessam os séculos até hoje, notadamente os nacionalismos e fanatismos de massa, e, mais uma vez na história, questionar a validade do conceito de razão.

A luta antimanicomial da Dra. Nise da Silveira, que se traduziu na prática do afeto e do calor humano reinante nos ateliês de atividades expressivas, permitiu amenizar a dor psíquica do esquizofrênico, e nos revela a extraordinária potência da criação a despeito de pertencer a vidas danificadas. A 11ª Bienal de Berlim convidou outras iniciativas engajadas na “mudança dos tristes lugares que são os hospitais psiquiátricos”, notadamente “Debajo del sombrero” (www.debajodelsombrero.org), “La rara troupe” (raraweb.org), ou, ainda, o coletivo “Feminist Health Care Research Group” (www.feministische-recherchegruppe.org), cada qual com uma plataforma distinta, reunindo artistas em serviços de cuidados.

Publicado por Patricia Canetti às 8:23 AM


julho 26, 2020

Como habitar o presente? Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado por Érika Nascimento

Como habitar o presente?
Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado

ÉRIKA NASCIMENTO

(…) existem três presentes, o presente do passado, que é a memória, o presente do futuro, que é a expectativa, o presente do presente, que é a intuição (ou a atenção). Este triplo presente é o princípio organizador da temporalidade (...)
(RICOEUR, 2000, p. 360)

Esta é uma exposição, dividida em dois atos, que acontece em um mundo pandêmico onde a noção de tempo, passado, presente e futuro parece estar dilatada. Neste sentido, convido a pensarmos em uma distensão do tempo, onde habitamos três presentes: presente do passado (memória), presente do presente (atenção) e o presente do futuro (expectativa).

Nesta lacuna temporal, estamos longe de encontrar respostas. Resta-nos lançar provocações de como estar neste entre-lugar. Assim, abrimos espaços para entrar no primeiro ato, com nossos corpos suspensos neste presente fragmentado, lutando pela existência da humanidade como se o corpo estivesse deslocado da matéria e flutuasse pelo fluxo dos rios. Como diz Mia Couto, “o rio é como o tempo!”. Como se neste lugar de suspensão pairasse um nevoeiro, onde a obscuridade desta densa neblina na nossa retina nos impedisse de enxergar até sermos transportados para uma cidade esvaziada de vidas.

Estamos diante de um tempo hiperconectado e distópico, que sofre tropeços e acidentes, que pode se estilhaçar. Nesta aporia de ser-no-tempo, que a nossa visão de um presente possível parece estar embaçada, é como se entrássemos noutro estágio de vida, outro mundo, onde somos espectadores atuantes em um tempo “fora de controle”, em um planeta que nos alerta para os impactos de uma terra cansada, entrando em colapso, enquanto estamos imersos em anseios, solidão, mortes, negacionismos, videochamadas, zoom, emojis, likes, redes sociais, memes, algoritmos, fakes news e infinitas lives.

Você está diante de uma exposição-projeto, no sentido de projeção para novos mundos possíveis. Em uma época que o vírus Sars Covid-19 afasta nossos corpos e impõe limites e barreiras no cotidiano, nos colocando em um estado de angústia e impotência, evidenciando grandes abismos sociais já existentes, como a precarização da vida, pois as condições impostas pelo vírus não são as mesmas para todos que vivem neste lugar chamado Brasil.

Ao mesmo tempo em que tentamos lidar com os impactos do vírus, somos transportados para uma desaceleração temporal. Quase que em uma ficção, entramos em um lugar de descompasso com a velocidade de informações que recebemos diariamente através das redes sociais, sites e whatsapp. Com a impossibilidade da experiência corpórea, nos adaptamos às formas de estar no mundo, em um território digital, onde estamos sempre online, através das telas dos celulares. No contra-exemplo da velocidade e disponibilidade da cultura da imagem, somos afetados por outras condições de interações e mergulhamos em uma tentativa de reconexão com o mundo.

Neste momento de incertezas, onde esperamos por curas científicas e, até mesmo espirituais, ativamos dispositivos imaginários como experienciar sonhos e rupturas de compartilhar o presente e imaginar o futuro. Seria possível deglutir a memória e fabricar sonhos? Um chamado para acordarmos para “(…) reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia” (KRENAK, 2019).

É preciso encontrar um novo ritmo para o tempo que costumávamos viver, costurar novos mundos possíveis para uma sociedade mais justa, e confiar na potência do amor no intuito de criar formas de reexistir, buscar por estratégias, estranhamentos, horizontes e preenchimentos de como habitar o presente. Uma reconciliação com o tempo. Compartilhar e expandir este tríplice do eterno presente e criar um presente-futuro possível, deste que está em transição, no limiar, no centro da nossa existência.

Érika Nascimento

Como habitar o presente? Ato 1 – É tudo nevoeiro codificado, Simone Cadinelli Arte Contemporânea - Vitrine, Rio de Janeiro, RJ - 20/07/2020 a 22/08/2020

Publicado por Patricia Canetti às 12:23 PM


junho 18, 2020

A Esfera Imaginal de Alex Cerveny por Rodrigo Petronio

A Esfera Imaginal de Alex Cerveny

RODRIGO PETRONIO

Desde a Antiguidade, artistas e preceptistas se preocupam com duas formas de imitação: a icástica (física) e a fantástica (metafísica). Como alternativa à hegemonia da pintura icástica greco-latina, o historiador de arte Jurgis Baltrušaitis (1903-1988) identificou na arte medieval um dos pontos culminantes do fantástico. Não as catedrais, a retidão românica, as ogivas e os vitrais. Mas as iluminuras, as gárgulas, os livros de horas, a planimetria, as anamorfoses, os bestiários, as tanatologias, o mundo às avessas, a carnavalização.

Baseada em premissas metafísicas, a fantasia atravessa ordens distintas de realidade, enaltece a analogia, gira a grande cadeia dos seres e joga com o cosmos, em um louvor às metamorfoses. Não se preocupa em representar a natureza. Preocupa-se em representar o continuum da natureza. Os animais e os minerais, os vegetais e os humanos, os seres animados e os inanimados, o objetivo e o subjetivo: todas as substâncias participam umas das outras e se interpenetram neste drama divino.

A partir dos séculos XVI e XVII, com a ascensão da perspectiva, do ponto cêntrico albertiano e daquilo que Marcel Duchamp definiu como arte retiniana, começa um novo ciclo hegemônico do icástico. O fantástico, denegado, migra para os tratados de alquimia e de magia, os livros de rebus e a hieroglifilia, as empresas e os emblemas, as teofanias heterodoxas, os labirintos de conceitos, os enigmas e os tratados de hermetismo, os gabinetes de curiosidades, as ilustrações naturalistas de uma fauna e de uma flora inexistentes, os relatos dos viajantes.

Nessa mesma época ocorrem dois fatos decisivos: a emergência do racionalismo e a conquista da América. Por isso, alguns autores identificam aqui um paradoxo fundamental. Enquanto a Europa coroa a cisão cartesiana entre sujeito e objeto, alicerce do projeto expansionista, a América se dedica a um movimento de contracolonização. Para tanto, reorganiza os signos flutuantes da fantasia e expande as fronteiras do imaginário, em poderosas operações de anacronismo deliberado (Didi-Huberman).

Na esteira da grande arte dos séculos XX e XXI, brasileira e mundial, a obra de Alex Cerveny se baseia nestes dois movimentos complementares: navega na contracorrente dessa fratura entre sujeito e objeto e desbrava territórios imaginários livres, potencializados pela herança americana e pelo atavismo de uma fantasia robusta.

Em Todos os Lugares, temos uma curadoria preciosa tanto da variedade formal quanto da riqueza imaginativa de seu universo. A exposição da Casa Triângulo abrange aspectos e fases da obra como um todo. O livro homônimo, publicado pela editora Circuito, concentra-se nas imagens e nas descrições de cidades ao redor do mundo visitadas pelo artista, intenso viajante. São visões complementares sobre o universo visual de Cerveny. Ambas abordam a multiplicidade de camadas e os caminhos apresentados por esta obra singular e multifacetada.

Os lugares de Cerveny são entrelugares: espaços de intersecção. O grande campo vivo desses lugares-imagens relacionais é o corpo. Entendido como entidade fantástica, o corpo é orgânico, mas não biológico. É uma esfera animista de animação. O ponto privilegiado onde os seres da physis se reúnem e se dispersam, em movimentos de expansão e contração: o editus e o reditus de que falam os místicos.

Ao enfatizar a figuração e a planimetria metafísica, desprezadas por muitos modernos, a obra de Cerveny ganha duplamente. Primeiro porque se vê livre para transgredir os pressupostos da ilusão realista e tridimensional. Segundo porque passa a atuar, de saída, em um espaço sem fronteiras, sem bordas e sem limites. Habita a identidade absoluta entre real e imaginário. A partir do místico sufi medieval Ibn ‘Arabī, podemos chamar essa esfera de mundo imaginal (mundus imaginalis).

A variedade de técnicas, suportes e materiais da obra de Cerveny é admirável e singular na arte contemporânea. Parte da colagem, da assemblage, dos palimpsestos, das esculturas e das intervenções, passa pelos diversos tipos de gravura, incluindo clichê em vidro (cliché verre), técnica francesa rara do século XIX, e chega à pintura, à aquarela, à ilustração (Darwin, Boccaccio, Collodi) e ao desenho propriamente dito.

Nesse sentido, o desenho pode ser visto como fio condutor do pensamento-imagem de Cerveny, não por acaso um exímio desenhista. Não o desenho entendido apenas como técnica, mas a linha explorada como conceito. Diferente do senso comum, a linearidade não é uma cesura, um corte, uma contenção. A linha é o prolongamento do olhar em direção ao indeterminado e ao inextenso. Em uma palavra: em direção ao infinito.

Essa zona de indiscernibilidade linear se encontra no âmago desta obra. E se manifesta em uma de suas principais matrizes formais: a relação imagem-letra. Se as palavras e as coisas, os signos e seus referentes, a linguagem e o mundo nunca se romperam pela fratura aberta entre sujeito e objeto, um fino fio de ouro de Homero ( aurea catena Homeri) conecta letra e natureza, texto e mundo, significantes e imagens, imagens e escrita.

Por isso, corpos se fundem a letras. Letras emolduram o sexo. O umbigo aflora em um R. Um H divide o corpo de um humano. Um pênis é englobado em pleno gozo por um Q. Como queria Derrida, a escrita é anterior à fala porque a letra (gramma) é linguagem. Mas a escritura também é grama: as folhas simples da relva em que pisamos. A natureza é um livro anônimo. O mundo, uma assinatura infinita das coisas.

Esta cosmologia singular de Cerveny transborda as demarcações constitutivas do texto e da textura, do grâmico e do gráfico, da granulação e da frase, da semântica e da cor. Por isso sua obra consegue operar modulações entre elementos aparentemente tão distantes quanto versos dos Lusíadas de Camões, duas gravuras de Cornelius de Bruyn (c. 1715), Aleppo e Jafa, um panfleto da revolução cultural chinesa e referências a telenovelas, a canções populares, ao cinema, à cultura pop e sobretudo aos signos circenses, um dos esteios e das principais inspirações desta arte do imaginal em estado puro.

Jung definiu a alquimia como a linguagem do inconsciente. Cerveny define o inconsciente como a linguagem da arte. Por extensão, arte, inconsciente e alquimia têm em comum o fato de serem operações anímicas de pura transferência. Tudo nesses regimes é derivado, deslocado, flutuante. Não há sentido próprio. Há apenas significantes apropriados. A revelação profana da alquimia visual de Cerveny consiste nisso: uma misteriosa transmutação dos seres, entre a natureza e a linguagem, entre a letra e a figura, do nigredo ao albedo, rumo a uma improvável transfiguração.

Rodrigo Petronio, novembro 2019

Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, autor e organizador de diversos livros. Professor titular da FAAP e pesquisador de pós-doutorado no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD|PUC-SP).

Alex Cerveny [São Paulo, Brazil, 1963. Vive e trabalha em [Lives and works in] São Paulo, Brazil]. Exposições individuais selecionadas [Selected solo exhibitions]: Todos os Lugares [All the Places], Casa Triângulo, São Paulo, Brazil; Palimpsesto, uma retrospectiva de sua obra gráfica no [a retrospective of his graphic work at] Museu Lasar Segall, São Paulo, Brazil (2019); Glossário dos Nomes Próprios, Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brazil (2015); Casa Triângulo, São Paulo, Brazil (2015) e [and] III Mostra do Programa de Exposições, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, Brazil (2012). Exposições coletivas selecionadas [Selected group exhibitions]: Nous Les Arbres, Fondation Cartier pour l'Art Contemporain, curadoria de [curated by] Bruce Albert, Paris, France (2019); Da Tradição à Experimentação, Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre, Brazil (2019); Queermuseu - cartografias da diferença na arte brasileira, curadoria de [curated by] Gaudêncio Fidelis, Parque Lage, Rio de Janeiro, Brazil (2018); Homo Ludens, curadoria de [curated by] Ricardo Sardenberg, Galeria Luisa Strina, São Paulo, Brazil (2016); Os Muitos e o Um, curadoria de [curated by] Robert Storr, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brazil (2016); Clube de Gravuras: 30 Anos, curadoria de [curated by] Cauê Alves, Museu de Arte Moderna, São Paulo, Brazil (2016); En y entre geografias, Museo de Arte Moderno de Medellín, curadoria de [curated by] Emiliano Valdes, Medellín, Colômbia (2015); Figura Humana, curadoria de [curated by] Raphael Fonseca, Caixa Cultural, Rio de Janeiro, Brazil (2014); 30ª Bienal de Artes Gráficas de Ljubljana, Ljubljana, Slovenia (2013); Trienal Poli/Gráfica de San Juan, San Juan, Puerto Rico (2012).

Publicado por Patricia Canetti às 3:03 PM