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outubro 15, 2020

Enxertia - Coleções por Ariana Nuala

O tocar é uma ciência profunda, talvez uma máxima sobre complexidades infinitas, assim como a dimensão de um buraco negro que altera tempo-espaço a partir de sua emissão de energia.

Seria possível sentir a força que nos agrupa?

Há milênios comunidades agrícolas observam as plantas dos mais variados tipos, esses organismos irradiantes e prismáticos espelham um comportamento de vida tornando-se saberes sobre as relações em coletividade.

Tecnologias que estão ligadas aos processos de transmutação e vida/morte são criadas nesta absorção da não distinção ontológica entre cultura e natureza. A compreensão sobre aquilo que muda existe em uma temporalidade anterior ao da ação exploratória sustentada por um cientificismo regulador das espécies.

Assim seguimos com Enxertia, uma ferramenta que reconhece as estruturas próprias de cada corpo-planta, e que, através de um agrupamento, consegue ser estratégia de manutenção da vida e também de uma conversa sobre entrelaçamentos. Um sistema de apoio em um acordo mútuo que podem gerar corpos híbridos e complexos.

Cultivar enxertos enquanto motrizes práticas-metafóricas para auto-organização de 21 artistas em parceria com a Galeria Amparo 60, nos desloca para um fortalecimento de uma rede que deseja alimentar construções, e identifica as responsabilidades dentre as distintas esferas e suas pluralidades.

AS COLEÇÕES

1. Iagor Peres | Clara Moreira | José Paulo:

Sugerindo uma experiência mais intrínseca entre materialidades, este conjunto de trabalhos observa os agenciamentos possíveis entre cada elemento. A matéria se sobressai enquanto discurso e sua condução de energia que é proporcionada em cada fricção, densidade e camada equivale a um ato no espaço. Um reagente que é conduzido por corpos distintos, e que não se limita apenas a movimentos humanos. As dimensões e as disposições das estruturas são motes para investigação, pois como transformar o que sustenta um corpo? As forças visíveis e invisíveis se apresentam na irradiação destas matérias mediando suas relações com os meios e os espaços. Assim, organizam-se entendendo que não há uma ordem classificatória que distingue e separa essas matérias, mas sim uma rede complexa que as compreendem enquanto esferas relacionais.

3. biarritzzz | Juliana Lapa | Ramsés Marçal:

Nesta série de imagens acompanhamos corpos atentos em uma investigação latente que procura refletir sobre os espaços de trauma e de feridas. Há nesse exercício uma busca que caminha para um ato transmutável. A dor gera um motim para um processo em andamento, que não é inerte, mas sim profundo, misterioso e de força. Os trabalhos aludem a uma inversão de pontos que se tornaram comuns em uma medicina clássica cientificista, há um escape para uma exposição daquilo que se tornou tabu, que parece obsceno em uma sociedade higienista. Em ritmos distintos pode-se perceber a anunciação de um rasgo que as imagens propõem sobre um lugar aparentemente inabalável. Através do sangue, da negação ao fármaco alopático como via única e também da mão enquanto gesto de poder e de cura, estas pesquisas reelaboram uma própria definição de saúde.

3. Mariana de Matos | Caetano Costa | Marie Carangi:

Há um desejo que se presentifica nas 03 obras que compõem este eixo. Cada artista em sua produção desmonta padrões que comumente acabam se tornando regras de uma estrutura rígida na construção de um território baseado em silenciamentos de algumas culturas e na hegemonia de outras. Tanto o léxico, quanto os símbolos patrióticos aparecem enquanto material de estudo para um redesenho da própria pátria e de sua língua, um exercício de imaginação e observação das identidades que escapam ao normativo. As coletividades se anunciam enquanto corpos disruptivos diante daquilo que não às representam; nutrindo, assim, campos de criação.

4. Lourival Cuquinha | Cristiano Lenhardt | Francisco Baccaro:

As relações entre conquista e território ainda não se findaram. O esvoaçar de uma bandeira no alto de uma haste significa a presença de alguém, é um estado impositivo, uma estratégia de destaque. Sem dúvida, se transforma numa performance a partir do próprio anúncio sem a necessidade do corpo presente, pois a demarcação enquanto símbolo já está firmada. Assim, como uma escrita em uma parede que indica de maneira pública um registro de uma posição política. Nestes contextos discutimos como habitamos espaços digitais e físicos e como agimos em uma disputa de relações. Há uma aproximação da figura do cavaleiro que abre caminho para passagens de outrens, uma etapa anterior à conquista ou a derrota, uma corporificação que muda paisagens e como um compromisso organiza variadas formas de saberes. Porém, existe um exercício de manutenção de corpos que estão em evidência.. Como então estão sendo enunciadas as dissidências para uma não permanência de um agir imperialista?

5. Lia Letícia | Izidorio Cavalcanti | Isabela Stampanoni:

Uma das maneiras que a memória se encontra enquanto espaço palpável é a partir da existência de rastros como pistas diante as marcas dos gestos, peso e forma, de um corpo. Impressões que registram manuseios, revelam narrativas e escolhas de caminhos que foram percorridos. Aqui, estes trabalhos rompem com uma passagem de tempo histórica, e são ativados cada vez que são reconhecidos ou vistos. A cada proposta artística é percebida uma tomada de decisão frente às relações entre as materialidades e seus significados em contextos expostos a colonialidade. Assim, são retirados de seus lugares comuns objetos e corpo para anunciar histórias ainda não contadas. A mão ocupa todo este fazer, ela é o vestígio da ação, é a partir de sua interferência que percebemos as diferenças entre o antes o depois. A fabulação de novos contos por retomada.

6. K. Iara | Josafá Neves | Célio Braga:

A maneira mais antiga de produzir mudanças está na criação de tecnologias, engana-se quem interpreta que estas são apenas advindas de processos maquínicos modernos e seus desdobramentos. A imaginação é uma das maiores tecnologias, enquanto ação de reestruturação de códigos, um vislumbre de mundos ainda não vistos que estão por emergir. Milenarmente contam-se itans, histórias iorubanas sobre os orixás, que narram o usos de ferramentas por essas divindades enquanto agenciadoras de conflitos políticos e de ordens mais afetivas. Nestes contos as tecnologias se apresentam enquanto presenças não palpáveis e também como ferramentas de trabalho, a exemplo de espadas e facas. As contradições em seus usos existem, porém quando a matéria-prima é rearticulada ou o pensamento é redesenhado - o por vir já está em andamento. Enquanto proposta, este eixo é um contínuo ciclo de ressignificações destas ferramentas, uma germinação necessária ao imaginário coletivo.

7. Ramon Vieitez | Fefa Lins | Fernando Augusto:

Acompanhamos olhares enquanto dialogamos com estes trabalhos - há uma opacidade entre os retratos. Neste momento existe uma percepção daquilo que é exposto, um ponto que conecta corpos virtuais com corpos físicos - de identidades e trajetórias próprias. Aqui, a noção de virtual se entrelaça numa transposição com aquilo que se apresenta enquanto corpo territorializado, pois as duas imagens também são reféns culturalmente de observações e especulações. Há um problema crônico na ideia de outridade, ela carrega aspectos de exclusão e de hierarquias baseadas no entendimento sobre o outro. Até que ponto estamos dispostos a abandonar esta premissa que passa pelo desejo de capturar e determinar a imagem de alguém?

Publicado por Patricia Canetti às 10:46 AM


outubro 10, 2020

Como habitar o presente? Ato 3: Antecipar o futuro por Érika Nascimento

Esta exposição marca um terceiro ato, até então existente apenas no campo imaginário de reflexão de um estado de esperança em uma possível distensão do tempo presente, para sinalizar o momento em que desejamos: antecipar o futuro.

Neste lugar de expectativa e com a finalização desta tríplice temporal– “É tudo nevoeiro codificado”, “Estamos aqui” e “Antecipar o futuro” – habitamos um presente-futuro em que seja possível criar rupturas, compartilhar sonhos e reconhecer-se com e no outro.

Os trabalhos que habitam esta exposição tensionam a intangibilidade do futuro, a hierarquização sócio-virtual, a fragmentação e ativação da memória, o risco da permanência dos corpos na sociedade e as estratégias de reexistir no presente.

A construção da exposição em atos simboliza um rito de passagem que atravessamos, não seguindo uma ordem cronológica linear, mas, sim um prolongamento da temporalidade onde o presente está conectado ao passado e ao futuro, e a um estado de potência, no sentido de se permitir ser afetado e afetar o outro. Esses atos podem ser lidos como um contínuo de intensidades que permitam criar cartografias de desejos, uma linha de fuga, a invenção de novas possibilidades de vida.

Publicado por Patricia Canetti às 6:08 PM


Dirnei Prates - Filme-fátuo por Mario Gioia

Filme-fátuo

MARIO GIOIA

As imagens que formam o conjunto de Filme-fátuo, primeira individual de Dirnei Prates em São Paulo e a quarta edição do projeto Perímetros, traçam, entre a aguda urgência e o exercício contemplativo, um percurso vigoroso, não linear e permeável ao risco. O caráter multidisciplinar de sua obra faz com que filmes, vídeos, fotografias, instalações, livros de artista e objetos, entre outros, transitem atualmente por meio de estratégias conectadas a um espírito de tempo mais combativo, de um agora algo perplexo, ou focadas nas transformações mínimas e cotidianas pelas quais todos passamos e que usualmente nos escapam de visadas mais atentas.

Nessa jornada construída em Filme-fátuo certamente há pedidos de socorro estridentes, átimos-passagens de desespero, contudo o recorte também se apresenta por procedimentos, abordagens e corpus de obra menos ostensivos, em que a reflexão sobre as peças reunidas e observadas coletivamente nos dão um certo amargor, uma sensação de finitude, um sentido de preservação frente a um desastre futuro ou à porta do nosso hoje. O público se situa entre perda e permanência, vestígio e completude, grafismos de cavernas e bombardeios virtuais. Ao selecionar, ver, ler e sentir os trabalhos, trocar ideias, debruçar-se sobre a escrita, me vieram instantes de variadas linguagens e configurações - desde um formigueiro em close por Kiarostami, a Quarta-Feira de Cinzas de Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander, um chuveiro aterrorizante a mesclar Martin Arnold e Hitchcock, a poética analógica de Tacita Dean, os experimentos amadores-mágicos de um cinema ainda a florescer, um epílogo de Spike Lee, polaróides de Tarkovski, fotografias em chamas de Hollis Frampton, produções em menor escala de Cildo.

E o título. Neologismo que se refere a fogo-fátuo, obviamente. O fenômeno que possibilita ver luzes originárias de material orgânico em decomposição provocou tal criação etimológica. Fortalece o aspecto material da utilização de filme - matéria-prima, lembre-se, que possibilitou a emergência do cinema industrial e que hoje vem sendo abandonado pela prevalência do paradigma digital -, tão bem escolhido, manipulado e reinventado na produção do artista gaúcho. E o fogo do termo original que hoje invade e arrasa, não apenas no plano simbólico, a nossa psique. Pantanal, Amazônia, Museu Nacional. Não faz muito tempo, MAM Rio. E que perturba qualquer profissional ligado ao audiovisual frente à desalentadora situação da Cinemateca Brasileira, com seus negativos, rolos, nitratos etc em triste desamparo.

Inicialmente, há um vídeo na entrada do espaço expositivo do Adelina, Pipare, cujo significado em iorubá se refere a apagamento. Formigas saem de cena em um plano fixo que ganha trilha de violência, com sons de tiros, bombas, tapas. Dialoga com Frátria, que se fundamenta em fotografias de imigrantes angolanos dispostas em espaços comuns do instituto, esvaziadas por ação de fita adesiva e que resultam em silhuetas despidas de identidade a personificar a invisibilidade social. Já em A luz não se fez, os diminutos rótulos de caixas de fósforo representando uma árvore, colocados em linha, terminam por desenhar uma paisagem calcinada (novamente a figura do fogo).

Uma das paredes da sala expositiva principal se ancora em uma perspectiva de fragmento, em que há desde um corpo prenhe de desejo (as fotografias que estiveram em mostra anterior do artista, A noite barroca, na Galeria Ecarta, Porto Alegre, 2016) até uma aparição disforme ou do reino do onírico (Peixe de três olhos), uma irônica mirada sobre a ordenação e a normatização, entre outros âmbitos (Zoológico), sem esquecer a face da rebeldia (Revolta) e da submissão (Delilah). Nesses últimos, há uma apropriação dupla de fotogramas cinematográficos (de Encouraçado Potemkin, 1925, e Imitação da Vida, 1934) que, ao serem retrabalhados, distendidos e esgarçados pelo artista, nos aproximam de uma leitura sobre poder, visibilidade e apagamento, entre outros vetores. Pensando no fotográfico como um conceito que transborda o meio e o suporte, o pensador francês François Soulages nos sintetiza: “(...) Em razão de sua própria natureza, a fotografia pertence à esfera de uma estética do fragmento, do dividido e do parcelar, de uma estética do kairós e de uma estética do ponto de vista, do particular e do singular: então, o irreversível e a finitude a governam” [1].

Dois trabalhos deste 2020 exemplificam a habilidade de Dirnei em tratar inquietos estados de espírito, pontuados por incômodos mais subjetivos e psicológicos ou por danos mais concretos do dia a dia, em trabalhos com distintas formalizações e mesmo poder de impacto. Abismo é uma instalação em que a catalogação de seres vivos que vivem nas regiões abissais marítimas ganha um curto-circuito entre iconografias e significados que, por meio de pequenos e fugazes instantes de luz, acompanhados de possíveis leituras, nos lançam em uma rede ruidosa, inútil e distante de qualquer precisão. O filme convertido para vídeo Ontem eu salvei um peixe traz imagens precárias e fugidias, que podem remeter a memórias e reminiscências, conectadas a narrações de episódios banais. Por fim, o tom de melancolia e algum mal-estar se estabelece, não sem levar-nos a rir nervosamente ou a pensamentos de empatia e (falta de) compaixão ou a algo longe disso. Uma espécie de teaser da obra do artista, que foge do previsível e opta por uma poética longe do simplismo, da facilidade e do estrito.

Mario Gioia, setembro de 2020

[1] SOULAGES, François. Estética da Fotografia – Perda e Permanência. São Paulo, Senac SP, 2010, p. 347.

Publicado por Patricia Canetti às 10:26 AM


setembro 3, 2020

1monthroy por Marcelo Amorim

1MONTH-ROY

MARCELO AMORIM

Nos anos 2000 um interesse a respeito das relações entre e arte e tecnologia dominou as discussões no campo das artes visuais. Parecia um horizonte cheio de possibilidades a ser explorado e muitos artistas se dedicaram a pensar nesse presente/futuro hipotético em que as relações mediadas por tecnologia dariam também espaço para os criadores atuarem.

Eu mesmo tive a oportunidade de trabalhar em um museu que abrigou diversas exposições importantes sobre o assunto e dentro de um curso de pós-graduação em uma universidade me propus a pesquisar as relações entre performance e mídias interativas. Tive também o prazer de ser orientado pelo artista e pesquisador Lucio Agra nesse processo que para mim foi muito rico. Naquele momento me voltei para mídias que propõem situações dialógicas, sugerem comunidade, jogos e relações. Algo que chamei de "Mídias relacionais”. Ali eu trazia como referência a cena da arte relacional como descrita pelo curador e crítico de arte Nicolas Bourriaud e especialmente o trabalho da artista Lygia Clark com os objetos relacionais.

A questão é que décadas atrás tudo era muito diferente. Algo simples como gravar um vídeo, editar e postar na internet era muito trabalhoso. Transmitir uma performance ao vivo envolvia verdadeiros malabarismos. Um outro ponto era nossa ingenuidade. Antes da popularização das tecnologias, as redes nos pareciam um lugar prenhe de possibilidades de trocas que poderiam acontecer em um território livre. Tudo era muito hipotético e a tecnologia ainda não havia aportado completamente. Outra questão foi essa virada de maré. Não imaginávamos que as redes se tornariam esse lugar saturado de vigilância, narcisismo e fascismo. Parecia que algo mais poderia brotar dessa arena.

Eis que décadas depois um vírus nos obriga a ficar dentro de nossas casas e essas possibilidades de interação mediada, que já tinham perdido seu encanto e se tornado banais, tornam-se a única possibilidade de troca para alguns de nós. No campo das artes, onde tudo envolve encontro, houve um cancelamento generalizado de atividades fazendo com que seus agentes passassem a reconsiderar a exposição, venda e circulação de informações sobre arte pelo meio virtual uma opção atraente.

Até agora vemos como padrão dois registros: de um lado exposições virtuais tentando suprir o lugar da visitação e as lives no lugar dos bate-papos, debates. Essa tentativa de transposição do cubo branco para um ambiente virtual, uma simulação de percurso como uma realidade virtual, uma sensação tridimensional para arquivo em duas dimensões parece ter sido um primeiro objetivo. Os chamados viewing rooms, salas para ver, foram a solução que as feiras de arte deram para seus projetos comerciais e isso se tornou um modelo para outras iniciativas. Por outro lado as redes sociais de museus, galerias e outros espaços com perfil mais institucional se tornaram saturadas de lives, conversas virtuais transmitidas ao vivo entre seus agentes como uma maneira de se fazer presente e seguir em frente com alguma programação e circulação de conteúdo.

Da maneira que eu vejo a tragédia da pandemia desencadeou um outro nível nesse jogo de virtualidades. Chegamos ao momento do streaming, da transmissão ao vivo. Plataformas de streaming como Twitch e Bigo Live, sugerem uma comunidade de comunicadores especializados que tem suas próprias audiências e estão disponíveis para o diálogo em tempo real, substituindo a interação perdida da vida cotidiana. Chama a atenção como atividades banais são desempenhadas diante da câmera. Compartilhar telas jogando videogame ou assistindo um show da tv, maquiar-se ou simplesmente encarar a câmera e conversar com as caixas de diálogo tem uma incrível demanda de atenção.

Pensei então em retornar àquele conceito de "Mídias relacionais" que eu havia pensado anos atrás e testá-lo hoje em dia nesse novo contexto tão problemático. Foi aí que eu propus o programa Sala de Acontecimentos no Fonte, espaço de ateliês coletivos e residências artísticas. A ideia era oferecer ao artista, pelo período de um mês, um espaço físico generoso para que algum trabalho pudesse ser desenvolvido e já de antemão sendo pensado para sua circulação através das redes. Lembrei-me também da ideia de videoperformance e fotoperformance, conceito criado para abarcar trabalhos de performance pensados para render nos suportes da fotografia e video e tive ideia de começar essa exploração com artistas da performance. Artistas cujo trabalho já são em certa medida imaterial e que sempre contam com o amparo do registro em vídeo e foto para relatar suas ideias. Se de um lado temos as "salas para ver” como seria a criação de uma “sala para acontecer”? Convidei o artista Carlos Monroy que já possui uma grande trajetória de performances realizadas em diversos espaços institucionais mas que também já lançou mão do uso de telefones e outros meios interativos em suas criações.

Carlos Monroy aceitou o convite e propôs 1monthroy, título que faz referência ao período de um mês em que ele vai passar a morar no espaço expositivo com câmeras ligadas em tempo real. A cada dia ele fará posts sobre seu processo e transmissões ao vivo criando circunstâncias de diálogo com o público. Grande parte desse processo será a experimentação com plataformas de redes sociais já estabelecidas. Em nossas conversas relembramos performances já clássicas em que artistas se propuseram a habitar o espaço expositivo como quando Joseph Beuys se trancou com um coiote na peça I like America and America likes me (1974), ou Marina Abramovic na obra The house with the ocean view (2002) e também as experiências em vídeo de Bruce Naumann em seu ateliê. O artista que pesquisa ideia de re-formance, a possibilidade de se refazer performances à luz do contexto atual, faz referências a tais artistas canônicos que também se dispuseram a habitar o cubo branco adicionando camadas de ironia e o ponto de vista latino-americano ao retransmitir aulas de danças e ritmos populares.

A ação como um todo se inicia com a pergunta “Quer que eu faça o quê?” (assista a live) uma das frases com que o presidente Jair Bolsonaro respondeu a imprensa que questionava sobre medidas para o controle da pandemia. Nesse caso a referência é a performer e amiga pessoal do artista Rebecca Nagle e seus trabalhos que envolvem atender pedidos do público. Esse gesto também remete outro clássico trabalho de Abramovic quando a artista dispôs seu corpo e objetos em uma galeria para que o público manipulasse como quisesse resultando em uma arma apontada para sua têmpora. Estar a disposição dos comentários e sugestões do público das redes sociais em 2020 é contar com um risco de violência em potencial.

Publicado por Patricia Canetti às 8:25 AM


setembro 2, 2020

Exposição: Como habitar o presente? Ato 2: Estamos aqui por Érika Nascimento

Exposição: Como habitar o presente? Ato 2: Estamos aqui

ÉRIKA NASCIMENTO

Ana Clara Tito, Batman Zavareze, Ivar Rocha, Jonas Arrabal, Leandra Espírito Santo, Gabriela Noujaim, Martha Niklaus, Nathan Braga, Panmela Castro, Roberta Carvalho, Simone Cupello, Talitha Rossi, Ursula Tatuz, Virgínia Di Lauro e VJ Gabiru

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Neste tempo cronometrado, em que a vida humana na Terra aparenta ter seus dias contados, estamos aqui habitando um presente possível, no desejo por dias melhores, enquanto seguimos imersos pela presença do nevoeiro que atravessamos.

Em um lugar de risco de permanência e fragilidades de nossos corpos sociais e físicos, onde o experenciar a cidade está afetado e novos códigos são estabelecidos, percebemos o mundo sendo recriado, nos restando seguir à deriva absorvidos por esta névoa traduzida por uma dinâmica confusa, onde temos medo do peso das gotículas do ar. No profundo sentimento de estranhamentos, estabelecemos movimentos fictícios para nos conectar com o mundo, tateando as fissuras desse hiato tentando nos manter vivos e ativos diante de um estado de tensão e atenção em uma sociedade doente.

Estamos aqui, diante de uma exposição que pode ser vista como a possibilidade de refletir a expansão do presente em um espaço em transição, como se vivêssemos uma dilatação no tempo, em um ritmo complexo, infinito e suspenso. Uma espécie de drama, no qual apesar da divisão em atos, há uma sucessão de quadros em movimentos com grande autonomia estrutural que leva à dispersão do tempo e dos espaços. Um paradigma de forma aberta regido pelo desejo de romper a temporalidade.

Ao passo que, neste risco de desaparecimento, idealizamos mudanças individuais e coletivas, seguimos sem respostas para as provocações projetadas no Ato 1, tornando-se urgente emancipar as estratégias de vivência e criar formas de existir, que não seja a mesma praticada por políticas de negligenciamentos. Sendo assim, como podemos imaginar o nosso lugar como habitante neste tempo? Como manter um estado de potência? Poderíamos vislumbrar até um terceiro ato, que nos transporta para uma projeção temporal, onde imaginamos um horizonte possível, com palavras de esperança lançadas na cidade, até o ponto de deslocarmos o nosso lugar de espectador e atuarmos no tempo presente-futuro.


Exhibition: How to inhabit the present? Act 2: We are here

ÉRIKA NASCIMENTO

Ana Clara Tito, Batman Zavareze, Ivar Rocha, Jonas Arrabal, Leandra Espírito Santo, Gabriela Noujaim, Martha Niklaus, Nathan Braga, Panmela Castro, Roberta Carvalho, Simone Cupello, Talitha Rossi, Ursula Tautz, Virgínia Di Lauro and VJ Gabiru

In this timed age, when human life on Earth seems to have numbered days, we are here, inhabiting a possible present and looking forward to better days, while we are still drowned by the presence of the fog that we are going through.

In a place of risk of permanence and weakness of our social and physical bodies, where the experience of life in the city is affected and new codes are established, we perceive the world as being recreated, leaving us to remain adrift and absorbed by this fog translated into a confused dynamics, where we are afraid of the air droplets’ weight. Facing a deep feeling of strangeness, we make fictional movements to connect with the world, feeling the cracks in this gap, trying to keep alive and active in the face of a state of tension and attention in a sick society.

We are here, witnessing an exhibition that can be seen as a possibility of reflecting on the expansion of the present in a space in transition, as if we were experiencing an expansion in time, in a complex, infinite and suspended rhythm. A kind of theater play, in which, despite the division into acts, there is a chain of pictures in movement with great structural autonomy that leads to the dispersion of time and spaces. An open paradigm governed by the urge to break temporality.

Meanwhile, at the risk of disappearance, we idealize individual and collective changes, we go on without answers to the issues raised in Act 1, making it urgent to emancipate living strategies and to create ways of existing that differ from the one rooted in policies of neglect. So, how can we imagine our place as inhabitants of this time? How to maintain a state of potency? We might even contemplate a third act, which would take us to a temporal projection, where we would imagine a possible horizon, with words of hope being heard in the city, to the point where we forsake our place as spectators and act in the present-future time.

Publicado por Patricia Canetti às 8:46 AM