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outubro 21, 2019

Stockinger 100 anos por Francisco Dalcol

Aclamado como um dos mais consolidados referenciais da arte do Rio Grande do Sul, Francisco Stockinger (1919-2009) é também reconhecido como um dos mais importantes representantes da escultura no Brasil. Hábil desenhista e artesão, esculpiu em gesso, madeira, metal e pedra, trabalhando também com desenvoltura em gravura, desenho, ilustração, charge e caricatura.

Nos anos 1950, trilhando o caminho inverso ao tradicional — do centro para a província —, mudou-se do Rio de Janeiro para Porto Alegre, cidade onde passaria a vida, tornando-se uma personalidade fundamental do cenário cultural com sua forte e atuante presença. Além de artista, teve um papel decisivo como agente do sistema da arte no Estado, participando de sua constituição ao se engajar em causas coletivas à frente de instituições culturais como o MARGS, o Atelier Livre e a Associação Chico Lisboa.

Ao lado de Iberê Camargo e Vasco Prado, Stockinger formou o tripé de maior projeção da arte moderna gaúcha, compondo uma espécie de santíssima trindade das artes visuais do Estado. Comungavam de certa visão na abordagem artística moderna, especialmente no tratamento dado à condição humana, seja em sua dimensão social ou existencial.

Com séries escultóricas como a dos seus afamados “Guerreiros”, iniciada nos anos 1960, Stockinger foi figura decisiva na fixação de valores modernos na cultura artística do Rio Grande do Sul, consolidando uma vertente de matriz expressionista. Também estabeleceu um fecundo diálogo entre a tradição da arte ocidental e os temas regionais, emprestando à sua obra um sentido coletivo e ao mesmo tempo universal.

Com esta exposição que celebra o centenário de nascimento de Stockinger, o MARGS afirma o compromisso com a nossa história artística, em seu dever de prestar esta importante homenagem, cuja solenidade se torna necessária para que a relevância de um grande artista seja recolocada e não se apague da memória coletiva.

Ao apresentar a quase totalidade das obras de Stockinger pertencentes ao acervo do MARGS, onde está suficientemente bem representado, esta exposição ainda reúne um significativo número de peças de acervos públicos e coleções particulares, que gentilmente aceitaram o convite de tomar parte na comemoração, apoiando este projeto com realização própria do museu.

Resulta disso uma exposição ampla, que traz a público obras bastante relevantes, mas não isenta de alguma lacuna pontual. Seja como for, o conjunto aqui apresentado é altamente expressivo e representativo da produção do artista. Stockinger obteve consagração ainda em vida, tendo sido frequentemente reconhecido ao longo de sua trajetória, como atesta a extensa fortuna crítica, teórica e histórica encontrada nos inúmeros textos, catálogos, livros e exposições a ele dedicados.

Reconhecendo se tratar de um artista já legitimado e amplamente abordado, esta exposição se assume mais panorâmica do que retrospectiva, tendo sido organizada segundo estratégias que procuram oferecer compreensão e legibilidade frente a uma produção tão extensa quanto diversa em suas etapas. Reforçam a opção por esse viés os diversos textos de mediação apresentados no espaço expositivo, com os quais se procura situar e contextualizar a obra e a trajetória do artista.

Ao assinalar e afirmar a importância de Stockinger, o esforço é tomar o seu centenário de nascimento, e os 10 anos de sua despedida, como um momento oportuno para se difundir o seu legado. O intento é proporcionar um reencontro e um renovado interesse com uma produção tão conhecida e aclamada, mas sobretudo oferecer uma experiência intensa e enriquecedora paraum público mais amplo e não totalmente familiarizado com a importância de sua obra e vida, notadamente as novas gerações.

Francisco Dalcol
Diretor-curador do MARGS
Doutor em Teoria, Crítica e História da Arte

Publicado por Patricia Canetti às 2:08 PM


Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural por Felipe Scovino

Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural

FELIPE SCOVINO

Esta exposição, Narrativas em Processo: Livros de Artista na Coleção Itaú Cultural, não permeia apenas os livros-objetos – comumente associados à expressão livros de artista –, mas propõe uma investigação das diferentes relações que podem ser estabelecidas entre livro e artista.

São várias as possibilidades de entendimento desse encontro: podemos compreendê-lo como uma publicação da qual o artista concebe conteúdo e design gráfico; a manufatura de um livro ou a intervenção conceitual ou física nesse suporte, em caráter de tiragem limitada; a ilustração de uma publicação; a execução de um álbum de gravura.

Depois de passar por Ribeirão Preto, São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte, a mostra chega ao Recife, cidade que abriga muitos artistas que se dedicam a essa produção tão singular nas artes. Em cada cidade, a escolha e o recorte das obras e das seções sofreram mudanças – e aqui não foi diferente. Com exceção da obra do argentino Jorge Macchi, esta mostra destaca os artistas brasileiros da coleção de livros de artista do Itaú Cultural na transição entre o moderno e o contemporâneo, especialmente o momento em que o formato do livro cria novas fronteiras em sua forma conceitual, expandindo o lugar da palavra para além da página. Acompanhando a criação de novos procedimentos para a concepção de livros de artista, são constituídas diversas relações entre obra e leitor.

A percepção dos livros se dá também por meio das imagens e do espaço gráfico construído. A ilustração, em particular, não é mais considerada uma mera reprodução visual e mecânica do que foi escrito pelo autor. Ela agora tem seu próprio campo de atuação e liberdade criativa. Um exemplo icônico dessa prática é o imprescindível livro Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, ilustrado por Cícero Dias, presente na mostra. O desenho ilustra o pensamento de Freyre ao mesmo tempo que cria o seu próprio espaço de autonomia e liberdade. Acredito também que a prática da ilustração foi fundamental para a experimentação e o desenvolvimento da técnica por parte desses artistas.

Com caráter histórico, a investigação do suporte livro de artista passa pela produção moderna e seu diálogo com a ilustração, pelos livros-esculturas dos poetas concretos, pelos álbuns de gravura, incluindo a literatura de cordel, e termina com um núcleo contemporâneo, dividido em Uma Escrita em Branco, Livros-Objetos, Rasuras e Paisagens.

As narrativas transbordam novas interpretações, entre as quais destacamos dois pontos de vista: o primeiro, da pluralidade de ações e das relações não só com a literatura e as artes visuais, mas com o design, a política e, em alguns momentos, a música; o segundo, de uma leitura que não se esgota, que se desdobra redefinindo os papéis do próprio livro, do leitor e do artista. Assim, alguns questionamentos são provocados: como um livro pode ser visto, representado e transformado? Como os procedimentos e a invenção do campo das artes visuais traçam fronteiras com a literatura e o design?

Felipe Scovino

Publicado por Patricia Canetti às 11:54 AM


outubro 14, 2019

Respiração #15 anos Opavivará! Boca a Boca por Marcio Doctors

Respiração #15 anos Opavivará! Boca a Boca

MARCIO DOCTORS

Percebo OPAVIVARÁ! como tendo herdado a linha de força que denomino ruptura pós-neoconcreta – o momento em que Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica criam um desvio do neoconcretismo e radicalizam a relação arte/vida. Os três, ao introduzirem o conceito de artista como propositor e de espectador como receptor ativo, como parte fundamental do processo de realização da obra, saem do campo da pureza da percepção para o campo da ação e enfatizam o aspecto concreto (daí concretismo e não construtivismo) da realidade. A obra só é efetivada, de fato, quando se dá o envolvimento do receptor ativo.

Em OPA essa questão é vivenciada de maneira intensa e de lucidez contagiante (posso me permitir afirmar que é a sua principal característica), criando tensões e fricções nos circuitos da vida cotidiana das pessoas e das cidades, pondo em questão os diferentes segmentos que fazem parte da dinâmica dos espaços urbanos da contemporaneidade. O coletivo exercita uma prática de diluição da fronteira entre arte e vida, levando para o espaço urbano práticas da vida doméstica e invertendo a lógica da segregação espacial e social das metrópoles, incluindo-se nisso também os espaços ditos públicos dos museus e das instituições culturais. OPAVIVARÁ! desconstrói o conceito tradicional de espaço urbano, explicitando que o desmonte das relações espaciais tradicionais já existe como estratégia de sobrevivência nas grandes cidades. As pessoas têm de recorrer a vários expedientes de sobrevivência, provocados por motivos como a falta de emprego, problemas de imigração, de transporte, de moradia, etc. ou mesmo por práticas positivas da vida em conjunto como ocorre nas praias cariocas, no Carnaval, nas feiras ou nos grandes eventos musicais ou nos museus-catedrais, que se tornaram destinos de peregrinação da indústria do turismo. Enfim, lida com essa energia do estar junto desde o processo de conceituação da obra até a sua consecução final que precisa ser experimentada e vivida por aqueles que entram em contato com ela.

Puxando as linhas de forças genealógicas pelas quais atravessa, podemos dizer que em algumas obras como os postais Eu amo camelô (Rio de Janeiro) ou a reedição do trabalho em Barcelona Eu amo manteros remetem a momentos Lygia Pape, numa forte relação com o espaço urbano (lembremos os espaços imantados de Pape):
Fazer esse postal é mexer com essa imagem que você quer mostrar de sua cidade. É uma operação de evocar as paisagens icônicas do Rio de Janeiro, pelos trabalhos e pelos vendedores ambulantes que estão também construindo a imagem dessa cidade.

Ou

O que observamos nas cidades globais é que estamos sempre nos espaços públicos e eles trazem essas tensões e essas tensões ficam expostas. E, de um modo geral, elas sofrem muito essa injeção de capital necessário, de uma indústria de produção e consumo onde a cidade tem que ser uma grande vitrine, um grande espetáculo desse sistema e esse sistema vem sempre com um pacote de normatividade de fascismo, racismo, xenofobia, machismo e isso se tensiona muito no espaço público. Há um lado imperativo desse sistema que vai se impondo, mas percebemos também que há uma resposta que tem uma voz que ecoa e é rápida e isso acontece muito no espaço público. Esse espaço público tenta ser muito controlado, sempre muito esvaziado, e nós entramos exatamente nesse espaço.

As ações propostas são sempre muito atraentes – convidando as pessoas para que façam parte delas –, induzindo ao prazer do estar junto, como a experiência de comer junto, repousar junto, cantar junto, enfim, experimentar os prazeres da vida que a rotina do cotidiano pode massacrar.

O prazer da experimentação do corpo sensório motor é fundamental para percebermos o lugar de onde OPAVIVARÁ! nos fala. E quem liberou esse lugar na arte brasileira foi a ruptura pós-neoconcreta. Podemos afirmar que, em linhas gerais, o que está sendo colocado é a busca por expressar a conformação de um novo processo de subjetivação. É a vontade de expressar esse novo acontecimento que está ocorrendo com a diluição das fronteiras entre o que é interior e exterior, subjetivo e objetivo nas sociedades contemporâneas, que foi anunciado pelas experiências propostas pelos artistas da ruptura pós-neoconcreta.

Em cada um deles, esse fenômeno se expressa de maneira distinta. Lygia Clark busca a dimensão do interior, como o avesso extensivo da exterioridade (por isso essa visão mais psicanalítica); Lygia Pape, a dimensão do outro na sua relação com a trama do social, por isso essa aguda sensibilidade em relação ao espaço urbano e as teias sociais; e Hélio Oiticica, com a dimensão do prazer como o grande catalisador e como ponto de encontro e de dissolvência entre a dimensão interior e exterior. Mas, em todos eles, o corpo é o motor da obra.

OPAVIVARÁ! transita nas diferentes camadas dessas potências expressivas, buscando estabelecer outra espacialidade em que a arte surge como um instrumento possível de questionar de maneira alegre, leve e vivaz as relações interpessoais e interespaciais no contexto das grandes metrópoles. Essa foi mais uma razão que me levou a fazer o convite para participar da 24ª edição do RESPIRAÇÃO. Afinal, o material que estava sendo oferecido para OPA era o de uma casa, cuja vida havia sido retirada dela quando foi transformada em casa-museu. A pergunta é: como se relacionar com um espaço que se pretende público e, ao mesmo tempo, é da ordem do privado, na medida em que se conservam todos os cômodos de uma residência e até os objetos pessoais de sua proprietária, mas que não podem ser utilizados como tal? Do que sentiu falta o OPA e o que muitos artistas que participam do RESPIRAÇÃO também sentem é a ausência do fluxo de vida que foi interrompido, quando a casa virou museu.

Uma das formas como OPAVIVARÁ! equacionou essa questão, de maneira bastante perspicaz, foi quando optou por trazer algumas obras que já haviam sido realizadas em outros contextos (muitas vezes públicos), mas que aqui poderiam adquirir uma nova potência de existir, ao serem reintroduzidas em um ambiente de casa-museu. Apesar desse tema ser “banal” no contexto da arte atual e ser este o próprio mote do RESPIRAÇÃO, ou seja, o da recontextualização, ele deixa de sê-lo, quando se torna uma estratégia de ação, tal como é proposto pelo RESPIRAÇÃO. Em outras palavras, assumem radicalmente o propósito e o objetivo do projeto.

Por exemplo, uma obra como Pornorama sugere (pelo jogo de palavras) que o visitante vivencie a Sala Renascença com uma visão panorâmica, tal como Eva Klabin fez, ao exibir a história da arte de maneira panorâmica, agrupando-a em quatro vitrines nos cantos da sala, que contemplam, cada uma, um dos quatro continentes importantes na história das grandes navegações e do período renascentista (Europa, Ásia, África e Américas). Ao mesmo tempo, induz a ideia de que o visitante de uma casa-museu é uma espécie de voyeur da intimidade alheia. Essa percepção não poderia acontecer melhor em nenhuma outra tipologia de museu, do que numa casa-museu. Desloca o ponto de observação de uma postura ereta e frontal, como acontece nos museus tradicionais, para uma posição deitada, que permite ter uma visão sem obstáculos do conjunto da sala ou fixar seu olhar em determinados pontos específicos de observação, abrindo e fechando as cortinas do dossel. Ou, ainda, simplesmente, relaxar, reafirmando a ideia do museu como local de heterotopia da vida contemporânea, onde é possível usufruir de uma utopia espacialmente momentânea, que nos retira da aceleração do cotidiano em que vivemos.

A reedição do Sofáraokê, assim como as Espreguiçadeiras multi adquirem também outras camadas de sentido, quando recontextualizadas na Casa-Museu Eva Klabin. Costumo parafrasear Borges dizendo que esta casa-museu é a casa de uma europeia no exílio. Quando OPA traz com as Espreguiçadeiras multi o sol das praias para o interior da casa, que foi concebida para ser vivida à noite (Eva Klabin trocava o dia pela noite), remete-nos para um aspecto fundamental da vida da cidade, assim como o Sofáraokê traz de volta a boemia, tal como na época de quando Eva Klabin vivia e promovia noitadas em sua casa. Recupera também um traço importante da vida da cidade, que é a alegria irreverente do bom humor do carioca, que, infelizmente, está desaparecendo, após anos de tantos maus tratos.

No entanto, a obra mais emblemática da 24ª edição do RESPIRAÇÃO é Panis et Circenses. É quando o coletivo manifesta o sentido mais transgressor de suas ações e que melhor contribui para oxigenar a casa-museu e o RESPIRAÇÃO. Panis et Circenses é uma bolha. É um espaço criado pelo ar que é insuflado na bolha e como o pulmão ela pulsa num movimento de inspiração e expiração, tal como uma respiração. E o mais incrível é seu sentido de fina ironia porque cria um espaço onde será musealizada a vida que foi retirada da casa. Há uma inversão de valores. A mesa da Sala de Jantar, onde não acontecem mais os jantares para os quais o ambiente foi destinado, por uma questão de preservação da coleção, evitando a entrada de alimentos em área protegida do museu, com a bolha de ar receberá um salvo-conduto para que alimentos e bebidas voltem a ser consumidos no interior do museu. O ato mais primário da vida – o de alimentar-se – retorna dando vida ao museu, só que agora musealizado, em que nos tornamos objetos de apreciação da coleção que nos observa, fazendo-nos prisioneiros de nossa própria armadilha, como se tivéssemos sido capturados pela imagem do espelho.

1 – Entrevista de OPAVIVARÁ! ao programa de Ronaldo Lemos no Canal Futura (28/11/2017).

2 – Entrevista de OPAVIVARÁ! ao programa de Ronaldo Lemos no Canal Futura (28/11/2017).

Publicado por Patricia Canetti às 4:04 PM


Respiração #15 anos por Marcio Doctors

Respiração #15 anos

MARCIO DOCTORS

“Talvez se pudesse dizer que certos conflitos ideológicos que animam as polêmicas de hoje em dia se desencadeiam entre os piedosos descendentes do tempo e os habitantes encarniçados do espaço”.
Foucault [1].

O projeto Respiração é uma proposta de dessacralização; de permitir que a densidade do tempo histórico seja permeada pela voracidade pulsante dos “habitantes encarniçados do espaço” (Foucault)[2] no maior dos templos da contemporaneidade, que é o museu de arte. É nele que são guardados os vestígios sagrados, que secretamente sobrevivem ao tempo, insistindo em permanecerem no espaço, como sopros de vidas que não querem ser desfeitos pelo tempo.

É no museu que guardamos o tempo e foi nesse templo que ousei há 15 anos pensar em fazer que o espaço respirasse pelos poros da epiderme sensível do tempo. Do tempo agora. Do tempo aqui. Experimentar vendo como era possível que o clamor do atual se defrontasse com o sono parestésico do tempo, que sobrevive através das ficções históricas, alimentando o devir, que se faz futuro no presente. É desse tempo (quase atemporal) que o RESPIRAÇÃO trata porque anseia pelo espaço. Quer tanto a força da presença do espaço, que ao tempo museu não restou alternativa a não ser curvar-se e resignar-se a que, um dia, aqueles vestígios de espaço do tempo contemporâneo serão vestígios de tempo histórico também.

Todos os que por aqui passaram, e fizeram o RESPIRAÇÃO, fizeram-se tempo presente. Alimentaram a vaidade desse espaço que ansiava por ser para além do sonho de Eva Klabin. Fizeram-se tapetes voadores levando-nos de um tempo a outro, reinventando o espaço, nesse templo do tempo. Ah! A nostalgia do tempo… que insiste em ser como a procura do cego com sua bengala a beira do abismo, buscando o espaço tátil do vazio. É sobre esse risco que vos falo. Sobre esse limiar inebriante do cotidiano, que palpita entre as certezas e as incertezas de sermos para além, sendo aqui. São esses os poros da epiderme tempo, que se contrai e se dilata reconhecendo-se e desconhecendo-se, fazendo o espaço respirar.

Paul Valéry foi quem matou a charada ou a cilada ou quem talvez tenha chegado mais próximo do segredo que alimenta a esfinge arte (decifra-me ou devoro-te), ao enunciar: “O mais profundo é a pele”, que é o lugar onde estamos enquanto somos: no limiar da epiderme. O fora do dentro, o dentro do fora. É nesse lugar que a arte se reinventou, quando a ruptura pós-neoconcreta (Lygia Clark | Lygia Pape| Hélio Oiticica) ousou pensar que a obra de arte, só se faz quando se realiza na impregnação vivente de quem a experimenta. Entende-se fazendo. Não há uma supremacia da transcendência monopolizada pela alma privilegiada do tempo (o artista), nem a presença monolítica e enigmática do espaço (a obra de arte), mas a pulsão ativa de quem a vivencia, abrindo os flancos da respiração, produzindo o acontecimento arte, que não é outra coisa senão a identificação no fazer: a empatia. Reconhecer-se na identificação: encontro-me enquanto faço; descubro-me ali, experimentando; ali me reconheço, reconhecendo as setas do espaço, no meu tempo. É um ato em processo, que pertence a um, nenhum e cem mil (Pirandello).

O RESPIRAÇÃO tem, na sua origem, fazer a exegese da ruptura pós-neoconcreta. O projeto busca explicitar a pulsão que existe em nós entre o dentro e o fora. Entre o Eu e o outro, quando somos também o outro do outro. Quando percebemos que o espaço fora de nós no qual vivemos não é um vazio, mas um espaço tão real e concreto quanto o nosso corpo, como se fôssemos ora o verso, ora o anverso desse espaço. É o vazio pleno (Lygia Clark). Se há um espaço interior pleno, não significa que vivemos, em contraposição, em um espaço exterior vazio. O espaço no qual vivemos, pelo qual somos atraídos para fora de nós mesmos, no qual decorre precisamente a erosão de nossa vida, de nosso tempo, de nossa história, esse espaço que nos corrói e nos sulca é também em si mesmo um espaço heterogêneo ². É desse e nesse espaço heterogêneo, que o RESPIRAÇÃO quis fazer-se real. O projeto nasce do desejo de provocar a colisão de dois espaços, que desencadeasse em um; a transparência do tempo do outro. Um outro museu possível dentro de um museu, fazendo com que a irredutibilidade de um brilhasse ao encontrar-se com a irredutibilidade do outro.

[1] Foucault, M. 2013. Outros espaços. In: Barros da Mota, M. (org.). Ditos e escritos III. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013, p. 142.

[2] Ibid., p. 414

Publicado por Patricia Canetti às 3:54 PM


outubro 10, 2019

Camila Elis - Da alma, e as coisas suspensas por Bruna Fetter

O amor, sentimento tão desejado e, por vezes, temido. Que nos descola do chão e desloca o centro de gravidade, podendo levar do êxtase ao desespero, da alegria ao ciúme.

Amor carnal, amor platônico, amor que se apodera do nosso corpo, sono, fome, dos nossos pensamentos, da nossa alma. Esta mostra é sobre o amor. Não qualquer amor. Ela parte de um enamoramento da jovem artista Camila Elis pelos afrescos realizados por Rafael sobre a representação do mito de Psiquê e Eros no teto da Vila Farnesina, em Roma.

Poucas passagens da mitologia grega são tão expressivas dos mais profundos - e, ao mesmo tempo, cotidianos e banais - sentimentos humanos do que a narrativa da união entre esta mortal e um deus, ou sobre a conturbada relação que se estabelece entre a alma e o amor.

Em suas mais variadas versões, com distintos detalhes e alegorias, este mito expressa as idas e vindas, as venturas e desventuras, o lado sublime e o cruel que relacionamentos erótico-amorosos podem causar. Da elevação do ser à mesquinharia e inveja, do prazer à insegurança, da dor à cura.

***

Segundo o mito, Psiquê - a mais nova das três filhas de um rei de Mileto - era extremamente bela. Tão bela que pessoas de diversas regiões iam até ela somente para admirá-la e render-lhe homenagens. Homenagens essas que costumavam ser prestadas somente à Afrodite, deusa da beleza.

Assim, a beleza de Psiquê desperta a inveja e ira de Afrodite, que pede a seu filho Eros, conhecido também por Amore ou Cupido, para utilizar uma de suas flechas e fazer a moça se apaixonar por um ser monstruoso. Eros se atrapalha frente à beleza de Psiquê, acaba atingido por uma de suas próprias flechas e apaixona-se por ela.

De outra parte, diz a fábula que o pai de Psiquê resolve consultar o oráculo de Apolo, uma vez que a filha, apesar da grande beleza, permanece solteira. O oráculo ordena que Psiquê seja levada ao topo de uma montanha e lá abandonada, para casar-se com uma serpente. Com medo, Psiquê é conduzida até este local, onde adormece, para acordar num maravilhoso palácio, provavelmente de um deus, no qual tem todos os seus desejos magicamente atendidos por ajudantes invisíveis. Ao anoitecer, ela finalmente encontra seu esposo - Eros - que, para esconder a união entre ambos de sua mãe, lhe diz que eles serão casados, mas que ela jamais poderá ver seu rosto. Ao ouvir a voz amável e sedutora de Eros, Psiquê se entrega a ele e se apaixona, vivendo em estado de felicidade plena.

No entanto, e apesar de sua grande felicidade, o tempo passa e ela sente saudades de suas irmãs. E, após muito insistir junto ao marido, vai visitá-las. As irmãs não acreditam na felicidade de Psiquê e, enciumadas, incitam-na a descobrir a identidade do marido, dizendo que se ele não mostra o rosto é porque há algo de errado. Ela, curiosa, cede à tentação e, enquanto Eros dorme ao seu lado, leva uma vela perto de seu rosto e uma faca para matá-lo, caso fosse realmente um monstro. Ao observá-lo dormindo, Psiquê se distrai com sua beleza e doçura, e uma gota de cera escorre e queima o ombro do marido, que acorda furioso e a expulsa do seu palácio dizendo que o amor não pode conviver com a suspeita.

Inconsolável por perder seu grande amor, Psiquê decide reconquistar a confiança de Eros. Para tanto, propõe-se a prestar homenagem à Afrodite e implorar seu perdão. A deusa, enraivecida por ter sido desobedecida e ainda ter que curar a ferida de Eros, impõe quatro tarefas a Psiquê, todas difíceis e perigosas. A última delas, de caráter mortal, leva Psiquê a descer ao mundo inferior e pedir a Perséfone um pouco da sua beleza em uma caixa para levar à Afrodite. Psiquê consegue transpor todos os obstáculos e seu objetivo lhe é concedido. No entanto, por insegurança, vaidade e, novamente, curiosidade, Psiquê abre a caixa. Ao invés da beleza, ela é acometida por um terrível sono que a impede de retornar.

Eros, já curado da ferida, descobre a tirania da mãe e vai ao encontro de Psiquê. Coloca o sono novamente dentro da caixa e a aconselha a ir até Afrodite para cumprir a última tarefa. Enquanto isso, ele mesmo vai a Zeus (Júpiter), pedindo que acalme Afrodite e celebre seu casamento. Zeus atende aos pedidos de Eros e abençoa a união eterna entre alma e amor. Em seu devido tempo, dessa união nasce Voluptas, ou o prazer.

***

O que este mito representado nos afrescos pintados por Rafael no teto da Vila Farnesina há quase cinco séculos e os filmes “My summer of love” (2004), de Pawel Pawlikowski e “Candy” (2006), adaptação do diretor Neil Armfield do romance homônimo de Luke Davies, têm em comum? Além da manifestação do desejo de fusão com o outro, são, também, inspirações essenciais para a exposição Da alma, e as coisas suspensas, primeira individual de Camila Elis na Galeria Mamute.

Partindo de referências tão marcantes quanto diversas, a artista explora nas pinturas e desenhos abstratos presentes na mostra diversas emoções e experiências absolutamente humanas. Nas pinturas de grande formato, todas cenas estão em diálogo com passagens presentes nos afrescos de Rafael. Nesses trabalhos, Camila Elis ocupa o espaço de uma forma fluída, no qual as tintas e linhas compõem estruturas chamadas por ela de “moles”. Há momentos solares, outros mais obscuros, fugazes e frios. Há também o enamoramento e sua vertigem expressos em sutis camadas de cores que se avolumam gerando as típicas dualidades vivenciadas por quem se apaixona.

Já nos desenhos, embasados na decadência de “Candy” e suas tardes de extravagante prazer seguidos por ciclos de (auto)destruição, a artista enfrenta plasticamente as dificuldades de alguns relacionamentos (re)existirem. Passando do maravilhamento inicial às dores reais, aqui as linhas são mais contundentes, e a rarefação de manchas conduz a uma dureza não vista nas camadas executadas sobre linho. O papel e sua delicada aspereza ambientam desencontros inevitáveis.

Após o contato inicial, a paixão. E a escolha (seria mesmo uma escolha?) de se apropriar, de ter perto de si, de possuir esse alguém, esse algo, essa narrativa, essas imagens.

Camila Elis apaixonou-se por uma história e suas diversas representações e, a partir dessa referência conceitual e estética, construiu um universo imagético e sinestésico para lidar com suas fantasias, expectativas e decepções, uma perspectiva visual abstrata do sentimento. Para isso utilizou cores e formas, estruturas e corrosões. E assim entreviu o encontro da alma - essa coisa flutuante, intangível, elevada - com o arrebatamento causado pelo amor. Quem não gostaria de sentir o mesmo?

Publicado por Patricia Canetti às 2:26 PM